Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Bolsonaro diz que líderes evangélicos que pediram impeachment são de 'esquerda'

Pedido para afastar presidente foi assinado por religiosos críticos ao governo, sob o argumento de que Bolsonaro agiu com negligência na condução da pandemia

Anne Warth, Emilly Behnke e Daniel Galvão, O Estado de S.Paulo

28 de janeiro de 2021 | 22h59

BRASÍLIA - O presidente Jair Bolsonaro menosprezou a importância do pedido de impeachment apresentado por lideranças religiosas nesta semana à Câmara. Em sua live semanal, ele disse que esses líderes são de “esquerda” e “não representam nem a opinião dos evangélicos”.

O pedido de impeachment foi assinado por religiosos críticos ao governo, sob o argumento de que Bolsonaro agiu com negligência na condução da pandemia de covid-19, agravando a crise. É a primeira vez que representantes desse segmento encaminham uma denúncia contra o presidente por crime de responsabilidade.

Na lista estão padres católicos, anglicanos, luteranos, metodistas e também pastores. Embora sem o apoio formal das igrejas, o grupo tem o respaldo de organizações como o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil, a Comissão Brasileira Justiça e Paz da Confederação Nacional de Bispos do Brasil (CNBB) e a Aliança de Batistas do Brasil.

"Quem lê pensa que são líderes de que nós temos conhecimento", afirmou. Segundo ele, os evangélicos que encamparam o impeachment representam "menos de 1%" do grupo.

Minimizando o movimento, Bolsonaro disse que tem apoio dos religiosos e relativizou a queda de sua popularidade, apontada por diversas pesquisas, entre evangélicos. "Tem muitos evangélicos que gostam de mim, muitos católicos, espíritas e outras religiões, ateus também, mas não tem nenhum movimento coordenado de líderes evangélicos pedindo impeachment meu", afirmou.

O presidente disse que não cometeu nenhum crime, ironizou os mais de 60 pedidos para afastá-lo apresentados na Câmara e disse não temer um processo para destituí-lo. “Se bater no liquidificador e espremer não dá nada”, afirmou. 

Sobre possíveis casos de corrupção em seu governo, ele disse que "podem acontecer" e que "se acontecer, nós vamos para cima”, mas que adota medidas preventivas. "Preferimos a prevenção do que depois do leite derramado reclamar."

Bolsonaro comentou também o fechamento de fábricas pela Ford no Brasil e de cinco mil empregos, mas citou dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) e disse que 142.690 vagas foram criadas no ano passado, mesmo com a pandemia do novo coronavírus. 

“Lamentamos, gostaríamos de não ter perdido cinco mil empregos”, disse, sobre a Ford. Ele afirmou ainda que a empresa não sobreviveu à concorrência de empresas asiáticas, mesmo com subsídios, principalmente em Camaçari, na Bahia.

Ato antidemocrático

Na live, Bolsonaro afirmou que não houve envolvimento do Poder Executivo em atos antidemocráticos, alvo de investigação do Supremo Tribunal Federal (STF)

Em abril do ano passado, o Supremo abriu inquérito para apurar o financiamento e organização de protestos que pediam o fechamento do Congresso e da Corte. O presidente chegou a comparecer em alguns desses atos.

“Não vou entrar em detalhes aqui, mas a Polícia Federal não encontrou elementos para indiciar pessoas por atos antidemocráticos. Acho que meu silêncio aqui nesse momento responde a dúvida de todo mundo”, comentou, em transmissão ao vivo nas redes sociais. “Se houve algum ato antidemocrático, não foi por parte do povo que estava nas ruas e nem por parte do poder Executivo”, declarou.

A Polícia Federal enviou nesta semana um relatório ao ministro Alexandre de Moraes, relator do inquérito no STF, e informou não ter encontrado, por ora, elementos suficientes para indiciar pessoas pela realização ou financiamento de atos antidemocráticos, por ora.

Desde a abertura do inquérito, deputados aliados do governo e blogueiros foram alvo de operações da investigação e tiveram o sigilo bancário quebrado. 

Na terça-feira, 26, Moraes mandou soltar o blogueiro bolsonarista Oswaldo Eustáquio, preso preventivamente no curso das apurações. Pela decisão, o blogueiro volta a cumprir prisão domiciliar e deve obedecer a uma série de medidas cautelares.

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