DIDA SAMPAIO/ESTADÃO
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Bolsonaro discute saída 'sem traumas' de Weintraub da Educação

Enquanto núcleos político e militar propõem demissão de ministro para construir trégua com Supremo e Congresso, ala ideológica defendem sua permanência

Jussara Soares, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2020 | 14h25

BRASÍLIA - O presidente Jair Bolsonaro discute uma saída para o ministro da Educação, Abraham Weintraub, deixar o governo de forma menos traumática. Um encontro entre os dois aconteceu por volta das 16h no Palácio do Planalto. Após a reunião, o Weintraub voltou para o Ministério da Educação.

Para os grupos político e militar do governo, a demissão de Weintraub é essencial para o Planalto construir uma trégua com o Supremo Tribunal Federal e o Congresso. Eles argumentam que o ministro é um gerador de crises desnecessárias em um momento em que o presidente, pressionado por pedidos de impeachment e inquéritos que podem levar à cassação do mandato, tenta diminuir a tensão na Praça dos Três Poderes.

Por outro lado, a ala ideológica e os filhos do presidente defendem Weintraub, que tem o apoio dos bolsonaristas nas redes sociais. Demiti-lo neste momento, argumentam, é desagradar a base que tem defendido o presidente no fogo cruzado com Legislativo e Judiciário.

A situação do ministro já era considerada insustentável em parte do governo, mas piorou após ele se reunir no domingo, 14, com cerca de 15 manifestantes bolsonaristas que desrespeitaram uma ordem do governo do Distrito Federal que proibiu protestos na Esplanada dos Ministérios. Nesta segunda, Weintraub foi multado em R$ 2 mil por não usar máscara na ocasião.

No encontro com os manifestantes, o ministro insistiu: "eu já falei a minha opinião, o que faria com esses vagabundos”. O restante da fala é encoberto por aplausos dos manifestantes, que gritam “Weintraub tem razão”. A declaração remete ao que ele já havia falado na reunião ministerial do dia 22 de abril, quando disse que colocaria na cadeia os ministros da Corte, a quem classificou como “vagabundos”. Ele responde a um processo por causa dessa afirmação.

Seguidor do "guru" Olavo de Carvalho, Weintraub tem o apoio dos filhos do presidente, considerados os principais responsáveis por dar sobrevida a ele. Nesta manhã, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) mais uma vez saiu em defesa do ministro.

“Não sei o motivo que se escandalizam com o Min. @AbrahamWeint falando o que falou num bate papo com apoiadores? Outro dia um ministro do STF fez pouco do sofrimento judeu e comparou Bolsonaro ao nazismo, ninguém se escandalizou assim... Liberdade de expressão não pode ter lado”, escreveu no Twitter.

A irritação no Planalto com Weintraub se agravou a partir de abril, quando o governo passou a negociar cargos com os partidos do Centrão. O ministro da Educação chegou a bater de frente com Bolsonaro ao questionar a nomeação de indicados pela “velha política”, mas, ameaçado no cargo, acabou cedendo. O Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), que tem um orçamento de R$ 54 bilhões neste ano, passou para o controle de indicados de líderes do Progressistas e do PL.

Nesta segunda-feira, 15, Weintraub passou a ser alvo até mesmo de aliados de Bolsonaro no Congresso. Em entrevista ao Broadcast Político, o senador Chico Rodrigues (DEM-RR), vice-líder do governo no Senado, afirmou que o ministro "passou de todos os limites" ao comparecer à manifestação no domingo. 

"Nós estamos em um momento de pacificação, não em um momento de incêndio, e é exatamente isso que o ministro tem promovido", afirmou o senador. "O presidente precisa de panos mornos, e não de água fervendo."

Uma amostra da falta de receptividade de Weintraub no Congresso foi a devolução, na sexta-feira passada, de uma medida provisória editada pelo governo por parte do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP). Na ocasião, parlamentares não aceitaram nem sequer votar a MP que daria ao ministro da Educação o poder escolher reitores temporários para universidades federais sem consulta prévia à comunidade acadêmica.

Ministro da Secretaria-Geral defende Weintraub

Em entrevista pela manhã à CNN Brasil, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Jorge Oliveira, disse que as declarações de Weintraub sobre ministros STF se tratavam da "opinião pessoal dele". 

Para Oliveira, Weintraub tem "total liberdade para se expressar". O chefe da Secretaria-Geral destacou ainda que Bolsonaro também é alvo de "duras críticas" por ministros da Corte e já foi chamado, inclusive, de "nazista". A referência é a uma mensagem enviada pelo ministro Celso de Mello a alguns contatos em que o decano compara o governo Bolsonaro à Alemanha de Hitler. / COLABOROU DANIEL WETERMAN

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