Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Presidente reage a fala de Pujol e lembra que foi ele quem o nomeou

Comandante havia dito que o Exército ‘não tem partido’ e que não queria que a política entrasse nos quartéis

Felipe Frazão, Jussara Soares e Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2020 | 19h56
Atualizado 15 de novembro de 2020 | 19h39

O presidente Jair Bolsonaro reagiu às declarações do comandante do Exército, general Edson Leal Pujol, que afirmou ter atuado contra a contaminação política dos quartéis. “Não temos partido”, disse Pujol. Bolsonaro sentiu-se obrigado a se manifestar pelo Twitter, lembrando que as Forças Armadas “devem, por isso, se manter apartidárias, baseadas na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República”.

A primeira vez que Pujol se manifestara desde as tentativas do bolsonarismo de envolver as Forças Armadas em suas disputas políticas aconteceu na quinta-feira, quando o comandante do Exército disse: “Nosso assunto é militar, preparo e emprego. As questões políticas? Não nos metemos em áreas que não nos dizem respeito. Não queremos fazer parte da política governamental ou do Congresso Nacional e muito menos queremos que a política entre em nossos quartéis.”

Pujol estava em um evento do Instituto para Reforma das Relações entre Estado e Empresa, do qual participaram os ex-ministros da Defesa Raul Jungmann e do Gabinete de Segurança Institucional general Sérgio Etchegoyen. Nesta sexta-feira, voltou a se manifestar no seminário Defesa Nacional, na Escola Superior de Guerra. “Somos instituições de Estado, não somos instituição de governo, não temos partido. Nosso partido é o Brasil”, disse, usando expressão similar ao slogan “Meu partido é o Brasil”, adotado pela militância bolsonarista. “Independente de mudanças ou permanência de um determinado governo por um período longo, as Forças Armadas cuidam da Nação. São instituições permanentes, não mudamos a cada quatro anos a nossa maneira de pensar e como cumprir nossas missões.”

Depois de sua nova manifestação, Bolsonaro sentiu necessidade de lembrar que fora ele quem nomeara Pujol para o cargo em uma espécie de “chamado de unidade” às fileiras. Escreveu então: “A afirmação do General Edson Leal Pujol (escolhido por mim para Comandante do Exército), que ‘militares não querem fazer parte da política’, vem exatamente ao encontro do que penso sobre o papel das Forças Armadas no cenário nacional.”

Para três oficiais generais ouvidos pelo Estadão – dois generais e um brigadeiro – pela reportagem, a reação de Bolsonaro demonstra um mal-estar. Um deles creditou o problema às pessoas próximas do presidente que apagam incêndio com gasolina. Seriam integrantes do Planalto que estariam intrigando o presidente com Pujol, sugerindo que as falas do general – que só havia afirmado o óbvio – seriam um recado à Bolsonaro ou que Pujol estaria querendo aparecer. Exploram o notório ciúmes que Bolsonaro têm de ver seus auxiliares retratados na imprensa.

Um dia antes, Pujol havia dito ainda que o Exército brasileiro não tem recursos suficientes para garantir a soberania do País. E citou a defesa antiaérea brasileira como um dos pontos em que a capacidade do Exército tem de melhorar. Ele descartou existir alguma ameaça real ao Brasil. “O general Etchegoyen me perguntou se haveria algum país em nosso continente que seria uma ameaça ao Brasil. Eu digo. Hoje não, mas não sabemos daqui 3 ou 4 anos. Por isso, fazemos nosso planejamento estratégico.”

A declaração aconteceu dois dias depois de Bolsonaro dizer que quando “a saliva acaba tem de que ter pólvora”, ao abordar as relações entre o Brasil e a futura gestão de Joe Biden, nos EUA.

Pujol defendeu ainda a criação de uma Guarda Nacional, que assumiria funções, como o combate aos crimes ambientais na Amazônia, hoje repassadas ao Exército. E criticou a quantidade de vezes que o Exército é empregado para garantir a lei e da ordem ou para cumprir missões, como a distribuição de água no Nordeste – operação iniciada em 1999 –, fazendo da instituição um “posto Ipiranga”.

O vice-presidente Hamilton Mourão, general de Exército da reserva que nos últimos anos de ativa perdeu cargos em duas ocasiões, por manifestações políticas, disse nesta sexta-feira que já endossou várias vezes o pensamento de Pujol. “Política não pode entrar dentro do quartel. Se a política entra pela porta da frente, a disciplina e a hierarquia saem pelos fundos”, afirmou Mourão ao deixar seu gabinete palaciano.

Por força de lei, militares da ativa são proibidos de se filiar a partidos e não podem se pronunciar sobre assuntos políticos publicamente. Eles têm direito a voto, mas só podem se envolver com partidos para tentar cargos eletivos – e devem se licenciar da função militar enquanto são candidatos. Só voltam à caserna se não forem eleitos e tiverem mais de cinco anos de serviço.

Imagem conquistada na sociedade

Pujol também defendeu que as Forças Armadas precisam solidificar a imagem conquistada na sociedade e devem dispensar quem não se adapta à carreira militar, ainda que seja bom profissional. “Dentro das instituições militares os valores éticos e morais são fundamentais para que a gente possa proteger a sociedade brasileira. Não abrimos mão desses valores”, disse na Escola Superior de Guerra.

No seminário, o ministro da Defesa, general de Exército da reserva Fernando Azevedo e Silva, exibiu um índice de confiabilidade de 80% nas Forças Armadas, conforme pesquisa Datafolha de julho de 2019. “É um patrimônio isso aqui. Foi conquistado nesses últimos dois anos? Não. Isso aí é instituição de Estado”, disse. O ministro também afirmou que Exército, Marinha e Aeronáutica estão inseridos na “democracia plena”.

Nos bastidores, o generalato já demonstrou incômodo e pressionou pela passagem à reserva dos colegas da ativa que assumiram cargos no governo Bolsonaro. Eles temem perder a credibilidade social por liderar políticas questionadas do governo Bolsonaro e ficarem associados a eventuais "fracassos" do Executivo. A identificação dos militares com o atual governo aumentou porque o oficialato da ativa participa do alto escalão ministerial de Bolsonaro. O caso mais notável é o ministro interino da Saúde, general de Divisão Eduardo Pazuello. Mas até meses atrás havia dois outros casos: o almirante-de-esquadra Bento Albuquerque, ministro de Minas e Energia, e o general de Exército Luiz Eduardo Ramos, da Secretaria de Governo. Ambos passaram à reserva.

O Tribunal de Contas da União (TCU) mapeou neste ano 6.157 militares, da ativa e da reserva, em funções civis do governo. Houve um aumento de 108 % em relação a 2016, no governo Temer, segundo dados da Secretaria-Geral de Controle Externo.

No início do ano, Bolsonaro participou de manifestações populares a seu favor e contra os demais poderes – Legislativo e Judiciário – em frente ao Quartel-General do Exército. Insinuou que as Forças Armadas estariam ao seu lado. “Nós temos o povo ao nosso lado, nós temos as Forças Armadas ao lado do povo, pela lei, pela ordem, pela democracia, pela liberdade”, afirmou, em outro protesto em frente ao Palácio do Planalto.

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