Dida Sampaio
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Bolsonaro diz que pegou áudios de condomínio antes que provas fossem 'adulteradas'

Planalto não deu mais detalhes sobre as declarações; líderes da Oposição na Câmara e no Senado falam em acionar a PGR contra o presidente por 'obstrução de Justiça'

Idiana Tomazelli, O Estado de S. Paulo

02 de novembro de 2019 | 19h08

BRASÍLIA - O presidente Jair Bolsonaro afirmou neste sábado, 2, ter obtido os áudios de ligações feitas entre a portaria e as casas do condomínio Vivendas da Barra, no Rio, antes que elas tivessem sido "adulteradas". "Nós pegamos antes que fosse adulterado, pegamos lá toda a memória da secretária eletrônica, que é guardada há mais de ano. A voz não é minha", disse.

O Estado pediu ao Planalto detalhes sobre as declarações do presidente, para esclarecer quando os áudios foram obtidos, em que circunstâncias e se Bolsonaro obteve uma cópia deles, mas a resposta foi de que não haveria comentários.

Após a declaração, os líderes da Oposição na Câmara, Alessandro Molon (PSB-RJ), e no Senado, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), informaram que iriam acionar a Procuradoria-Geral da República (PGR) contra Bolsonaro, sob a alegação de que  o presidente cometeu "obstrução de Justiça", ao “ter se apropriado de provas relacionadas às investigações do assassinato da vereadora Marielle Franco e Anderson Gomes”.

Os líderes informaram em nota que “também pedirão que seja determinada a devolução do material que Bolsonaro se apropriou ilegalmente e que todo o conteúdo seja periciado”.

Procurado pelo Estado para se manifestar sobre as declarações do presidente, o procurador-geral da República, Augusto Aras, disse que o “PGR não deve ser comentarista de opiniões e palavras de agentes políticos e, sim, protagonista da defesa das causas públicas”.

Reportagem do Jornal Nacional veiculada na terça-feira, 29, mostrou que o porteiro do condomínio onde o presidente tem casa contou à polícia que horas antes do assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, o ex-PM Elcio Queiroz, suspeito de participação no crime, teria dito que iria à casa 58 - que pertence ao presidente.  

De acordo com depoimento porteiro, cujo nome não foi revelado, uma ligação teria sido feita para a casa 58 e que "seu Jair" atendeu o telefone e autorizou a entrada. Ainda segundo o porteiro, Elcio Queiroz seguiu para a casa de Ronnie Lessa, outro suspeito do assassinato. Registros da Câmara dos Deputados mostram que, no dia do assassinato de Marielle, Bolsonaro estava em Brasília.

Um dia depois da exibição da reportagem, o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), filho do presidente, exibiu arquivos obtidos por ele na portaria em que não havia registros da ligação mencionada pelo porteiro à polícia. No mesmo dia, o Ministério Público do Rio, numa entrevista coletiva, afirmou que o porteiro mentiu no depoimento.

Uma das integrantes do MP que participaram da entrevista coletiva, Carmen Bastos de Carvalho, fez campanha para Bolsonaro. E, nesta sexta-feira, diante da repercussão negativa, deixou as investigações da morte de Marielle e do motorista. Bolsonaro falou sobre as gravações "não adulteradas" quando foi questionado, neste sábado, sobre a atuação da promotora. "Olha só, deve ter no meio de vocês gente que votou em mim, deve ter, com toda a certeza. Agora a promotora resolveu sair, tá certo?".

O presidente repetiu que estava em Brasília, conforme comprovado pelas passagens no painel eletrônico.

Bolsonaro não deu, no entanto, detalhes sobre quando pegou as gravações e o que quis dizer sobre "adulterações." Ao falar sobre o tema, ele voltou a atacar o governador do Rio, Wilson Witzel (PSC). "Agora, quem está por trás disso? Eu não tenho dúvida, governador Witzel, que só se elegeu graças ao meu filho, Flávio Bolsonaro (PSL-RJ)".

Após as declarações do pai, Carlos Bolsonaro afirmou, no Twitter que, se não tivesse "acesso às gravações dos áudios", "hoje, além do linchamento moral proposital que (Bolsonaro) sofre diariamente, certamente já estariam discutindo seu impeachment". 

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