EFE/Joédson Alves
EFE/Joédson Alves

Bolsonaro diz que PF vai abrir inquérito para apurar compra da Covaxin

Presidente atribui necessidade de investigar caso à 'vida pregressa' de Luis Miranda, autor da denúncia

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2021 | 13h27
Atualizado 25 de junho de 2021 | 18h07

SOROCABA – Pela primeira vez desde que as suspeitas sobre a compra da vacina Covaxin pelo governo federal foram reveladas, o presidente Jair Bolsonaro admitiu que vai mandar apurar a denúncia. “É lógico que vai abrir inquérito”, disse, ao ser perguntado se a Polícia Federal investigaria o suposto esquema de corrupção denunciado pelo deputado federal Luis Miranda (DEM-DF). Bolsonaro não deixou claro, porém, se estava se referindo à própria denúncia ou ao denunciante. “Olha a vida pregressa desse deputado”, disse aos jornalistas, durante evento, nesta sexta-feira, em Sorocaba, interior de São Paulo.

Por várias vezes, ele afirmou também que “o fato não foi consumado”, ou seja, a compra não se efetivara. O governo, entretanto, fechou um contrato de compra de 20 milhões de doses do imunizante indiano, no valor de R$ 1,6 bilhão. O valor não foi pago, mas chegou a ser empenhado (reservado formalmente no orçamento). “Me acusam agora de corrupção. Não recebi uma p... de vacina. Não paguei um centavo e só falam em corrupção.” Ele também citou casos de corrupção em governos anteriores como antítese de sua gestão. Citando Ceagesp, BNDES, Petrobrás e a ‘compra de papéis na Venezuela’, afirmou antes de seu governo “era só roubalheira”.

O contrato da Covaxin, o único firmado por meio de uma empresa intermediária, não com o próprio fabricante, já é alvo de investigação do Ministério Público Federal e da CPI da Covid. O deputado Luis Miranda e seu irmão, Luis Ricardo Miranda, chefe de importação do Departamento de Logística do  Ministério da Saúde, prestam depoimento na tarde desta sexta-feira à CPI.

“Qualquer idiota identificaria um possível superfaturamento de 1.000%. Outra, tem algum recibo meu para ele? Foi ato consumado?”, disse o presidente, repetindo o mesmo argumento. “Estou aqui com o prefeito ao meu lado. Prefeito (Rodrigo Manga, do Republicanos), vamos supor que alguém aqui no teu município queira superfaturar alguma coisa em 1.000%. Qualquer idiota vai ver, meu Deus do céu. Não dá para perceber que tem coisa esquisita aí?” De forma grosseira, respondeu irritado às perguntas dos jornalistas, em especial as mulheres, mandando “voltar à faculdade” e “nascer de novo”.

Perguntas sobre compra de vacinas levam Bolsonaro a se exaltar com jornalista

Bolsonaro voltou a se exaltar e destratar uma jornalista durante a inauguração de um centro de tecnologia 4.0, nesta sexta-feira, 25, em Sorocaba. “Para de fazer perguntas idiotas, pelo amor de Deus”, disse a uma repórter da CNN que o questionou sobre a compra da vacina Covaxin. “Foi comprada uma ampola sequer da vacina? Responda você, responda! Foi comprada? Não consumou o ato. Se é para você me julgar pelo que outros pensam, imagina o que posso pensar de você?”, disse à repórter.

O governo fechou o contrato de compra de 20 milhões de doses do imunizante indiano, no valor de R$ 1,6 bilhão. O dinheiro foi reservado formalmente no orçamento, mas não chegou a ser pago. O negócio é alvo de investigação pelo Ministério Público Federal (MPF) e está sendo apurado na CPI da Covid.

Segundo o presidente, o contrato passaria pela Anvisa e ainda seria revisado. “Vocês querem imputar em mim um crime de corrupção em que não foi gasto um centavo? Dá para vocês me elogiarem por dois anos e meio sem corrupção?”, disse, citando supostos atos de corrupção em governos do PT. Quando a mesma jornalista insistiu em respostas sobre a vacina, Bolsonaro se exasperou e disse que ela tinha de voltar para a faculdade. “Faculdade não, volta para o ensino primário”, emendou.

Mais adiante, voltou a se exaltar com a jornalista que insistia em saber se a negociação para a compra da vacina continuou após a denúncia. “Você de novo? Volte para o jardim de infância, você. Foi empenhado o valor em fevereiro. Onde é que tem vacina para ser comprada aqui? Deixa de fazer pergunta idiota pelo amor de Deus”, disse. Em 21 minutos de entrevista, sem dar respostas objetivas às perguntas dos jornalistas, o presidente voltou a defender o tratamento precoce contra a covid-19, criticou a CPI, governadores e prefeitos que adotaram medidas de isolamento social na pandemia, e desdenhou das pesquisas que apontam queda em sua popularidade.  

Desde a chegada a Sorocaba, para dois eventos – inauguração do Centro de Excelência em Tecnologia 4.0, no Parque Tecnológico,  e assistir a uma demonstração da tecnologia 5.G, na Faculdade de Engenharia de Sorocaba – o presidente, sem máscara, provocou aglomerações. Ele e o filho Eduardo receberam placas alusivas aos títulos de cidadãos sorocabanos. No deslocamento até o parque, Bolsonaro colocou o corpo fora do carro e foi apupado por grupos de seguidores. Na Faculdade de Engenharia, houve um princípio de confronto entre seus apoiadores e opositores, integrantes de partidos políticos e entidades sociais, que levaram faixas e cartazes pedindo “fora, Bolsonaro”.

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