Dida Sampaio/ Estadão
O ministro da Educação, Abraham Weintraub, visita manifestantes bolsonaristas que furaram o bloqueio na Esplanada dos Ministérios neste domingo, 14. Dida Sampaio/ Estadão

Bolsonaro critica ida de Weintraub a ato e diz que está ‘tentando solucionar’ problema

Situação de ministro da Educação já era considerada insustentável, mas piorou após Weintraub se reunir no domingo com cerca de 15 manifestantes

Jussara Soares e Camila Turtelli, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2020 | 18h20

BRASÍLIA - O presidente Jair Bolsonaro afirmou nesta segunda-feira, 15, que o ministro da Educação, Abraham Weintraub, não foi prudente ao participar de ato contra o Supremo Tribunal Federal no domingo e que está "tentando solucionar" a situação do auxiliar, que chamou de "problema". Como mostrou o Estadão mais cedo, o presidente busca uma saída para que Weintraub deixe o governo de forma menos traumática possível. 

"Eu acho que ele não foi muito prudente em participar da manifestação, apesar de não ter falado nada de mais ali. Mas não foi um bom recado. Por quê? Porque ele não estava representando o governo. Ele estava representando a si próprio. Como tudo o que acontece cai no meu colo, é um problema que estamos tentando solucionar com o senhor Abraham Weintraub", afirmou Bolsonaro em entrevista à BandNews TV. A declaração ocorreu pouco após o presidente se reunir com o ministro no Palácio do Planalto.

A situação de Weintraub já era considerada insustentável em parte do governo pelas polêmicas que ele tem acumulado, mas piorou após o ministro se reunir no domingo, 14, com cerca de 15 manifestantes bolsonaristas. O ato desrespeitou uma ordem do governo do Distrito Federal que proibiu protestos na Esplanada dos Ministérios. Nesta segunda, Weintraub foi multado em R$ 2 mil por não usar máscara na ocasião.

No encontro com os manifestantes, o ministro insistiu nas críticas a ministros do Supremo: "Eu já falei a minha opinião, o que faria com esses vagabundos”. A declaração remete ao que ele já havia falado na reunião ministerial do dia 22 de abril, quando disse que colocaria na cadeia os ministros da Corte, a quem classificou como “vagabundos”. Ele responde a um processo por causa dessa afirmação.

Apesar da crítica a ida do auxiliar ao ato no domingo, o próprio presidente compareceu a ao menos sete manifestações antidemocráticas, que pediam o fechamento do Congresso e do STF, realizadas entre abril e maio. Nos últimos dois fins de semana, no entanto, Bolsonaro evitou participar, numa tentativa de esfriar os ânimos com os demais poderes.

Para os grupos político e militar do governo, a demissão de Weintraub é essencial para o Planalto construir uma trégua com o Supremo e com o Congresso. Eles argumentam que o ministro é um gerador de crises desnecessárias em um momento em que o presidente, pressionado por pedidos de impeachment e inquéritos que podem levar à cassação do mandato, tenta diminuir a tensão na Praça dos Três Poderes.

Por outro lado, a ala ideológica e os filhos do presidente defendem Weintraub, que tem o apoio dos bolsonaristas nas redes sociais. Demiti-lo neste momento, argumentam, é desagradar a base que tem defendido o presidente no fogo cruzado com Legislativo e Judiciário.

Após a reunião de mais de uma hora com Bolsonaro no Palácio do Planalto, Weintraub disse a interlocutores que ele permanece no cargo. O ministro retornou ao prédio onde fica a pasta da Educação e não conversou com a imprensa. A deputada governista Carla Zambelli (PSL-SP) também escreveu no Twitter que o ministro permanece na função.

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Bolsonaro pede que STF não afronte Executivo e cita ‘interferência brutal’

Presidente disse que não pode concordar com decisão do ministro Alexandre de Moraes, que impediu posse na PF; ‘Estou sendo consciente e complacente demais’

Gregory Prudenciano, Daniel Galvão e Pedro Caramuru, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2020 | 19h15

SÃO PAULO – O presidente Jair Bolsonaro (sem partido-RJ) julgou como uma “interferência brutal” do Supremo Tribunal Federal (STF) a decisão do ministro Alexandre de Moraes que impediu a posse de Alexandre Ramagem como diretor-geral da Polícia Federal, em substituição a Maurício Valeixo. Em entrevista à TV BandNews, Bolsonaro disse que não pode concordar tal iniciativa e que estaria sendo até complacente com o que entende como interferência indevida no Poder Executivo. 

“Foi mais uma brutal interferência do STF no Executivo, não podemos concordar com isso. Estou sendo consciente e complacente demais, não quero dar soco na mesa e afrontar ninguém, mas peço que não afronte o Poder Executivo”, falou o presidente. 

Na entrevista, Bolsonaro também disse que o STF errou ao dar autonomia a Estados e municípios no desenvolvimento e aplicação de medidas contra a covid-19. “O STF errou, tinha que ter uma orientação governamental, eu poderia fazer um conselho, fazer as políticas”, explicou. 

A declaração do presidente ocorre no mesmo dia em que Moraes determinou a prisão de seis integrantes do grupo “300 do Brasil”, que apoia Bolsonaro. Entre os alvos dos mandados de prisão está a ativista Sara Winter, que tem participado de manifestações em Brasília que pedem o fechamento do Supremo. Ela é alvo do inquérito que investiga a organização de atos antidemocráticos, conduzido pelo STF. 

Na noite do último sábado, pouco antes do fechamento da Esplanada dos Ministérios para veículos e pedestres, manifestantes do grupo simularam com fogos de artifício um ataque ao Supremo Tribunal Federal (STF). Os fogos foram disparados às 21h30 na direção do edifício principal do STF, na Praça dos Três Poderes, enquanto os manifestantes xingavam ministros da Corte. 

Decisão

A decisão de barrar a nomeação de Ramagem, no fim de abril, ocorreu após pedido apresentado pelo PDT. No despacho, o ministro considerou que as declarações do ex-ministro Sérgio Moro, sobre tentativa de interferências na autonomia da PF, tornaram necessária a suspensão da posse, ao menos em caráter provisório. Ele também citou a divulgação de mensagens trocadas entre o presidente e o ex-ministro e a abertura do inquérito no próprio Supremo para investigar as acusações. Segundo Alexandre de Moraes, o caso apresenta “ocorrência de desvio de finalidade”. 

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‘Como vou dar golpe se eu sou o presidente?’, questiona Bolsonaro

Presidente critica julgamento de sua chapa eleitoral no TSE, e diz que ‘não existe intervenção militar’

Redação, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2020 | 20h09

BRASÍLIA – O presidente Jair Bolsonaro negou nesta segunda-feira, 15, a intenção de uma intervenção militar no Brasil, apesar de sua constante participação em manifestações antidemocráticas, marcadas por mensagens pelo fechamento do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Congresso. “Como darei um golpe se sou presidente da República e chefe supremo das Forças Armadas?”, questionou Bolsonaro em entrevista à TV Band News nesta segunda-feira. 

“Existe AI-5? Não existe mais atos institucionais. É a mesma coisa que levantar uma faixa ‘pena de morte’, não existe pena de morte. É a mesma coisa ‘intervenção militar, artigo 142’, não existe intervenção militar”, disse Bolsonaro. 

O AI-5 foi o Ato Institucional mais duro instituído pela repressão militar nos anos de ditadura, em 13 de dezembro de 1968, ao revogar direitos fundamentais e delegar ao presidente da República o direito de cassar mandatos de parlamentares, intervir nos municípios e Estados. Também suspendeu quaisquer garantias constitucionais, como o direito a habeas corpus, e instalou a censura nos meios de comunicação. A partir da medida, a repressão do regime militar recrudesceu. 

O presidente fez uma referência a uma nota divulgada por ele na sexta-feira, 12, assinada com o vice-presidente Hamilton Mourão e o ministro da Defesa, Fernando Azevedo, para declarar que as Forças Armadas não cumprem “ordens absurdas” como tomada de poder e que também não aceitam julgamentos políticos que levem à tomada de poder “por outro poder da República”.

Bolsonaro também criticou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que retomou na semana passada a análise em plenário de duas ações que pedem a cassação da chapa eleita à Presidência em 2018. As ações tratam de ataques cibernéticos a um grupo de Facebook. As campanhas de Marina Silva (Rede) e Guilherme Boulos (PSOL) alegam que, durante a eleição, o grupo do Facebook “Mulheres Unidas contra Bolsonaro”, que reunia mais de 2,7 milhões de pessoas, sofreu ataque virtual que alterou o conteúdo da página, incluindo o nome, que mudou para "Mulheres COM Bolsonaro #17”, e isso teria beneficiado a imagem de Bolsonaro, então candidato.

“Com todo o respeito, mas me julgar por uma página que ficou fora do ar por menos de 24 horas, pra cassar a chapa Bolsonaro-Mourão, é inadmissível isso daí. Isso, no meu entender, é começar a esticar a corda. É começar a alimentar uma crise, que não existe da nossa parte”, disse.

As ações que mais preocupam o Palácio do Planalto são outras quatro, que apuram irregularidades na contratação do serviço de disparos em massa de mensagens pelo aplicativo WhatsApp durante a campanha eleitoral.

Se a chapa for cassada ainda neste ano pelo TSE, novas eleições deverão ser convocadas para definir o novo ocupante do Palácio do Planalto. Caso o presidente e o vice sejam cassados pelo tribunal em 2021 ou 2022, caberá ao Congresso a escolha. Até hoje, o TSE jamais cassou um presidente da República. 

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