Daniel Teixeira/Estadão Conteúdo
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Bolsonaro descarta privatizar Ceagesp e faz ironias com Doria

Ao inaugurar obra paga pelos comerciantes do local, Bolsonaro diz que venda do terreno iria beneficiar ‘amiguinho’; medida é defendida pelo governador de São Paulo

Ricardo Galhardo, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2020 | 18h24
Atualizado 17 de dezembro de 2020 | 00h55

Em visita à Ceagesp, em São Paulo, nesta terça-feira 15, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que os defensores da privatização do terreno são “ratos” cujo interesse é beneficiar amigos. A fala foi interpretada como um ataque indireto ao governador de São Paulo, João Doria (PSDB), que defende a transferência da Ceagesp e a privatização da área onde hoje se encontra o entreposto.

“Estamos desratizando o Brasil e aqui é um ninho de ratos”, começou dizendo Bolsonaro. “Para quem fala em privatização, enquanto eu for o presidente da República essa é a casa de vocês. Nenhum rato vai querer privatizar isso aqui para beneficiar seus amigos”, afirmou o presidente, durante cerimônia de inauguração da obra de reforma da Torre do Relógio da Ceagesp.

Poucos minutos depois, em um discurso com ares de comício aos trabalhadores do local, Bolsonaro voltou à carga. “Quando se fala em privatização, quero deixar bem claro. Enquanto eu for presidente da República essa é a casa de vocês. Nenhum rato vai querer sucatear isso aqui para privatizar para os seus amigos. Não tem espaço para isso aqui.”, disse o presidente. “Queriam privatizar para o amiguinho se dar bem. Essa amiguinho vai continuar andando com a sua calcinha apertada porque não será privatizado”, afirmou.

No final do ano passado, depois de dez meses de negociações, o governo de São Paulo e a Secretaria de Desestatização do Ministério da Economia, então sob o comando de Salim Mattar, fecharam um acordo para que a Ceagesp, empresa do governo federal, fosse transferida da Vila Leopoldina, onde se encontra hoje, para outro local às margens do Rodoanel Mário Covas. Com isso, Doria esperava privatizar a área para empresas interessadas em se instalar na região.

Nesta terça, Bolsonaro não só disse que a transferência está cancelada como anunciou a abertura de uma agência da Caixa Econômica Federal e a ampliação do entreposto de certificação de pescados, um dos gargalos da Ceagesp.

Bolsonaro nomeou o ex-comandante da Rota, coronel Ricardo Mello Araújo, para a presidência da empresa. Segundo o presidente, foram desbaratadas máfias que agiam no local cobrando propina de carregadores e vendedoras de café que trabalham no local. “Isso (a cobrança de pedágio dos carregadores) dava R$ 240 mil por mês não contabilizados que iam para o bolso de algum vagabundo”, afirmou. Além disso, contratos de transportes e limpeza estão sendo revisados, de acordo com ele.

Relógio

Bolsonaro estava acompanhado do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles; do secretário de Comunicação Social, Fabio Wajngarten, e parlamentares como os deputados federais Celso Russomanno (Republicanos-SP) e Carla Zambelli (PSL-SP). Ele inaugurou a reforma da Torre do Relógio, um monumento pintado de verde e amarelo cuja obra foi paga por comerciantes que exploram a Ceagesp. O coronel Mello Araújo pediu que os trabalhadores fossem à cerimônia vestindo as cores da bandeira do Brasil. Muitos atenderam o pedido.

Um homem que carregava a bandeira brasileira foi expulso sob ameaças de agressão ao gritar “gado” em meio aos apoiadores de Bolsonaro. A cerimônia teve ares de comício eleitoral com um mestre de cerimônias pedindo a todo momento que as pessoas gritassem “mito” em homenagem ao presidente e se referia a Bolsonaro com elogios como “homem de fé”, “homem de coragem”, “empreendedor” e “tudo que nós precisamos para o Brasil”.

O presidente aproveitou o tema dos discursos e disse que “meu governo está completando dois anos, nenhum ato de corrupção no nosso governo”.

Houve aglomeração. Bolsonaro chegou a pedir a uma criança que tirasse a máscara facial para falar ao microfone. Nos dois discursos o presidente não citou a pandemia da covid-19 nem falou sobre o plano de vacinação do governo.

‘Chefe supremo’ das Forças Armadas

Poucos dias depois de o governo ter sido obrigado a revogar um decreto que alterava a forma de promoção de coronéis do Exército, conforme revelou o Estadão, Bolsonaro fez questão de afirmar que é o “chefe supremo” das Forças Armadas e que, nesta condição, deve lealdade ao povo. “Em qualquer lugar que nós temos ido no Brasil, temos sido reconhecidos pelo povo. Um governo que nunca tivemos no passado no Brasil, ao lado do povo, povo este ao qual nós devemos lealdade absoluta. E quando falo eu, entenda que também sou chefe supremo das Forças Armadas”, disse o presidente, durante evento na Ceagesp.

O presidente não concedeu entrevista nem explicou o contexto da declaração. Na segunda-feira passada, 7, o governo publicou um decreto que acabava com a promoção dos coronéis do Exército por tempo de serviço e mantinha apenas a ascensão por mérito. Diante das reações negativas vindas dos quartéis, o decreto foi cancelado dois dias depois. O episódio ocorreu no momento em que o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, que é general do Exército, entra na mira dos militares e que a relação do presidente com o vice, Hamilton Mourão, general da reserva, se deteriora. 

No mesmo evento Bolsonaro fez elogios à Polícia Militar de São Paulo e disse que espera aprovar o projeto que cria o excludente de ilicitude nos casos em que policiais em serviços participarem de mortes depois da eleição dos novos presidentes da Câmara e do Senado.

“Hoje é aniversário da Polícia Militar, 189 anos. Parabéns à Polícia Militar do estado de São Paulo. Uma das melhores e mais atuantes do Brasil. Se Deus quiser, com as novas presidências da Câmara e do Senado nós vamos botar em pauta o excludente de ilicitude”, disse o presidente.

Bolsonaro fez referência ao massacre do Carandiru, quando 111 presos foram mortos depois da invasão da casa de detenção pela PM, em outubro de 1992, ao defender o excludente de ilicitude.

“Deixo bem claro aos hipócritas, não é permissão para matar, vou dar os meios para ele não morrer. Porque se preciso for, entre a vida de um policial e de mil vagabundos, ou 111 vagabundos, que é um número bastante emblemático, eu fico com aquele policial”, disse o presidente.

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