Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Bolsonaro aposta em São João para desativar ‘usina de crises’

Vazamentos de conversas entre Moro e Dallagnol, demissões de militares e de Joaquim Levy no BNDES... e parece que ainda há muita ‘fumaça’ para rolar debaixo da ponte

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2019 | 17h17

Caro leitor,

O Palácio do Planalto conta com as festas juninas e, quem sabe, até com o recesso parlamentar de julho para desviar o foco da crise em torno do ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, após o vazamento de conversas do ex-juiz com procuradores da Lava Jato. O problema é que, como diz o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), o governo é uma “usina de crises” e nunca se sabe onde começa uma e termina outra.

Há exatos quatro dias, por exemplo, o general Carlos Alberto dos Santos Cruz, então ministro da Secretaria de Governo, dizia que o governo Bolsonaro vive um momento de “acomodação política” e contava seus planos para melhorar a gestão. Defendia o presidente e afirmava que todos os percalços são “normais” para quem subiu a rampa do Planalto há menos de seis meses.

“Um pouquinho de fumaça não pode deixar de fazer a gente enxergar as coisas boas que estão acontecendo”, argumentava Santos Cruz, na quinta-feira, 13, em audiência na Comissão de Transparência, Fiscalização e Controle do Senado. Uma hora e meia depois, estava demitido. 

Na mesma semana, o presidente Jair Bolsonaro anunciou a dispensa de outros dois generais – o presidente da Funai, Franklimberg Ribeiro de Freitas, e o dos Correios, Juarez Cunha. E, no sábado, 15, atirou contra Joaquim Levy, que, “rifado” em praça pública, pediu demissão do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) no domingo,16.

Antes deste capítulo, porém, o ministro da Economia, Paulo Guedes – que criticou o relatório do deputado Samuel Moreira (PSDB-SP) sobre a reforma da Previdência –, também já havia posto Levy na frigideira. O chefe da equipe econômica estava insatisfeito, entre outros motivos, com a resistência do então presidente do BNDES em devolver antecipadamente os empréstimos do Tesouro e com o ritmo de vendas dos ativos do banco, como você pode ver aqui.

Nos bastidores, as demissões de militares – principalmente de Santos Cruz – provocaram incômodo na ala fardada do governo. Escanteado, o vice-presidente Hamilton Mourão, por exemplo, só ficou sabendo da saída do ministro da Secretaria de Governo pela imprensa. A portas fechadas, a disputa entre os militares e o grupo ideológico do governo, capitaneado pelo escritor Olavo de Carvalho, continua em fogo alto.

Agora, a crise Moro deixa o Planalto em alerta. Com o aval de Bolsonaro, o ministro faz de tudo para transformar o vazamento das mensagens entre ele e os procuradores – reveladas pelo site The Intercept Brasil – em uma espécie de plebiscito dos que são contra e a favor da Lava Jato

O discurso é para ganhar tempo e jogar o desgaste no colo de quem ataca a investigação, mesmo que sejam ministros do Supremo Tribunal Federal. O governo constatou, por meio do monitoramento de redes sociais e também de pesquisas, que, por enquanto, a maioria dos que tomaram conhecimento do escândalo envolvendo o nome de Moro não parece dar tanta importância ao conteúdo das conversas pelo Telegram entre ele e Deltan Dallagnol, coordenador da Lava Jato em Curitiba, ou outros integrantes do Ministério Público Federal.

No Congresso, um aliado do governo chegou a dizer que “não houve dólar na cueca” e, se algum “descuido” foi cometido – como admitiu o próprio Moro –, “os fins justificam os meios” no combate à corrupção. Mas ainda há muito a esclarecer, como mostrou o editorial do Estadão

Até agora, Maia e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), também pretendem esvaziar qualquer movimento para abrir a chamada “CPI da Vaza Jato”. Sob pressão das redes sociais, muitos deputados e senadores – que, tradicionalmente, abandonam o Congresso para participar das festas juninas em seus redutos eleitorais, em especial no Nordeste -- não querem bater de frente com Moro nesse momento, mas, sim, deixá-lo sangrar aos poucos. “Quem tem tempo não tem pressa”, diz a máxima que circula tanto no Congresso como no Planalto.

Há divergências até no PT sobre a melhor estratégia a seguir e é com esse cenário que Bolsonaro conta para afastar o terremoto político da sua porta. Tudo vai depender, no entanto, do tamanho da crise e se o governo conseguirá segurá-la até as férias do Legislativo, que começam em meados de julho. Em entrevista ao Estado, Moro disse que não vai se afastar do cargo e lançou um desafio: “Se quiserem publicar tudo, publiquem. Não tem problema.”

Nesta quarta-feira, 19, o ministro vai responder a perguntas sobre a troca de mensagens com procuradores da Lava Jato em audiência na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado. Preocupada em evitar que a CCJ vire um palanque para o ex-juiz se defender, a oposição está treinando técnicas de questionamentos, na tentativa de fazê-lo cair em contradições.

A avaliação na cúpula do PT é a de que será preciso cuidado para Moro não parecer “vítima”. Os petistas sabem que o ministro não tem pavio curto como Paulo Guedes, que em abril saiu do sério após ser chamado de “tchutchuca” pelo deputado Zeca Dirceu (PT-PR), em uma audiência na Câmara. 

Outra data importante no calendário de Moro será o próximo dia 25, quando a Segunda Turma do Supremo vai decidir se acata recurso da defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que acusa o ex-juiz de ter sido parcial ao condenar o petista no caso do tríplex do Guarujá. Lula está preso desde abril do ano passado.

Nessa “usina de crises” ainda há muita “fumaça” para rolar embaixo da ponte. Mas a ponte só sai do papel com dinheiro de investimento privado, que só vem com a reforma da Previdência, que só será aprovada quando o governo e o Congresso pararem de se estranhar. E haja São João na Praça dos Três Poderes!

Em tempo: Santos Cruz era conhecido como o general que não sorria. Será que agora ele voltará a sorrir?

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