Biografia de Marina destaca vínculos com Lula

A primeira biografia oficial da candidata do PV à Presidência da República, Marina Silva, a ser lançada no dia 9, em São Paulo, pode ser classificada também como uma declaração de amor ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em 243 páginas de história da menina pobre criada num seringal do Acre, a escritora e jornalista Marília de Camargo César retrata em "Marina - A vida por uma causa" o forte vínculo entre a candidata verde com a sua maior referência política: o presidente Lula, passando por sua mágoa em relação à indiferença de Lula no episódio da saída do Ministério do Meio Ambiente e do PT e a gratidão que ainda nutre pelo presidente.

DAIENE CARDOSO, Agência Estado

28 Julho 2010 | 19h54

"Ela tem um profundo respeito, um amor no sentido mais nobre. Ela sempre se emociona e, muitas vezes, vem às lágrimas ao falar do Lula", conta a biógrafa, que percebeu uma identidade maior entre Marina e Lula do que com Chico Mendes, parceiro de luta ambiental no Acre. "Foram muitas desilusões, por isso a dor é maior. Tive a impressão de uma ferida mal curada", disse Marília.

Em alguns trechos do livro, fica clara a fidelidade de Marina ao presidente. "Marina saía em campanha por Lula, a barriga imensa, pelo interior do Acre. A fidelidade ao companheiro marcou sua trajetória. Ainda hoje, mesmo após os desentendimentos por sua postura à frente do Ministério do Meio Ambiente e de sua saída do PT, depois de trinta anos, Marina torce o nariz quando alguém fala mal do presidente perto dela. (...) Deixou o governo e o PT, mas, ao que parece, mantém a lealdade e os laços de gratidão".

O projeto do livro começou a ser discutido em 2008, quando Marina ainda era ministra. A ideia inicial era de que o livro, produzido pela Editora Mundo Cristão, fosse lançado em abril, mas como a biografia passaria pelo crivo da ex-petista antes da publicação, o lançamento só acontecerá agora, em meio à campanha eleitoral. "Ela queria ler com muita atenção", conta Marília, ao lembrar que a senadora relutou em aceitar o projeto por achar que ainda é muito jovem para ter uma biografia. A expectativa de venda é alta: só a primeira edição terá 20 mil exemplares.

Conteúdo do livro

No formato de reportagem biográfica, o livro traz relatos de amigos, parentes e trechos de entrevistas com Marina. Em diversas ocasiões, a candidata do PV se emocionou, principalmente ao lembrar as dificuldades na vida, sua relação com Lula e a saída do PT. "Tive muito medo que o Lula estivesse sendo indiferente comigo. Porque saí do governo e ele resolveu não falar comigo, quem falou foi o Gilberto Carvalho. Depois saí do PT, e ele não falou comigo, mas sim os outros companheiros do PT. Depois disso, a gente ainda não se encontrou", conta Marina em sua biografia.

Em outro trecho, Marina revive a saída do Ministério do Meio Ambiente. "Fiz de tudo para que a transição fosse respeitosa, sem deixar de dizer as verdades que precisavam ser ditas para o bem da Amazônia e do próprio governo. Mas essa coisa da indiferença é muito ruim. Não só porque ela nos afeta enquanto sujeito ignorado, mas porque alguém que trata o outro com indiferença revela algo muito pequeno de sua personalidade. Mesmo estando fora do governo e do PT, penso que continuo tentando ajudá-lo (Lula)", diz.

A biografia revela também que Marina chorou por três horas no dia em que se filiou ao PV. "Ela despertou de madrugada e começou a chorar. Era uma dor tão forte no peito que o choro não cessava; tanta dor, tanta dor", diz o livro, complementando que o choro foi em razão da lembrança dos velhos companheiros de luta dentro do PT.

Ao mencionar o episódio do Mensalão, Marina cita o constrangimento que o escândalo de corrupção trouxe aos "companheiros" de partido. "Foi muito difícil para todos nós do PT, porque havia um grande desserviço em curso, aquela coisa de ficar dizendo: todos os partidos são iguais, todos os políticos são iguais. O PT era uma espécie de ícone ético, e aquilo tudo foi uma coisa muito ruim. Era como dizer: bem-vindo à vala comum".

Para a autora, as biografias de Marina e Lula são indiscutivelmente parecidas, com a diferença que Marina é mais rural e Lula mais urbano. "É uma diferença importante, quem veio da floresta tem outra visão de mundo", avalia. Marília acredita que Marina representa hoje os ideais primários do antigo PT. "Ela pode ser identificada com os ideais nobres que o PT tinha e que se perderam ao longo do processo. A diferença é que Marina tem hoje elementos novos", conclui.

Adversários

A biografia cita seus adversários de campanha José Serra (PSDB) e Dilma Rousseff (PT). Marina trata o tucano como um apoiador de seus projetos no Senado. Já a petista é relembrada pelas divergências que tiveram quando faziam parte do governo Lula. "Ela sempre os tratou de forma muito elegante", garante a autora. Marina revela também que reza todos os dias para ter sabedoria para lidar com seus adversários de maneira que "não seja nem ingênua nem destrutiva".

Além da vida política, o livro aborda os dois casamentos de Marina, o período em que fez teatro e interpretou uma chimpanzé capitalista no palco (o que lhe rendeu o apelido de Macaca), a relação com os filhos, a conversão à Igreja Assembleia de Deus (que quase pôs fim ao seu segundo casamento) e os dois anos de dedicação à leitura da Bíblia.

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