Biografia da polêmica Neusinha Brizola é lançada no Rio

O dia em que a biografada escondeu 1 kg de heroína no banco do carro do pai, então candidato à Presidência, está entre as histórias narradas no livro

Sílvio Barsetti , O Estado de S. Paulo

19 Março 2014 | 17h30

As ''perdas internacionais'' e o embate permanente com as organizações Globo talvez não estivessem no topo da lista de preocupações de Leonel Brizola (1922-2004) ao longo de boa parte de sua vida pública. O ex-governador do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro - em dois mandatos -, convivia diariamente com uma adversidade caseira, sobre a qual não exercia nenhum controle. Chamava-se Neusinha Brizola, sua filha, famosa por escândalos, quase todos relacionados ao consumo de drogas.

"Minha vontade é sentar o relho no teu lombo", disse uma vez o então candidato à Presidência da República pelo PDT para a filha. Isso porque Neusinha escondeu um tablete com um quilo de heroína debaixo de um assento do carro utilizado pelo pai durante a campanha. Por vários dias, Brizola circulou pelo Rio com a droga alojada no veículo. Seu motorista se surpreendeu ao descobri-la e, nervoso, fez o relato ao patrão.

Brizola se enfureceu e desferiu um ''não rotundo'' à Neusinha. "Que porcaria é aquela que o chofer encontrou debaixo do meu banco? Então você me faz andar pra cima e pra baixo, durante quase um mês, com a bunda em cima de um quilo de droga?" O sermão continuou e, por fim, ele expulsou a filha de casa. "Minha vontade é de te cagar a laço, tchê." Neusinha foi morar em Amsterdã.

Essa história está relatada na biografia ''Neusinha Brizola Sem Mintchura'' (Editora Interface Olympus), que vai ser lançada nesta quinta-feira, 20, no Rio (Fnac, no Barra Shopping). Os autores, Fabio Fabricio Fabretti e Lucas Nobre, gravaram mais de 20 horas de entrevista com a personagem, que morreu em 2011, aos 56 anos, vítima de complicações provocadas por uma hepatite. A narrativa, na primeira pessoa, reúne intimidades da família Brizola e mergulha no submundo vivido por Neusinha, presa diversas vezes por porte de drogas.

A dor de cabeça de Brizola com as estripulias da filha o levou a demitir o secretário estadual de Transporte, José Colagrossi, em 1983, por causa de uma festa gótica organizada por Neusinha, com direito a fantasia de Cleópatra, num prédio que pertencia à secretaria. Brizola governava o Rio pela primeira vez e ficou contrariado com a repercussão e os detalhes do evento. Numa área pública, instrumentos de tortura eram oferecidos aos convidados, todos com roupas pretas e servidos por garçons encapuzados à Ku Klux Klan.

Ao saber da decisão do pai, Neusinha foi a seu gabinete tentar interceder a favor de Colagrossi. "Pai, o que você está fazendo não é certo." Ouviu nova reprimenda. "Certo foi o que você e ele não fizeram. Isso é insustentável. Aquele prédio pertence ao Estado, não é uma casa de festas."

A relação tempestuosa entre os dois durou décadas e criou outras situações de embaraço para Brizola. O terceiro colocado na corrida presidencial de 1989, com mais de 11 milhões de votos, chegou a dizer que sua tolerância com Neusinha havia se esgotado para sempre. Anos mais tarde, já no leito de um hospital, em 2004, o político e a cantora, autora do hit Mintchura, ensaiaram uma aproximação. Ela se dizia arrependida por ter deixado o pai em apuros um sem-número de vezes. Flexível, ele aceitou o seu beijo. 

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