Beth Carmona deixa TVE, que integra nova TV pública

Jornalista diz não ter 'mais o que fazer' e fala em 'dualidade de comando'

Wilson Tosta, RIO, O Estadao de S.Paulo

30 de novembro de 2007 | 00h00

Desgastada pelo processo de criação da TV Brasil, que estréia domingo, a presidente da Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto (Acerp), jornalista Beth Carmona, gestora da TVE, encaminhou ao conselho de administração da instituição carta dizendo não ter mais condições de permanecer no cargo. A iniciativa será discutida hoje pelo órgão e pode ter novos desdobramentos, com possível manifestação de conselheiros em protesto contra a forma como está sendo criada a TV pública.Na carta, entregue ao presidente do conselho de administração, Tadao Takahashi, Beth pede "orientação" sobre o que fazer diante da nova situação. "Se acaba a Acerp e acaba a TVE, não tenho mais o que fazer aqui", disse Beth ao Estado. No texto, ela afirma que "não há possibilidade de continuidade neste cargo, em função da dualidade de comando".É da TVE a maior parte da programação que deve ser aproveitada pela nova emissora, que começará a operar com canais em São Paulo, Rio, Brasília e Maranhão e possivelmente em rede com algumas TVs estaduais. Sua criação é um dos projetos estratégicos do segundo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que pretende contrabalançar a influência da imprensa, que, na avaliação do Planalto, manipulou o noticiário durante a crise do mensalão, em 2005 e 2006, para atingi-lo e ao PT. Uma das prioridades da nova emissora será um novo telejornal noturno. Sua estréia vai coincidir com o início oficial das transmissões de televisão em sinal digital no Brasil.O duplo comando na TVE começou a ficar mais claro nos últimos dias, quando diretores e funcionários da TV Brasil se instalaram na sede da Educativa, um prédio comprado e reformado na gestão da jornalista, no centro do Rio. Lá, os recém-chegados até ordenam despesas, à revelia do comando da Acerp - a TV Brasil ainda não tem orçamento próprio.O diretor-geral da nova emissora, Orlando Senna, já tem sala na instituição. A impressão de "invasão" se acentuou esta semana, depois que Beth voltou de viagem ao exterior e encontrou muita gente que não conhecia trabalhando na empresa."Vi no ar uma coisa que não foi aprovada por mim", lamentou a jornalista, referindo-se a um anúncio sobre a nova emissora pública. Preventivamente, Beth não tem assinado nenhum documento relativo a gastos da nova empresa. Ela preside a Acerp desde o primeiro governo Lula e há três meses se sente desconfortável no posto. Um dos motivos foi a decisão do governo de fundir a Acerp e a Radiobrás para formar a Empresa Brasil de Comunicação (EBC), que controlará a TV Brasil.O Estado não localizou a jornalista Tereza Cruvinel, presidente da EBC, para comentar o assunto.

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