Bispo retoma greve de fome contra obras do São Francisco

D. Cappio retoma protesto dois anos e um mês depois que encerrou um jejum de 11 dias pelo mesmo motivo

Tiago Décimo, do Estadão,

27 de novembro de 2007 | 15h20

O bispo de Barra (BA), d. Luiz Flávio Cappio, de 61 anos, resolveu voltar a fazer greve de fome para protestar contra as obras de transposição do Rio São Francisco, que estão sendo realizadas por tropas do Exército no norte da Bahia.   Veja também:    Entenda a transposição do São Francisco    A manifestação, que começou às 10 horas desta terça-feira em Sobradinho, 554 quilômetros a noroeste de Salvador, ocorre dois anos e um mês depois que o religioso encerrou um jejum de 11 dias, pelo mesmo motivo.   "Naquela época, o governo e eu assinamos um acordo que previa o encerramento da transposição e o início de um grande debate da sociedade em torno do desenvolvimento das populações que vivem nas regiões abastecidas pelo rio", conta. "Recomeço este protesto desesperado porque o governo não cumpriu o acordo."   A greve de fome foi iniciada assim que Cappio protocolou uma carta para ser entregue ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Nela, o bispo ressalta que há "propostas para garantir o abastecimento de água para toda a população do semi-árido com as ações previstas no Atlas do Nordeste apresentada pela Agência Nacional das Águas (ANA) e as ações desenvolvidas pela Articulação do Semi-Árido (ASA)", fazendo com que a transposição seja desnecessária.   Cappio afirma que está disposto a morrer "pela vida do rio e a do povo". "Só há duas formas de eu interromper este protesto: se as tropas do Exército saírem dos locais onde estão sendo realizadas as obras ou se forem arquivados definitivamente os projetos de transposição", garante.   Greve em 2005   Em 2005, Cappio ficou conhecido no País por ficar 11 dias em greve de fome contra as mudanças no curso do rio.  Ele chegou a perder quatro quilos. À época, o protesto surtiu efeito e o governo decidiu suspender a transposição, embora provisoriamente. A obra também havia sido inviabilizada por meio de liminares na Justiça. Mas, como é uma das prioridades do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o projeto de transposição voltou a ser tocado.   Após o acordo com Lula há dois anos, Cappio disse preferir aguardar os acontecimentos e que, se o acordo não fosse cumprido, voltaria para Cabrobó e para a greve de fome, reiniciando a luta. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e a Santa Sé criticaram Cappio quando da primeira greve de fome. Em resposta, o religioso disse em entrevistas que não temia ameaças, especialmente do Vaticano.   Cappio foi visitado por romeiros e fiéis e teve sua imagem reproduzida em santinhos confeccionados pela prefeitura de Barra e distribuídos em Cabrobó, trazendo a frase de sua autoria: "Quando a razão se extingue, a loucura é o caminho." Camisetas também foram distribuídas por religiosos.  O gesto de d.  Luís atraiu a atenção internacional.       Veja nota da CNBB       Ao tomar conhecimento, nesta terça-feira, 27, da decisão de d. Luiz Flávio Cappio, bispo da diocese de Barra (BA), de retomar o "jejum e a oração" por causa do projeto de transposição do Rio São Francisco, a Presidência da CNBB reafirma o que já teve ocasião de expressar.       Em relação à transposição, a CNBB considera que:       "O Estado tem a responsabilidade de garantir à população o acesso à água de boa qualidade, que é um direito humano e um bem público necessário aos seres humanos, aos animais e às plantas;       "É necessário dar continuidade a um amplo diálogo visando a soluções adequadas e considerando as alternativas apresentadas pelas forças sociais populares envolvidas no processo, para promover o desenvolvimento sustentável, a preservação do meio ambiente, a agricultura familiar e a convivência com o semi-árido;     "É preciso cuidar da revitalização do Rio São Francisco e do respeito ao direito à terra dos povos da região, particularmente indígenas, quilombolas, população ribeirinha.   Temos clareza que o tema da transposição do Rio São Francisco traz consigo muitas implicações, não havendo unanimidade nem mesmo na Igreja, o que julgamos perfeitamente compreensível.        Esperamos que o diálogo se estabeleça a fim de que a vida e a justiça prevaleçam sobre quaisquer outras razões.     Brasília, 27 de novembro de 2007     Dom Geraldo Lyrio Rocha   Arcebispo de Mariana   Presidente da CNBB     Dom Dimas Lara Barbosa   Bispo auxiliar do Rio de Janeiro   Secretário Geral da CNBB       Texto ampliado às 16h20

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