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Bolsonaro desrespeitou recomendações e expôs jornalistas a riscos, diz infectologista

Presidente anunciou, em entrevista, que havia sido diagnosticado com novo coronavírus

Mateus Vargas, O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2020 | 17h53
Atualizado 07 de julho de 2020 | 21h42

BRASÍLIA – O presidente Jair Bolsonaro contrariou recomendações de autoridades de saúde e colocou jornalistas sob risco de infecção ao anunciar, em entrevista nesta terça-feira, 7, que contraiu o novo coronavírus. Para o médico Julival Ribeiro, integrante da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), o paciente deve cumprir rígida quarentena e quebrar o isolamento apenas se precisar buscar atendimento médico.

Para Ribeiro, a máscara não é “100% segura” para impedir a transmissão da doença. “Uma pessoa que está com a covid-19, e sabe, não pode dar entrevista. O correto é: teve covid, ficar em quarentena, mesmo para autoridades”, disse. 

Segundo o infectologista, o apropriado, a partir de agora, é realizar o período de isolamento em casa, dentro de um quarto bem arejado, e não compartilhar banheiro, talheres e outros instrumentos. “Não devo sair de casa, exceto para ir ao hospital”, disse. 

Na avaliação de André Ferreira, especialista em direito penal da FGV Direito SP e advogado do CADHu (Coletivo de Advocacia em Direitos Humanos), é possível enquadrar a conduta do presidente em três crimes previstos no Código Penal: infração de medida sanitária preventiva, ofender a saúde de outrem e incitar publicamente a prática de crime.

“Esse crime (de infração de medida sanitária preventiva) pune quem descumpre com as regras de prevenção ao contágio, como vimos no vídeo com os jornalistas e em diversas outras oportunidades em que ele andou livremente entre manifestantes, desrespeitando as regras de isolamento do DF e causando aglomerações. Ninguém comenta isto, mas o fato de transmitir a alguém uma moléstia pode ser enquadrado no art. 129 do Código Penal, pois é uma ‘ofensa à saúde de outrem’”, observou.

Ferreira aponta que o mais grave, na sua visão, foram as falas e posturas do presidente que podem ter incentivado a população a descumprir as medidas de isolamento nos últimos meses. “Isto também é um crime, chamado de incitação pública à prática de crime (isto é, incitar a prática de descumprir as medidas de isolamento) e está no art. 286 do Código Penal.”

Após a entrevista, o deputado federal Marcelo Freixo (PSOL-RJ) afirmou, no Twitter, que irá cobrar do Ministério Público Federal (MPF) que o presidente responda por crime contra a saúde pública. “O presidente já sabia que estava contaminado quando retirou a máscara durante a entrevista, colocando deliberadamente a vida dos demais em risco”, disse.

Entidades médicas e científicas são assertivas em orientações sobre distanciamento social. Em informe do fim de março, a SBI afirma que quem apresenta sinais de "resfriados" ou "síndrome gripal" pode ter a covid-19. “Logo, todos pacientes com essas duas apresentações clínicas devem ser colocados em isolamento respiratório domiciliar por 14 dias.”

Na entrevista, Bolsonaro é cercado por pelo menos três repórteres, além de equipes de filmagem. No fim da fala, ele chega a retirar a máscara, mas antes se afasta dos jornalistas.

Os jornalistas que estiveram com Bolsonaro devem monitorar se apresentam sintomas da covid-19, disse Ribeiro. “O correto, mesmo com máscara e sem saber se estou doente ou não, é sempre manter dois metros de distância de outras pessoas”, disse. 

O médico Leonardo Weissmann, consultor da SBI, disse que o perigo de contaminação seria “maior” se alguém estivesse sem máscara durante a entrevista. Para ele, o ideal seria Bolsonaro manter a proteção sobre nariz e boca durante a conversa. “Porém, no momento da retirada, o senhor presidente afastou-se dos jornalistas. Não sei o quanto, mas quanto maior a distância, menor o risco para quem estava ali”, disse.

Na mesma fala em que anunciou estar contaminado, Bolsonaro voltou a dar declarações falsas sobre a doença. Ele disse que médicos “têm dito” que usar a hidroxicloroquina aos primeiros sinais da covid-19 tem “chance de sucesso em volta de 100%”.

Para Ribeiro, porém, a droga usada para malária, entre outras doenças, não tem eficácia comprovada contra a pandemia. “Já foi até retirado de ensaios clínicos pela OMS (Organização Mundial da Saúde).”

Bolsonaro também disse que “próxima de zero” a “possibilidade de (apresentar) algo mais grave” para pacientes não são idosos ou têm outras doenças. O último boletim epidemiológico do Ministério da Saúde, que compila dados até o fim de junho, mostra que cerca de 50% dos internados pela doença têm menos de 60 anos.

Segundo especialistas, Bolsonaro corre riscos pelo fato de ter 65 anos e também ter passado por estresses recentemente e em decorrência do cargo. Um dos episódios mais recentes envolveu o nome de seu filho Flávio Bolsonaro, no inquérito que investiga rachadinhas na Alerj. 

"O estresse não é bom porque provoca a secreção de hormônios da suprarrenal que podem interferir negativamente com a resposta imune", diz o infectologista do Fleury Medicina e Saúde Celso Granato. Ele esclarece, no entanto, que o estresse não é um fator determinante, mas pode atrapalhar a recuperação. "Bolsonaro já tem uma certa idade, o recomendado é que ele fique pelo menos uma semana isolado e afastado do cargo e de qualquer estresse."

Procurado, o Palácio do Planalto não quis comentar sobre a entrevista de Bolsonaro.

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