DIDA SAMPAIO/ESTADÃO
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Bolsonaro cita discurso de diretor da OMS, mas omite trecho sobre assistência a mais pobres

Presidente deixou de falar que Tedros Ghebreyesus cobrou medidas para população que perdeu emprego e disse que governantes devem informar cidadãos sobre duração do isolamento

Marlla Sabino, Dida Sampaio e Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2020 | 13h24

BRASÍLIA E SÃO PAULO - Ao falar com jornalistas e apoiadores na manhã desta terça-feira, 31, o presidente Jair Bolsonaro destacou trecho de um discurso do diretor-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), Tedros Adhanom Gheybresus para justificar por que algumas pessoas devem voltar ao trabalho mesmo durante medidas de isolamento social adotadas por Estados. Segundo Bolsonaro, Tedros falou "praticamente" que os informais "têm que trabalhar" durante a crise causada pela pandemia do coronavírus. Ao contrário do que Bolsonaro sugere, no entanto, Tedros não faz qualquer relação entre trabalho e medidas de isolamento. 

Ao citar o discurso do diretor da OMS, Bolsonaro não deu o contexto em que a declaração foi dada e omitiu trecho do discurso em que Tedros afirma que governos de todo o mundo precisam garantir assistência a pessoas mais vulneráveis e informar sobre a duração das medidas de restrição de movimentação das pessoas. Tedros usou sua conta no Twitter para esclarecer o assunto na tarde desta terça-feira. "Pessoas sem renda regular ou qualquer reserva financeira merecem políticas sociais que lhes garantam dignidade e permitam a elas seguir as medidas de saúde pública contra covid-19 aconselhadas pelas autoridades médicas e a OMS."

Em suas entrevistas diárias, Tedros costuma salientar a importância do isolamento social. No des segunda-feira, 30, ele escolheu, como foco, a sobrecarga dos sistemas de saúde. A citação aos informais veio no final de sua intervenção.  

"Vocês viram o presidente da OMS ontem?", perguntou Bolsonaro nesta terça-feira. "O que ele disse, praticamente... Em especial, com os informais, têm que trabalhar. O que acontece? Nós temos dois problemas: o vírus e o desemprego. Não pode ser dissociados, temos que atacar juntos", continuou. Ao se comparar a Tedros, o presidente afirmou que quando ele começou a defender que os dois problemas deveriam ser enfrentados juntos, "entraram até com um processo no Tribunal Penal Internacional" contra ele, chamando-o de "genocida". "Eu sou genocida defendendo o direito de você levar um prato de comida para casa."

Ao chegar ao púlpito para falar com a imprensa, o presidente carregava folhas de papel sulfite com um texto escrito a mão que citava o discurso de Tedros. As declarações foram dadas em uma entrevista que provocou a saída dos jornalistas que acompanham diariamente o Palácio do Alvorada. Eles se retiraram depois que Bolsonaro estimulou apoiadores a hostilizar os profissionais da imprensa que estavam no local e mandou os repórteres ficarem quietos.

O discurso de Tedros a que Bolsonaro se refere foi feito na segunda-feira. O diretor-geral da OMS ressaltou que cada país é diferente e precisa respeitar essa situação ao adaptar as medidas contra o coronavírus. Ele destacou as populações pobres, em especial da África, seu continente de origem - Tedros é da Etiópía -, que precisam trabalhar diariamente para comer. O chefe da OMS disse ainda que as ações governamentais precisam considerar as pessoas mais vulneráveis, "porque todo indivíduo importa". 

"Entendemos que muitos países estão implementando medidas de restrição de circulação da população. Ao implementar essas medidas, é vital se respeitar a dignidade e o bem-estar de todas as pessoas", afirmou Tedros. "Também é importante que os governantes mantenham sua população informada sobre a duração dessas medidas e dar apoio para idosos, refugiados e outros grupos vulneráveis."

Na sequência, o chefe da OMS citou os trabalhadores informais. "Governantes devem garantir o bem-estar da população que perdeu sua renda e está em necessidade desesperada de comida, saneamento ou outros serviços essenciais."

Nesta terça-feira, Tedros publicou em seu Twitter mensagens reforçando a recomendação de que os países precisam dar suporte aos mais necessitados. "Cresci na pobreza e entendo essa realidade. Peço aos países para que desenvolvam políticas que possam dar proteção econômica à população que não pode trabalhar durante a pandemia da covid-19. Solidariedade!". 

Pagamento para informais

O Congresso aprovou o pagamento de R$ 600,00 para os trabalhadores informais poderem ficar em casa nesse período de pico da doença. O valor foi negociado com o governo justamente para permitir que tenham renda no período de isolamento.

Trabalhadores formais, com carteira assinada, também terão compensação do governo, numa tentativa de evitar que empresas façam demissões em massa. As companhias poderão reduzir jornada e salários ou até suspender contratos. Em contrapartida, o governo vai abrir os cofres e pagar uma parte do seguro-desemprego a que esses trabalhadores teriam direito se fossem dispensados. O porcentual pode chegar a 100% da parcela nos casos de suspensão do contrato por até dois meses. O valor cheio do seguro-desemprego hoje vai de R$ 1.045 a R$ 1.813,03.

No plano de quarentena do Ministério da Saúde para abril, maio e junho está previsto, ainda, "suporte financeiro" para quem tem menos de 60 anos, mas precisa ficar em casa por apresentar doença crônica, além da contratação de trabalhadores informais para atuarem como "promotores da saúde", orientando pessoas na rua e ajudando na limpeza de superfícies.

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