Wilton Junior / Estadão
O cientista político e colunista do 'Estadão' Carlos Pereira Wilton Junior / Estadão

Bolsonaro 2021: um político tradicional

Pandemia levará presidente a formar coalizão com o Centrão e a intensificar agendaconservadora de costumes

Carlos Pereira*, O Estado de S.Paulo

04 de janeiro de 2021 | 05h00

O acontecimento de maior relevância política do ano de 2020 não foi propriamente um evento político, mas sanitário: a covid-19. A pandemia causada pelo novo coronavírus foi um choque exógeno tão devastador que, ao gerar medos e incertezas sem precedentes, produziu efeitos políticos de grande magnitude.

As três rodadas da pesquisa de opinião que desenvolvi ao longo do ano, em parceria com Amanda Medeiros e Frederico Bertholini e com o apoio da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e do Estadão, mostrou que a pandemia alterou, de forma inequívoca, os eixos da polarização política no Brasil.

Por um lado, a ideologia política perdeu capacidade de explicar o comportamento das pessoas e suas próprias crenças. Ser de esquerda ou de direita deixou de ter importância diante do “medo da morte”. Por outro lado, os vínculos afetivos de pertencimento a um grupo (ou de aversão ao grupo rival) baseados em identidades valorativas de seus membros ganharam preponderância explicativa e passaram a nortear a principal clivagem política: aprovar ou rejeitar o governo do presidente Jair Bolsonaro.

Esta nova polarização se consolidou a partir de quatro reações de Bolsonaro em relação à pandemia: 1) minimização da gravidade e dos riscos de contágio da doença; 2) oposição às medidas de isolamento social; 3) valorização dos impactos negativos que as medidas de isolamento social trariam para a economia; e 4) oposição à obrigatoriedade da vacina.

Ficou evidente que um contingente não trivial de eleitores, incluindo muitos que votaram em Bolsonaro em 2018, passou a rejeitar o presidente da República. Esta rejeição foi diretamente proporcional à proximidade a pessoas que se contaminaram e desenvolveram a covid-19 com graus variados de gravidade. Quanto maior o “medo da morte”, maior a rejeição ao presidente, independentemente da ideologia ou da renda. Por outro lado, o grupo de eleitores que se conecta com Bolsonaro por meio de identidades conservadoras passou a aprovar ainda mais o presidente.

A Figura abaixo exemplifica claramente essa nova clivagem política. Embora a concordância com o isolamento social tenha perdido força ao longo das três rodadas da pesquisa, fica claro que quanto maior a rejeição a Bolsonaro, maior o apoio ao isolamento social e vice-versa.

Além de perder capital político com a gerência da pandemia, Bolsonaro assumiu uma atitude conflituosa com os outros Poderes, levando seu governo a sofrer várias derrotas no Legislativo e no Judiciário. As organizações de controle também aumentaram o cerco às atividades suspeitas de seus filhos, acusados de envolvimento com “rachadinhas”, com lavagem de dinheiro e com o crime organizado.

Para evitar que o fantasma do impeachment voltasse mais uma vez a rondar o Palácio do Planalto, o presidente, que se elegeu negando a política e os partidos, fez uma das maiores inflexões da história da República. Converteu-se às instituições do sistema político brasileiro ao se aproximar dos partidos do Centrão em busca de sobrevivência política. Moderou seu discurso belicoso e confrontacional e tem se engajado diretamente na eleição dos presidentes das duas casas legislativas.

Se Bolsonaro almeja governabilidade e competitividade eleitoral em 2022, é esperado que se comporte daqui para frente seguindo duas estratégias aparentemente contraditórias. Por um lado, o governo precisa garantir, com recompensas, que o Centrão continue a apoiá-lo. Daí ser esperada uma reforma ministerial ampla que acomode esses interesses. Na medida em que essa estratégia tende a enfraquecer o suporte político do seu “núcleo duro” de eleitores, precisará se engajar na defesa de uma agenda de costumes conservadora. Mesmo com o risco de vir a ser derrotada no Legislativo e no Judiciário, essa agenda de costumes cumpre o papel de alimentar e manter o engajamento das conexões identitárias com os que aprovam o seu governo.

*CIENTISTA POLÍTICO E PROFESSOR TITULAR DA ESCOLA BRASILEIRA DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E DE EMPRESAS (FGV EBAPE)

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O que esperar da política em 2021?

Colunistas do ‘Estadão’ apontam impacto que pandemia do novo coronavírus terá nas esferas de Poder

Redação, O Estado de S.Paulo

04 de janeiro de 2021 | 05h00

A política brasileira continuará funcionando sob impacto da pandemia do novo coronavírus em 2021. Seja pela corrida para promover a vacinação em massa, pela continuidade de medidas de restrição de circulação, ou mesmo pela antecipação do debate eleitoral, a covid-19 está no centro das análises políticas feitas por colunistas do Estadão sobre o que se esperar deste ano.

Na segunda metade do mandato, o presidente Jair Bolsonaro tenta se equilibrar entre o apoio do Centrão, que exige cargos no governo, e dos seus eleitores, que cobram uma agenda de costumes mais conservadora. A demora para organizar a vacinação e os reflexos negativos da pandemia na economia podem causar problemas para os planos de Bolsonaro, já em andamento, de tentar a reeleição.

Ainda não está claro, segundo analistas, qual será o papel que outros possíveis candidatos à Presidência pretendem assumir ao longo do ano – um caminho é esperar a crise diminuir. Fora as eleições complementares de prefeitos que não puderam assumir, o calendário eleitoral de 2021 prevê apenas a escolha, em Brasília, dos presidentes da Câmara e do Senado, marcada para 1.º de fevereiro.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Rosângela Bittar: Não há aviso aos navegantes

Tudo em 2021 dependerá do êxito da vacina. Não há mais espaço para conversa fiada de Bolsonaro

Rosângela Bittar*, O Estado de S.Paulo

04 de janeiro de 2021 | 05h00

Os meteorologistas da política não encontram garantias para prever absolutamente nada de novo para 2021, mais um ano a ser dominado pela pandemia e pela expectativa da vacina. O que deve acontecer é a expansão de 2020 em todos os sentidos.

Jogaram-se para a frente as crises de saúde, a principal entre todas que castigam o Brasil. Também prorrogaram-se os prazos das crises econômica, social e política. Tudo em 2021 vai girar exclusivamente em torno da vacina. O sinônimo de vida.

Na roda de poder dos possíveis candidatos à sucessão de Jair Bolsonaro recomenda-se esquecer o ano novo como calendário original.

Quem tinha perfil de candidato a presidente na sucessão de 2022 e expectativa política deve continuar na mesma. Os fatores que fazem uma candidatura emplacar não estão liberados. Seja para o novato Luciano Huck ou para o veterano Ciro Gomes. Eles, e os demais postulantes conhecidos, entre os quais Hamilton Mourão, João Doria e Sérgio Moro, se tiverem juízo para se submeterem à realidade, continuarão esperando uma possível largada bem mais à frente.

Qual destes possíveis candidatos vai desabrochar, se vai ou não ser um deles, se aparecerá um outro surgido de inusitada situação, qual novo movimento será feito em direção à sucessão, em torno de que plataformas. Um mundo de definições em aberto.

Ninguém está pior que Jair Bolsonaro que, solitário, faz campanha dia e noite, sem nenhuma consequência para os adversários. Ora se vê que está procurando manter seu eleitorado, ora se evidencia o desejo de distrair a atenção do público de alguma de suas mazelas.

O presidente, que não governou na primeira metade do mandato, não governará na segunda, que se inicia; enquanto persegue a reeleição, não tem sequer acrescentado dividendos de peso à sua performance política.

Não se consegue explicar as razões pelas quais Bolsonaro está na posição em que se encontra, com uma adesão acima de 30% nas pesquisas de opinião. O governo é ruim, não há um projeto para o País, ele não apresenta solução para os problemas que angustiam a população cotidianamente e suas questões essenciais são meras demandas para resolver problemas pessoais, enquanto se vê ampliar a vulnerabilidade do seu flanco familiar.

Eleições, em 2021, só as das presidências da Câmara e do Senado, em fevereiro. Nelas só têm lugar compromissos imediatistas.

A sociedade dará atenção total à vacina e seus efeitos. A imprevisão das crises sanitária, social, econômica e política permanecerá nos meses seguintes à imunização. Bem como a oscilação do presidente da República quanto a questões relacionadas à pandemia que interessam a todos.

O governo, com suas posições corrosivas e estapafúrdias, permanecerá causando perplexidade nacional e internacional. Bolsonaro seguirá disfarçando sua ignorância a pretexto de defender a economia contra a vida, tomando atitudes que comprometem uma e outra.

Não é só para a crise sanitária que o governo não tem solução. Faltam-lhe ideias e medidas para resolver qualquer uma das demais crises. Paulo Guedes, o superministro da Economia, parceiro fundamental de Jair Bolsonaro nas soluções esperadas por todos, não terá condições de dizer, em 2021, a que veio. Se permanecer no cargo, depois de ter sido obrigado a desmentir o presidente da República no fim de 2020, continuará a falar sozinho, sem ressonância no governo ou no Congresso. Com todos os instrumentos nas suas mãos, não tem conseguido substituir nem por esperanças as incertezas atuais da economia.

Para lembrar e repetir: tudo em 2021 dependerá do êxito da vacina. Não há mais espaço para conversa fiada de Jair Bolsonaro e sua atração fatal pela morte, contra a ciência e o bom senso. Melhor esquecê-lo. E confiar nas lideranças da sociedade, que podem surpreender. Há espaços , questões e situações que as estimulam.

*COLUNISTA DO 'ESTADÃO' E ANALISTA DE ASSUNTOS POLÍTICOS

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

J.R. Guzzo: O custo das liberdades

Ano de 2020 se foi sem deixar memórias positivas. E 2021 também não parece começar bem

J.R. Guzzo*, O Estado de S.Paulo

04 de janeiro de 2021 | 05h00

Este foi o ano em que, pelo mundo inteiro, as liberdades públicas e os direitos individuais sofreram a mais extensa, dissimulada e perniciosa agressão que os regimes democráticos já tiveram de enfrentar na presente geração. Esse ataque não veio, como de hábito, em consequência de guerras, revoluções ou golpes de Estado em escala global. Veio através de um vírus que se originou na China, espalhou-se pelo planeta e que, ao longo de 2020, contaminou 75 milhões de pessoas e foi apontado como a causa de quase 1.700.000 mortes nos cinco continentes.

As pessoas, em condições normais, estão sempre mais dispostas a abrir mão de seus direitos do que dos seus interesses; pode ser incômodo ouvir isso, mas é assim que as coisas são na vida real. No caso da covid-19, a maioria abriu rapidamente mão de seus direitos em favor do medo-pânico que os governos e os seus mandarins, as classes acostumadas a tratamento médico de primeira linha e os meios de comunicação em geral promoveram de forma maciça desde o começo da epidemia. Em troca da “vida”, que no imaginário público passou a ser salva pelo “distanciamento social”, pela máscara e pelo “fique em casa”, vale aceitar qualquer ordem vinda de cima – a começar pelas que jogam no lixo os direitos do cidadão.

O ano que se encerrou deixou claro que estamos vivendo num mundo no qual cada vez mais gente que nunca recebeu um voto na vida, de fiscais de loja a médicos amestrados, de gestores de marketing a ministros dos tribunais superiores de Justiça, tomam um número cada vez maior de decisões básicas para a existência cotidiana das pessoas – decisões que ninguém estaria autorizado a tomar num regime que possa ser minimamente caracterizado como uma democracia. A Constituição brasileira é violada todos os dias, em nome da mais velhaca de todas as altas razões que as ditaduras costumam apresentar para justificar o que fazem – o “interesse comum”.

A liberdade está virando um artigo barato no Brasil, pelo conjunto da obra de todos os nomeados acima. Um papel especialmente abjeto está sendo desempenhado pelos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) – dispostos a trocar ciência por superstição, a agredir a lógica comum e a engolir qualquer afronta à lei para satisfazer os seus medos e as suas pequenas convicções sobre a doença. Não são melhores que os decretos sem pé e sem cabeça de governadores e prefeitos cada vez mais embriagados pela noção de que podem dar qualquer ordem que lhes passe pela cabeça, sem nunca ter de prestar contas (sobretudo à Justiça) pelas misérias que as suas decisões provocam na vida de quem lhes paga os salários.

O ano de 2020 se foi sem deixar memórias positivas. O ano de 2021 também não parece começar bem. Os avanços científicos podem trazer a vacina e ajudar a deter a progressão do vírus. Mas a passividade com que está sendo aceita a liquidação a preço de custo das liberdades pode acabar custando muito caro para a sociedade brasileira. Se o sujeito passa a vida em busca de alguma ordem para obedecer, com certeza vai logo encontrar alguém interessado em resolver o seu problema.

*JORNALISTA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.