Maryanna Oliveira / Câmara dos Deputados
Maryanna Oliveira / Câmara dos Deputados

Bolsonarismo, dancinha homofóbica e críticas a artistas: quem é Otoni de Paula, alvo da PF

Conhecido do eleitorado carioca por episódios controversos, pastor da Assembleia de Deus está no primeiro mandato como deputado federal

Caio Sartori, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2021 | 11h28

RIO – Alvo de operação da Polícia Federal na manhã desta sexta-feira, 20, o deputado federal e ex-vereador Otoni de Paula (PSC-RJ) é um dos mais apaixonados defensores do presidente Jair Bolsonaro e carrega consigo uma longa lista de episódios controversos, capazes de atrair os holofotes na mídia e nas redes sociais. As buscas e apreensões, que também atingiram o cantor Sérgio Reis, foram autorizadas pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), no âmbito de investigações da Corte sobre ataques à democracia. 

Para Otoni, estar no noticiário por causa de Moraes não é novidade. Após ofender o magistrado, ele foi condenado na primeira instância da Justiça de São Paulo, em janeiro deste ano, a pagar R$ 70 mil por danos morais ao ministro. O deputado havia chamado Moraes de “cabeça de ovo”, “lixo” e “esgoto”, entre outras ofensas. 

Otoni é apontado na investigação da Procuradoria-Geral da República (PGR) como um possível membro do núcleo político do movimento que, nas redes sociais, sugeria usar o ato de 7 de Setembro, em Brasília, para consolidar ameaças ao STF e ao Congresso.

A Procuradoria destacou um tuíte do deputado em que ele fala em usar a manifestação programada para “forçar o Senado” a abrir processo de impeachment contra os ministros Alexandre de Moraes e Luis Roberto Barroso. “Ou eles abrem o impeachment ou paramos o país por tempo indeterminado”, escreveu, em 14 de agosto.

Para a PGR, o teor da publicação “obviamente não se insere na esfera abrangida pela imunidade parlamentar”. Moraes determinou buscas na casa do deputado e no endereço de outros alvos ligados ao movimento.

Fake news nas redes

Partiu do parlamentar, neste mês, a viralização de uma imagem do imponente Exército chinês com legenda que indicava ser o do Brasil nas fotos. Era, obviamente, mentira. A publicação de Otoni foi feita no dia do desfile militar em Brasília, por meio do qual Bolsonaro tentava demonstrar força na mesma data da votação, no plenário da Câmara, do projeto que buscava implementar o voto impresso. 

A coleção de episódios desse tipo envolvendo Otoni também é vasta no Rio, seu reduto político. Pastor de uma filial da Assembleia de Deus na Barra da Tijuca, zona oeste da capital fluminense, o político é tido como um daqueles que oscilam com facilidade entre posições políticas. Um exemplo concreto disso envolveu a relação com o ex-prefeito Marcelo Crivella (Republicanos).

Quando Crivella passava por um processo de impeachment na Câmara Municipal, em julho de 2018, Otoni, que era vereador, fez uma dancinha considerada homofóbica. Seu objetivo era debochar do então vereador David Miranda, do PSOL, que assume publicamente a sua homossexualidade. O psolista era a favor do impeachment, ao contrário do vereador do PSC. No mesmo parlamento, Otoni foi o único a votar contra a ideia de dar o nome da vereadora executada Marielle Franco à tribuna da Casa.

Mas, quando a baixa popularidade de Crivella tornava sua reeleição à prefeitura quase impossível – acabaria derrotado por Eduardo Paes (ex-DEM, agora no PSD) —, Otoni passou a se apresentar como dissidente. Fez fortes críticas ao prefeito e tentou lançar sua própria candidatura à prefeitura, mas perdeu a disputa interna no PSC para a ex-juíza Glória Heloiza. Em meio ao compromisso assumido por Bolsonaro de apoiar Crivella, porém, Otoni deu outra meia-volta e passou a apoiar o então prefeito novamente.

Foi assim que se tornou um dos protagonistas de uma das principais mentiras difundidas pela campanha de Crivella no segundo turno contra Eduardo Paes. Em vídeo no qual o prefeito e Otoni apareciam juntos, os dois alegavam que o PSOL apoiava Paes e que, com isso, haveria “pedofilia nas escolas”.

Paes passou a martelar, em debates, que Crivella era o “Pai da Mentira”, em referência à figura do Diabo – fazendo assim um aceno à base evangélica cortejada pelo mandatário e pelo próprio Otoni.

A relação com o governador cassado Wilson Witzel, do seu PSC, também mostra como Otoni se porta ao sabor da conjuntura política de cada momento. Mesmo se mantendo no mesmo partido que o ex-mandatário estadual - que sofreu impeachment por suspeitas de corrupção -, o deputado virou um dos mais ativos detratores dele nos últimos anos.

Nem a cantora Anitta escapou da estratégia do deputado Otoni, com base em afirmações descabidas, presumivelmente em busca de espaço nos meios de comunicação e na internet. Em 2018, ele compartilhou imagens da artista e perguntou se era "cantora ou garota de programa”. Anitta ameaçou processá-lo e apontou, em sua resposta, o caráter eleitoral dos ataques.

“Sei como é importante e estratégico usar um nome de notoriedade na mídia para ganhar espaço e, assim, começar a divulgar seu trabalho próximo ao ano eleitoral”, escreveu Anitta. Otoni pediu desculpas e atribuiu a publicação a assessores.

Outra artista escolhida por Otoni para “viralizar” foi a cantora Ludmilla. Uma apresentação dela no programa de Fátima Bernardes, na TV Globo, fez com que o deputado entrasse com uma notícia-crime contra a apresentadora. Ele alegou que, por Ludmilla ter cantado a música ‘Verdinha’, o programa fez apologia à maconha. / COLABOROU VINÍCIUS VALFRÉ, DE BRASÍLIA

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