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Bloqueio do Telegram por Moraes afeta comunicação de ucranianos no Brasil

Aplicativo é o mais utilizado em países do Leste europeu e já foi suspenso na Rússia em 2018

Levy Teles, O Estado de S.Paulo

19 de março de 2022 | 05h00

A suspensão do Telegram determinada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes nesta sexta-feira, 18, pode afetar a vida de ucranianos no Brasil. A plataforma é a principal forma de troca de mensagens no país. “O Telegram na Ucrânia é como o WhatsApp para os brasileiros”, disse  a ucraniana Anastasiia Syvash, que vive em Salvador. 

Segundo ela, a rede social ficou muito popular no país por causa da segurança de não ter conversas invadidas. O dono, Pavel Durov, é um russo que se opôs ao governo Vladimir Putin, e, por isso, fugiu para o Oriente Médio. “Ele se opõe ao governo e tem ascendência ucraniana”, afirmou Anastasiia. “Por isso nos sentimos seguros para usar.” 

O aplicativo foi suspenso na Rússia em abril de 2018, mas o Telegram conseguiu driblar os bloqueios e seguiu em atividade no país. Opositores de Putin o usam pela segurança na comunicação. A suspensão foi revogada em junho de 2020, após o governo russo não conseguir conter o uso do aplicativo de troca de mensagens.

Cidadãos de outro país do Leste Europeu também podem ser afetados pela decisão de Moraes. Nativos de Belarus no Brasil terão problema em obter informações sobre o país, onde o Telegram é o principal meio de circulação de notícias. O país é comandado pelo líder autoritário Alexander Lukashenko e é conhecido como “a última ditadura da Europa”. 

Por lá, o Telegram é considerado uma das poucas formas viáveis de se obter informações, já que há constante repressão a jornalistas independentes. “Sou contra o espalhamento de discurso de ódio e fake news. Mas, em Belarus, o Telegram não tem bem esse papel”, disse a representante da Embaixada Popular de Belarus no Brasil, Volha Yermalayeva. Ela destacou que a rede é o único mensageiro confiável, seja para a troca de informações ou arquivos em Belarus. 

Christian Perrone, head de Direito e govtech do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS-Rio), afirmou que há outros usos da rede social. “Há gente que dá aulas, vende produtos, buscam informações sobre o bairro.” Para ele, o bloqueio causaria “um impacto na possibilidade de pessoas discutirem questões e um impacto significativo também na liberdade de expressão”.

Entre pessoas que nasceram no Leste Europeu que vieram para o Brasil, cogita-se a possibilidade de uso de formas de driblar o bloqueio ao Telegram. Na decisão, no entanto, Moraes determinou “sanções civis e criminais”, e multa diária de R$ 100 mil para quem utilizar “subterfúgios tecnológicos” para continuar com o aplicativo.

Perrone questionou a eficácia da punição. Segundo pesquisa do Opinion Box de abril de 2021, 53% dos dispositivos móveis no País têm o aplicativo baixado. “Cerca de 70 milhões de pessoas têm a possibilidade de usar o celular e muitas dessas utilizam o Telegram. Se 1% resolver utilizar o VPN, estamos falando de 600 mil pessoas. Será que há condições de aplicar essa multa?”

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