Rodrigo Viga/Reuters
Rodrigo Viga/Reuters

Bolsonaro diz que terá de chegar a 'meio-termo' com Moro em caso de discordância

Presidente eleito diz que futuro ministro da Justiça terá carta branca, mas reconhece que há pontos em que os dois são antagônicos

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

05 Novembro 2018 | 17h29

RIO - O presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) disse nesta segunda-feira, 5, que deu “carta branca de 100%” para o seu futuro ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, mas que em situações de discordância, eles terão de chegar a um “meio-termo”. Como exemplo, citou a questão da redução da maioridade penal, que defende.

“Na conversa que tive rapidamente com Sérgio Moro, de 40 minutos, dei carta branca para ele tratar de assuntos de corrupção e crime organizado, 100%. Não vai ter indicação na Polícia Federal. É carta branca 100%”, declarou, em entrevista à Band, lembrando que muitos dos assuntos controversos ainda passarão pela Justiça. “Naquilo que nós somos antagônicos, vamos buscar o meio-termo. Sou favorável à posse de arma; se a ideia dele for o contrário, tem que chegar a um meio-termo”, afirmou.

Ele citou bandeiras de campanha, como a redução da maioridade penal e a flexibilização do Estatuto do Desarmamento, e disse que elas não serão deixadas de lado mesmo que Moro pense de forma oposta. Ao falar do direito à posse de arma, disse: “Nunca deixei de dormir com arma de fogo do lado”.

Bolsonaro comentou políticas para redução da violência urbana e declarou ser favorável ao uso de drones com armamento acoplado, defendido pelo governador eleito do Rio, Wilson Witzel (PSC). “Vocês da mídia dizem que vivemos em guerra. Sou a favor porque não tem outro caminho. Do outro lado tem alguém atirando à vontade. Como você põe um ponto final?”

Junção de Ministério da Comunicação ao de Ciência e Tecnologia

Ainda de acordo com a entrevista de Bolsonaro à Band, o Ministério das Comunicações deverá ficar junto com a pasta da Ciência e Tecnologia, a qual será comandada pelo astronauta Marcos Pontes. Ele disse que o nome para o Ministério das Relações Exteriores ainda não foi divulgado porque o convite ainda está em fase de “namoro”.

Ao falar da necessidade de turbinar o agronegócio em seu governo, reafirmou que não haverá novas demarcações de terras indígena e que o índio deve ser tratado como “um ser humano igual a nós (sic)”. “Ele quer evoluir, quer médico, dentista, internet, carro, viajar de avião. Quando tem contato com a civilização, vai se moldando a outra maneira de vier, que é bem melhor que a dele. O índio não pode ser animal dentro do zoológico. Por que o índio não pode ter liberdade? Se quiser vender a terra, que venda, explore, venda. A Funai participa em laudos para dizer se existe vestígio de índio no terreno. Isso não pode continuar existindo no Brasil”.

Ele declarou que acredita que terá apoio no Congresso. Afirmou que “95% dos parlamentares conversam” com ele. “Estou confiando no convencimento para conseguir os votos necessários para dias melhores para todos nós. Está chato viver no Brasil”.

Relações com a China

Ao falar dos dados que estão chegando a seu conhecimento no período de transição de governo, disse ter ficado surpreso com a quantidade de petróleo que a Petrobrás exporta para a China e também com o número de funcionários não concursados na empresa.

Após receber em sua casa, no Rio, o embaixador da China no Brasil, Li Jinzhang, Bolsonaro disse que tem interesse de aumentar seus negócios com o país, mas que “todos os países podem comprar no Brasil, mas não comprar o Brasil”. “Está na cara que China quer aumentar negócios com Brasil. Não teremos nenhum problema com a China, pelo contrário, (negócio) pode ser até ampliado”, afirmou, em entrevista à Band.

Sobre o encontro com representantes da diplomacia italiano, contou que afirmou a eles que Cesare Battisti irá retornar ao país, mas ressalvou que ainda será necessário o posicionamento do Supremo Tribunal Federal. No lugar do Mercosul, ele reforçou, o Brasil apostará em relações bilaterais no continente.

Reforma da Previdência

Ao falar novamente sobre a reforma da Previdência, Bolsonaro voltou a declarar que quer que as mudanças saiam no início do ano que vem, caso a proposta atual não seja votada esse ano ainda. Ainda tratando de economia, ele reafirmou que “não existe recriação da CPMF” e que é preciso “puxar a orelha de um assessor para não ir além do que lhe compete”.

Ele declarou também que tem conversado com parlamentares e argumentado que se seu “governo der errado, PT tem tudo pra voltar; em voltando, não sai mais” e que o País “não terá outra chance” de “mudar seu destino”. Ao comentar críticas do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, disse que ficaria preocupado se fosse elogiado por ele.

Ao ser perguntado sobre o destino do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso desde abril, ratificou que “não existe possibilidade” de ele receber um indulto presidencial em seu governo.

Ao comentar o veto a jornalistas do Estado, da Folha de S. Paulo, de O Globo e do Valor na quinta-feira, 1º, em entrevista em sua casa, ele disse: “Eu não brigo com a imprensa, a imprensa é que briga comigo”. “Não podia entrar mais gente. Se entrasse, ia ter bagunça. Tinha uns 30 repórteres aqui dentro”, argumentou.

Criticando mais uma vez a Folha por reportagens durante a campanha, ele disse ainda: “Minha bronca não é com a imprensa. Quero que a ‘Folha’ se retrate. Gostaria, não posso exigir. Quem vai decidir se a ‘Folha’ vai ficar viva não sou eu, são seus leitores”.

Intervenção no Rio

Ele criticou a intervenção federal na segurança do Rio, decretada em fevereiro e com validade até 31 de dezembro. “Não teve qualquer planejamento. Lavaram as mãos. Talvez pensando no período eleitoral, botaram esse abacaxi nas costas das Forças Armadas. Sabemos da insatisfação, do incômodo que era a participação de uma ação como essa sem retaguarda jurídica, sabendo que em caso de qualquer anormalidade um dos seus poderia ser submetido a uma auditoria militar. Queremos evitar isso daí. Quem paga a missão dá os meios”.

Cálculo de número de desempregados

Bolsonaro disse também pretende mudar a forma como se calcula oficialmente o número de desempregados no Brasil precisa ser alterada no País. “Vou querer que a metodologia para dar o número de desempregados seja alterada no Brasil.  O que está aí é uma farsa”, afirmou, sem citar especificamente o IBGE.

“Quem recebe bolsa-família é tido como empregado, quem não procura emprego há mais de um ano é tido como empregado, quem recebe seguro-desemprego é tido como empregado. Temos que ter uma taxa não de desempregados, e sim de empregados. Não tem dificuldade para ter isso aí e mostrar a realidade para o Brasil”, afirmou, em entrevista à Band. Bolsonaro respondia a uma pergunta sobre os últimos dados do IBGE referentes à contínua queda do desemprego.

Ao falar especificamente sobre o benefício do bolsa-família, Bolsonaro reafirmou que não pretende cancelar os pagamentos, o que seria uma “desumanidade”, mas reiterou que “tem que ter uma nova forma de cadastramento”, apesar da dificuldade de se fazer auditorias. “Tem cidades que 95% da população recebe bolsa-família”, declarou, criticando o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).




 

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