Alan Santos/PR
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Em live, Bolsonaro pede ‘um tempinho’ a apoiadores e diz não ver ‘nada de mais’ na nota de recuo

Presidente afirma que sofre muitas cobranças e fala sobre risco de desabastecimento caso a paralisação dos caminhoneiros se e prolongue

Felipe Frazão, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2021 | 21h20
Atualizado 10 de setembro de 2021 | 10h03

BRASÍLIA – O presidente Jair Bolsonaro pediu, em uma live nesta quinta-feira, 9, um “um tempinho” a apoiadores para que compreendam o teor da nota em que recua de ataques aos demais Poderes, sobretudo ao Supremo Tribunal Federal, alvo da ira dos caminhoneiros. O presidente citou como fatos positivos a imediata recuperação da bolsa de valores e a queda do dólar, o que influencia no preço dos combustíveis.

Bolsonaro afirmou que sofre muitas cobranças e que algumas são injustas: “Eu só sou o chefe da nação. Estou com vocês, eu com tô com o povo, onde o povo estiver, estarei. Para mim é mais fácil ficar dentro do Alvorada, cuidar da minha vida, abandonar o povo. O que é comum, infelizmente, muitos políticos agirem dessa maneira”.

A nota em tom de recuo foi sugerida e redigida em encontro com o ex-presidente Michel Temer, a quem Bolsonaro recorreu na noite de quarta-feira. Bolsonaro pediu que Temer viesse a Brasília aconselhá-lo. Bolsonaro confirmou que telefonou ao ex-presidente e que conversou com ele por dois momentos na manhã e à tarde de hoje, por mais de uma hora, a respeito da nota oficial do presidente. “Ele colaborou com algumas coisas”, minimizou Bolsonaro. “Muitos estão batendo em mim por causa da nota, não vejo nada de mais na nota.”

Segundo o presidente, alguns de seus auxiliares o instigaram a rebater de forma dura o discurso em que o presidente do STF, Luiz Fux, o acusou de crime de responsabilidade por discursos e atos durante os protestos no 7 de Setembro. Ele, porém, disse que era hora de acalmar. “Alguns poucos do meu lado vieram com discurso de que tem que reagir e tem que rebater”, revelou.

Assim como no comunicado elaborado com Temer, pouco usual em seu governo, mas de estilo comum durante o governo do antecessor, Bolsonaro disse que se exaltou durante discurso no Dia da Independência, quando pregou a desobediência a decisões do STF.  “Talvez pela proximidade do carro de som, tudo ficou mais inflamado ali (na Avenida Paulista)”, disse. 

Bolsonaro elogiou as demonstrações de apoio e parabenizou quem espalhou cartazes em outros idiomas, dizendo que o recado chegou ao exterior. Segundo ele, a iniciativa ajudou porque ele estava com imagem de “carrasco”.

Bolsonaro disse na live que se aconselhou com ministros do Centrão, como Ciro Nogueira (Casa Civil) e Flavia Arruda (Governo), além dos ministros generais Luiz Eduardo Ramos (Secretaria Geral) e Braga Netto (Defesa). Além deles, conversou com os deputados Major Vitor Hugo (PSL-GO) e Helio Bolsonaro (PSL-RJ).

“Quero fazer a coisa certa”, disse o presidente.  “Acreditem que mais gente vai começar a agir diferente na Praça dos Três Poderes. Tenho certeza que bons frutos aparecerão nos próximos dias.”

Apesar do tom ameno, o presidente voltou a atacar a confiabilidade das urnas eletrônicas, sem base em fatos. O presidente já foi instado judicialmente a apresentar provas de fraude em eleições, como acusa, mas nunca as entregou. Bolsonaro, no entanto, segue alegando que, se a Justiça Eleitoral promete melhorar a segurança e a transparência do processo, é sinal de que as urnas são “penetráveis”. 

Bolsonaro repetiu a palavra, em conotação sexual, associando-a ao ministro Luís Roberto Barroso, presidente do Tribunal Superior Eleitoral.  “As pessoas podem penetrar nas urnas, entendeu Barroso? As urnas são penetráveis”, repetiu Bolsonaro. “Já pensou se eu gostasse da mesma coisa que o Barroso?”.

Caminhoneiros

Durante a live, o presidente Jair Bolsonaro disse nesta quinta-feira, dia 9, ter alertado uma comitiva de representantes de caminhoneiros sobre o risco de o prolongamento da paralisação iniciada no 7 de Setembro se voltar contra ele mesmo e contra a categoria. O presidente recebeu 12 lideranças das manifestações antidemocráticas, que classificou como “fantásticas”, e ponderou que o todos sofrerão consequências negativas se a paralisação durar além do próximo domingo.

“Fui bem claro que se passar de domingo, segunda ou terça a gente começa a ter problemas seríssimos de abastecimento. Influencia na economia, aumenta inflação, isso se volta contra nós, contra eles que fizeram o movimento e contra eu, que sou chefe de Estado”, disse o presidente, durante sua live semanal.

Segundo Bolsonaro, os manifestantes o procuraram para obter orientações sobre “o que fazer” daqui para frente. Eles queriam entregar um pedido de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) ao Senado, mas não foram recebidos. Parte dos caminhoneiros está acampada na Esplanada dos Ministérios. 

Bolsonaro disse que não os influencia, mas elogiou o movimento. “Vieram falar o que fazer, né? Eu falei ‘olha, vocês pra mim já fizeram uma coisa fantástica, ajudaram esse movimento’. Falaram que iam manter o movimento até domingo. É um direito deles. E que vão suspender o movimento depois de domingo, essa é a ideia de muitos deles ali. Eu não influencio nessa área”, afirmou Bolsonaro. “Não vou influenciar na vida deles, foi fantástico o que fizeram por livre e espontânea vontade, gastando dinheiro do próprio bolso. Deram um recado enorme para todos nós, de todos os poderes: nós devemos respeitar a Constituição. É só isso”.

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