Bloqueio pode dar prisão a sem-terra

Juiz determina penalidades para manifestantes e movimentos que fecharem estradas em MS

João Naves de Oliveira, O Estadao de S.Paulo

31 de janeiro de 2008 | 00h00

O juiz federal Dalton Igor Kita Conrado determinou ontem a prisão para os sem-terra responsáveis por novos bloqueios em três rodovias federais de Mato Grosso do Sul e multa de R$ 10 mil por dia de desobediência para os movimentos que representam os infratores.Também ontem, quatro oficiais da Justiça Federal, escoltados por 36 agentes da Polícia Federal e patrulheiros rodoviários federais, notificaram quase 300 famílias que estão acampadas às margens da BR-163, dentro do município de Campo Grande. Hoje as notificações continuarão sendo entregues, para outros acampados.Entretanto, os líderes dos sem-terra acampados na BR-163 tomaram conhecimento de que a decisão do magistrado é específica para trechos diferenciados da BR-163 e bloquearam a estrada no Km 311, que está fora de exigência judicial. O bloqueio começou às 15h50 e, segundo a Polícia Rodoviária Federal, uma hora depois os manifestantes desbloquearam a BR-163, no local situado em Rio Brilhante, região leste do Estado, a 150 quilômetros de Campo Grande. O congestionamento chegou a 5 quilômetros nas duas pistas.Logo depois da liberação no Km 311, a mesma estrada foi bloqueada no Km 361, em Naviraí, a 350 quilômetros de Campo Grande, no extremo sul do Estado. Até a noite de ontem o bloqueio continuava nesse trecho e não havia previsão de quando seria liberado. No despacho do juiz está claro que as determinações são válidas apenas para o Km 419 da BR-163, próximo ao Distrito de Anhanduí em Campo Grande; o Km 310 da BR-262 também em Campo Grande e o Km 504 da BR-267 na região de Maracaju, a 170 quilômetros da capital, no sudeste de Mato Grosso do Sul.Dirigentes do Movimento dos Sem-Terra (MST), da Federação dos Trabalhadores na Agricultura (Fetagri), da CUT-Rural e da Federação da Agricultura Familiar (FAF) afirmaram ontem, durante reunião feita para avaliação dos últimos bloqueios, que continuarão com as manifestações até que o senador Valter Pereira de Oliveira (PMDB) desista da indicação do professor universitário Flodoaldo Alves para substituir o atual superintendente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) no Estado, Luiz Carlos Bonelli.Márcio Bissoli, coordenador do MST, disse que foi grande o constrangimento sofrido pelas famílias notificadas pela Justiça Federal, ressaltando: "mas vai ficar muito caro se o superintendente atual do Incra for substituído". Geraldo Teixeira de Almeida, presidente da Fetagri, afirmou que "a teimosia do senador Valter Pereira em querer o cargo para o seu protegido é a única culpada dessa situação".O coordenador da FAF, Paulo César de Faria, enfatizou que "até um número bastante significativo de assentados pelo Incra no Estado está colaborando nos bloqueios". "Não é somente sem-terra, não. A situação pode ficar pior quando a massa de manifestantes resolver adotar formas mais expressivas de protestos. Isso pode acontecer, sem dúvida", afirmou.O senador Valter Pereira justifica a indicação de Flodoaldo reafirmando que Luiz Carlos Bonelli "implantou favelas rurais nos assentamentos". O parlamentar voltou a dizer que "existem interesses inconfessáveis no Incra que mantêm Bonelli no cargo". Para o governador André Puccinelli (PMDB), Bonelli deve permanecer no posto, visando a evitar novos tumultos como os que estão acontecendo deste sexta-feira, quando os bloqueios de rodovias começaram.

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