Isac Nóbrega/Planalto e Wilton Junior/Estadão
Isac Nóbrega/Planalto e Wilton Junior/Estadão

Bolsonaro diz que vai prestar esclarecimentos ao STF sobre pai de presidente da OAB

'O que eu falei de mais? Que eu tive conhecimento na época... Eu ofendi o pai dele? Não ofendi', afirmou o presidente na manhã desta sexta; Santa Cruz diz que 'lamenta'

Mariana Haubert e Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

02 de agosto de 2019 | 11h21

O presidente Jair Bolsonaro confirmou nesta sexta-feira, 2, que irá prestar os esclarecimentos ao Supremo Tribunal Federal sobre as suas declarações em relação à morte do pai do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz.

Na quinta, o ministro do STF Luís Roberto Barroso deu um prazo de 15 dias para Bolsonaro, "querendo", apresentar esclarecimentos sobre a morte do desaparecido político e integrante do grupo Ação Popular (AP) Fernando Augusto de Santa Cruz Oliveira.

Nesta semana, Bolsonaro apresentou uma versão sobre a morte do militante que não tem respaldo em informações oficiais. O presidente da OAB acionou então o Supremo para cobrar esclarecimentos de Bolsonaro.

"O próprio ministro [determinou] que eu não tenho essa obrigação. Mas é só transcrever o que eu falei para vocês aqui. O que eu falei de mais? Que eu tive conhecimento na época... Eu ofendi o pai dele? Não ofendi. O que eu tive conhecimento na época foi o que falei", disse. 

Bolsonaro contou que recebeu ontem o filho do jornalista Edson Régis, que, de acordo com ele, morreu fruto de uma bomba em Recife em 1966. "Quem botou aquela bomba foi a turma da ação popular, grupo que o pai do presidente da OAB integrava", disse.

Ele afirmou ainda lamentar as mortes que ocorreram dos "dois lados". "Se não tivesse tido essa vontade de implantar o comunismo no Brasil, nada disso teria acontecido. Se tivessem aceitado a normalidade do que acontecia, nada...", disse.

Resposta de Santa Cruz 

O presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Felipe Santa Cruz, disse nesta sexta-feira, 2, que lamenta a declaração do presidente Jair Bolsonaro de que "não viu nada de mais" nas frases sobre a morte de seu pai durante o período da ditadura militar. 

"Eu lamento a declaração do presidente de que 'não viu nada de mais'. O Brasil viu a gravidade dessas declarações. Passei a semana inteira sem polemizar. O que eu tinha que fazer, fiz. Uma petição que pede que o supremo mandatário da República esclareça com seriedade e responsabilidade o que disse", afirmou Felipe Santa Cruz a jornalistas em um almoço com advogados em um hotel em São Paulo. 

Segundo Santa Cruz, a fala do presidente Jair Bolsonaro representou uma incompreensão grave. Nesta semana, Bolsonaro disse que o então estudante de Direito foi morto por correligionários, versão que contraria a documentos que reconhecem a responsabilidade do Estado brasileiro no sequestro e desaparecimento do militante em 1974. 

 "Antes de me atacar de forma cruel e com pouca empatia, tentando atingir o tema que ele sabe que é mais duro para mim, que é a memória do meu pai, ele começa esse debate falando de prerrogativas dos advogados e, mais uma vez, divulgando uma notícia falsa", afirmou, citando a declaração de Bolsonaro de que a OAB teria impedido a perícia de Adelio Bispo, o responsável por esfaqueá-lo durante a campanha eleitoral em setembro do ano passado. 

O advogado comentou também sobre as ameaças que sua família vem recebendo nas redes sociais. Ele disse haver no País hoje um clima de ódio que o preocupa. "É um debate agressivo, baseado em notícias falsas, buscando desconsiderar as pessoas e suas histórias", disse. 

Santa Cruz afirmou que comunicou à Polícia Federal e que, agora, cabe à instituição identificar o perfil e esclarecer se é "um destempero" ou "algo que devemos mesmo nos preocupar e enfrentar".

Dallagnol e Moro

Durante a entrevista a jornalistas na saída do Palácio da Alvorada, Bolsonaro não quis comentar se seria a favor do afastamento do procurador Deltan Dallagnol por causa do vazamento de mensagens em que ele teria falado contra ministros do Supremo Tribunal Federal e sobre o pedido pela Corte de compartilhamento das informações sobre a investigação.

Questionado sobre se o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, teria condições de permanecer no cargo caso as informações por hackers sejam confirmadas, Bolsonaro afirmou confiar no ministro e não ver motivos para demiti-lo. "Até o presente momento, eu não tive problemas com Sergio Moro. Ele, no meu entender, prestou grande serviço à nação mostrando as entranhas da corrupção. Não posso falar nada mais além disso", disse.

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