Bolsonaro apoia presidente da Palmares no País dos ‘macumbeiros’

Em um momento no qual o mundo se levanta contra o racismo, Camargo resumiu, no encontro revelado pelo ‘Estadão’, não apenas opiniões pessoais, mas um veredicto do governo

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2020 | 14h56

Caro leitor,

Depois do show de horrores da reunião ministerial do dia 22 de abril, uma conversa do presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, classificando o movimento negro como “escória maldita”, mostrou que tudo sempre pode piorar.  Em um momento no qual o mundo se levanta contra o racismo, após o segurança George Floyd ter sido asfixiado até a morte nos EUA, Camargo resumiu, no encontro revelado pelo Estadão, não apenas opiniões pessoais, mas um veredicto do governo de Jair Bolsonaro.

O Palácio do Planalto não só aprovou as afirmações do presidente da Fundação Palmares na reunião de 30 de abril, com dois servidores, como endossou a nota divulgada por ele, na tarde de terça-feira, 2. No texto, Camargo sustenta que a Palmares está sob um novo modelo de comando, em “sintonia” com Bolsonaro.

Em um governo no qual até mesmo o ministro da Educação, Abraham Weintraub, é alvo de inquérito por racismo, após veicular, nas redes sociais, manifestação depreciativa sobre os chineses, a crise institucional em que o País se encontra parece não ter fim.

No áudio da conversa na Fundação Palmares, ocorrida oito dias após a reunião ministerial na qual Bolsonaro afirma que o barco pode estar indo “em direção a um iceberg”, Camargo aparece dizendo que a “escória maldita” do movimento negro abrigava “vagabundos”. Não é só: em vários momentos, trata a cultura afrodescendente com desdém e coisa de macumbeiro. “Eu não vou querer emenda dessa gente aqui. Para promover capoeira? Vai se ferrar”, esbraveja.

É, na prática, o mesmo discurso de Bolsonaro, que chama manifestantes contra o seu governo de “terroristas” e “marginais”  e vê nesses protestos – e não nos pedidos de fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal (STF) – atos antidemocráticos.

“Lá (nos Estados Unidos) o racismo é um pouco diferente do Brasil. Está mais na pele. Então, houve um negro lá que perdeu a vida. Vendo a cena, a gente lamenta. Como é que pode aquilo ter acontecido? Agora, o povo americano tem que entender que, quando se erra, se paga", afirmou o presidente, na noite de terça-feira, 2.

No Brasil, João Pedro Mattos Pinto, de 14 anos, atingido dentro de casa por um tiro de fuzil nas costas, e João Vitor da Rocha, 18 anos, baleado durante entrega de cestas básicas no Rio, fazem agora parte das estatísticas de mortes de negros. Para o governo, no entanto, não há racismo, assim como não houve interferência na Polícia Federal e a pandemia do coronavírus – que levou o Brasil a ultrapassar a triste marca de 30 mil óbitos, em menos de três meses – ainda é uma “gripezinha”.

Poucos se lembram, mas, na campanha eleitoral de 2018, o então candidato Jair Bolsonaro enfrentou um julgamento apertado no Supremo Tribunal Federal. À época, a Procuradoria-Geral da República apresentou denúncia contra o deputado do PSL por crime de racismo.

A acusação foi feita porque, em palestra no Clube Hebraica do Rio, em 2017, Bolsonaro afirmou ter percebido, ao visitar um quilombola em Eldorado Paulista, que “o afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas”. Depois, concluiu: “Não fazem nada! Eu acho que nem para procriador eles servem mais. Mais de um bilhão de reais por ano gastado com eles”.

Por 3 votos a 2, porém, a Primeira Turma do Supremo rejeitou a denúncia da Procuradoria. E quem “salvou” Bolsonaro, naquele julgamento, foi justamente o ministro Alexandre de Moraes, hoje visto como seu algoz no inquérito das fake news. Na escalada de tensão entre os Poderes, o desfecho dessa crise é cada vez mais imprevisível. E quase não conseguimos respirar.

Vera Rosa

Vera Rosa

Repórter especial em Brasília

Jornalista formada pela PUC-SP, sou repórter da Sucursal de Brasília desde 2003, sempre cobrindo Planalto e Congresso. Antes, trabalhei no Estadão e no Jornal da Tarde, em SP. Sou paulistana, adoro notícia, cinema e doces, mas até hoje não me acostumei a chamar “bolo” de “torta”, como em Brasília.

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