MARCOS MIATELO /ESTADÃO
MARCOS MIATELO /ESTADÃO

'Bolsonaro ainda não vestiu o terno de presidente'

Senadora Simone Tebet, do MDB, critica indicação do deputado federal Eduardo Bolsonaro, um dos filhos do presidente, para a embaixada do Brasil nos Estados Unidos

Luiz Maklouf Carvalho, Enviado Especial

17 de agosto de 2019 | 14h00

CAMPO GRANDE - "O Bolsonaro precisa vestir o terno de presidente da República, que ainda não vestiu, e parar de ficar instigando a violência”, disse ao Estado a senadora Simone Tebet (MDB-MS), presidente da Comissão de Constituição e Justiça, no momento às voltas com a discussão da reforma da Previdência. “Sua bíblia, enquanto estiver presidente, tem que ser a Constituição“, afirmou, na tarde-noite calorenta do último dia 9, uma sexta, em seu apartamento de 360 metros quadrados, com salas espelhadas e quatro suítes, no centro de Campo Grande.

“Jamais imaginei que pudéssemos chegar onde chegamos”, disse a senadora, referindo-se ao presidente da República, que acusou de estar “à beira do limite civilizatório”, e de estar “abalando a base social do Brasil, que tem, no seu DNA, o perfil de uma sociedade pacífica e unitária”. 

Indignou-a, particularmente, além da “truculência com o Congresso”, a defesa presidencial de um coronel torturador judicialmente condenado, o falecido Brilhante Ustra, recentemente promovido a “herói da pátria”. Lembrou-se, contou, da primeira celebração de Ustra, no voto de Bolsonaro pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff, em abril de 2016. “Aquilo já me arrepiou, de tão absurdo”, disse. Ela também, como se sabe, foi uma defensora entusiasmada da cassação da petista pelo Senado. “Não me arrependi”, afirmou. 

Acha absurdo, também, o presidente estar acenando com a indicação do filho Eduardo, deputado federal, para ser embaixador nos Estados Unidos – se tiver a aprovação do Senado. “É um risco total do presidente, porque ele sabe que o menino acabou de fazer 35 anos, não conhece o mundo, não conhece geopolítica como um embaixador de carreira, e será muito mais provocado durante a sabatina pela mais alta corte do Parlamento”, disse a senadora. Não quis dar palpite sobre o resultado da votação, mas lembrou duas evidências facilitadoras para o aval: a força do governo, “que pesa”, e o quórum por maioria simples. “Eu votarei contra”, declarou. “E estou convencendo mais senadores a fazer o mesmo.”

Quando não está no Senado ou no apartamento funcional, em Brasília, onde fica por três ou quatro dias da semana, a senadora  Tebet está no apartamento do 18º andar, com uma bela vista para uma cidade de ainda poucos edifícios e horizonte largo. Mora com o marido - o deputado estadual Eduardo Rocha, também do MDB -, e as duas filhas. Maria Eduarda, 18, estuda Direito e toca de vez em quando o piano Fritz Dobbert da sala de estar. A senadora também aprendeu a tocar, faz muito tempo, mas esqueceu. “Só toco ‘o bife’”, explicou, referindo-se à música famosa pelo comercial do Danoninho, tocada com um dedo de cada mão. Não quis demonstrar. A outra filha, Maria Fernanda, 21, estuda Comunicação em São Paulo. 

“Somos uma família feliz”, disse a mãe. A imensidão do apartamento sempre ajuda. “Quando ele come demais no jantar, e ronca, vai dormir em outra suíte”, contou a senadora. Ele, no caso, é o marido, que ouve o chiste com bom humor. Somando os sete anos de namoro, são trinta anos de lida. São ricos, ambos, donos de uma boa carteira imobiliária, que inclui fazendas com grande produção de cana, administradas pelo marido empresário e deputado. 

Rocha votou em Bolsonaro, embora não seja um entusiasta. Já a senadora, que foi de Henrique Meirelles no primeiro turno, não revela em quem votou no segundo. “Se eu contar, eu não ando mais na rua por aqui”, exagerou, lembrando que Campo Grande, capital do agronegócio, elegeu Bolsonaro com 71,27% dos votos (foram 65,22% em todo o Estado). Foi de Fernando Haddad, então? “Eu fiquei embretada”, disse, no sotaque da terra. “Posso ter ido nas quatro opções: nulo, branco, Haddad ou Bolsonaro””, é o máximo que diz, bebericando um suco de groselha no algo bagunçado quarto de estudos de Maria Eduarda.

Patriarca

Estão à vista, entre livros de Direito, duas fotos da filha com o avô materno, Ramez Tebet, o patriarca da família de origem libanesa fixada em Três Lagoas – a 330 quilômetros de Campo Grande, com estimados 96 mil habitantes, -, onde Simone também nasceu, primeira de quatro irmãos. Tebet pai, falecido em 2006, foi advogado, promotor, prefeito de Três Lagoas, governador do Estado por dez meses, senador, ministro de Fernando Henrique Cardoso, e presidente do Congresso Nacional. Foi nessa condição que deu posse ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2003, até emprestando-lhe a caneta para assinar o termo, como entrou para a história, e, a caneta do três-lagoense, para o acervo presidencial. 

Lula, hoje preso da operação Lava Jato, compareceu ao enterro de Ramez Tebet. E esteve uma vez em Três Lagoas, prestigiando um empreendimento da prefeita. “Tive um bom relacionamento com o presidente Lula durante seu primeiro mandato”, disse. Sobre o ex-presidente estar sentenciado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro – com recursos em tramitação -, a senadora considerou, como advogada, que “quando se trata de Justiça, a obediência ao devido processo legal é tão importante quanto à evidencia material dos fatos”.

Na batida e na pressão do pai, Simone Nassar Tebet formou-se em Direito (com 20 anos, na Universidade Federal do Rio de Janeiro), foi por 12 anos professora de Direito Administrativo, funcionária por seis anos da Assembleia Legislativa, deputada estadual, duas vezes prefeita de Três Lagoas, vice-governadora e, desde 2015, senadora, quase candidata a governadora, e novamente senadora, tudo no PMDB e no MDB, partido pelo qual não morre mais de amores. “Já fui mais longe do que os meus melhores sonhos”, afirmou. Define-se como conservadora na pauta de costumes, e social-democrata no campo social. Pretende, por enquanto, candidatar-se à reeleição, em 2022.

Perto de fazer 50 anos – que a aguardam, implacáveis, no próximo 22 de fevereiro - não está preocupada com as rugas, que chegam, mas sim com as bochechas, algo cheias, que a incomodam. Já fez botox, que a deixou com ar de palhaço. “Detestei, para nunca mais”, disse ao Estado, imitando, divertida, os esgares de um. Agora faz laser no rosto, uma vez por ano, e, se precisar, como acrescentou, um “preenchimentozinho” aqui e ali. Além da musculação, duas a três vezes por semana, para ajudar nos incômodos com o quadril e com os joelhos. Sente-se bem nos seus 1,67 de altura e 68 quilos, que já foram 63. É chocólatra assumida, nunca bebe álcool, quase só toma chá, tem uns 60 pares de sapatos, e vai de média para boa, segundo avalia, quando se mete na cozinha para preparar massas e molhos.

Carrega, dos tempos de prefeita, a lembrança chata de uma denúncia do Ministério Público Federal por improbidade administrativa, referente a contratos de repasse entre o Ministério do Turismo e o município de Três Lagoas.  A parte penal foi arquivada, por prescrição, pelo Supremo Tribunal Federal. Na área cível, houve um bloqueio de bens, suspenso em fevereiro deste ano quando a 3ª turma do Tribunal Regional Federal, da 3ª região, rejeitou a ação. O Ministério Público Federal recorreu ao Superior Tribunal de Justiça – onde o caso está pronto, desde abril, para a decisão do ministro Napoleão Nunes Maia Filho. “Não cometi nenhuma irregularidade e, aguardo, com confiança, que seja confirmada a decisão do TRF”, afirmou. A ver.

Renan

 Não é preciso perguntar à senadora sobre o maior atrevimento de sua vida política – desafiar o senador Renan Calheiros, uma das cobras criadas, ou malcriadas, a gosto do freguês, do MDB e da República. Pois a ex-prefeita de Três Lagoas se lançou, no início do ano, candidata a candidata à presidência do Senado, atrapalhando a pretensão de Calheiros pelo quinto mandato no posto. Foi barrada na votação da bancada, por maioria, perdendo votos que achou garantidos, já que prometidos, entre eles o do senador Jarbas Vasconcelos. 

Calheiros foi o candidato, e retirou-se fazendo estardalhaço quando viu que ia perder para Davi Alcolumbre (DEM-AP), candidato do governo. Águas passadas, mas a senadora não vai esquecer dos piores momentos, como um twitter em que o senador Calheiros perdeu completamente a compostura, nem vale a pena lembrar. Voltaram a falar, protocolarmente, mas é só. “O Renan representa uma política passada que a sociedade não aceita mais”, disse, olhando para a foto de Ramez Tebet. Sobre Alcolumbre, que vem se reconciliando com Calheiros, ou vice-versa, a senadora diz: “É uma pessoa humilde o suficiente para compartilhar os problemas e as soluções com os líderes”. Mas acha, ao mesmo tempo, que “falta ao Senado um líder de centro”.

No recesso de julho, a senadora, que conhece uns 15 países, viajou com a família, ao Valle Nevado, no Chile, tido como dos melhores resorts para esqui e snowboard. “Não gosto de frio, não sei esquiar e não bebo vinho, mas aproveitei a convivência familiar”, disse. Leu, olhando a neve cair, o falado “Como as democracias morrem”, de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt. Por agora está lendo, e gostando, de “O homem que amava os cachorros”, do cubano Leonardo Padura.

Tebet presta atenção ao ouvir uma anotação do presidente Fernando Henrique Cardoso, em 10 de julho de 1997 - há 22 anos, portanto. Está no segundo volume dos “Diários da Presidência”, lançado em 2016. FHC conta ter recebido alguns senadores para discutir a questão da Previdência Social – pois é... -, entre eles os “renitentes” à reforma, como o Tebet pai. “Em certo momento [da conversa], endureci”, conta FHC. “Não é possível, se vocês estão convencidos de que é certo, por que não votaram no que é certo? Temor do quê? Dos lobbies que lá estão? (...)”. A senadora olha novamente para a foto do pai – hoje uma estátua na praça principal de Três Lagoas, paga pelos filhos -, e comenta: “Meu pai tinha um perfil conciliador, nunca foi homem de repentes e muito menos de ideias radicais. Nunca o vi se recusar a reformas de interesse social”. 

E agora, a PEC da Previdência, já aprovada na Câmara, passa no Senado? “Passa, essencialmente, do jeito que chegou”, aposta a presidente da CCJ, favorável ao projeto. “Não é a reforma ideal para o País, não é a salvadora da pátria, não resolve os problemas de curto e médio prazo – mas precisamos imediatamente virar essa página, e avançar nas outras reformas”. 

 

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