Berlusconi cancela visita ao Brasil

Primeiro-ministro passaria por São Paulo e Brasília após carnaval

Denise Chrispim Marin, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

30 de janeiro de 2009 | 00h00

O primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi, cancelou sua visita ao Brasil, prevista para o fim de fevereiro, diante do desgaste das relações bilaterais provocado pelo caso Cesare Battisti, conforme informou ao Estado uma fonte da diplomacia italiana. O gabinete de Berlusconi considerou impossível, neste momento, responder tão prontamente à visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Roma, em novembro passado, e dar um passo em favor do aprofundamento da parceria estratégica entre os dois países, como estava programado.Uma possível decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) em favor da extradição de Battisti não seria suficiente para o governo Berlusconi reconsiderar sua visita ao País. O STF deverá julgar o pedido italiano no início de fevereiro. A assessoria de imprensa do Itamaraty limitou-se ontem a informar que não recebeu nenhuma comunicação oficial de Roma sobre a visita de Berlusconi ao Brasil. Ou seja, como a visita não estava marcada não poderia ser desmarcada. Fontes da diplomacia, no entanto, informaram que estavam em curso negociações entre ambas as chancelarias para a definição precisa da data da visita do primeiro-ministro a São Paulo e a Brasília, depois do carnaval. Com o espaço de apenas três meses entre a visita de Lula à Itália e de Berlusconi ao Brasil, o governo italiano pretendia dar um sinal político em favor da intensificação da cooperação e dos negócios entre os dois países.Essa tinha sido, justamente, a posição defendida por Lula durante sua visita de cinco dias a Roma. Escudado no salto de US$ 4 bilhões para US$ 8 bilhões no intercâmbio Brasil-Itália entre 2003 e 2008, Lula defendera o aquecimento do comércio bilateral. Referindo-se à crise econômica global, o presidente afinara seu discurso ao de Berlusconi e defendera uma maior coordenação entre os países e que não entrassem em "pânico". Ao lado de Berlusconi, Lula assistiu à assinatura de acordos de cooperação nas áreas de defesa, infraestrutura, tecnologia espacial e saúde.O clima entre os dois países, porém, deteriorou-se gradualmente desde 13 de janeiro, quando o ministro da Justiça, Tarso Genro, concedeu refúgio político a Battisti - um militante do grupo Proletários Armados para o Comunismo (PAC) condenado pela Justiça italiana à prisão perpétua por atos terroristas que causaram a morte de quatro pessoas, nos anos 70. Apesar da insistência do Ministério das Relações Exteriores (conhecido pelo nome de Farnesina) e das pressões da opinião pública italiana, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva respaldou a decisão de Tarso - que havia contrariado o Comitê Nacional para Refugiados (Conare) e o parecer da Procuradoria-Geral da República - e pôs uma pedra sobre o caso.No dia 27, a chancelaria italiana chamou de volta seu embaixador em Brasília, Michele Valensise, para consultas - um gesto diplomático que indica o agravamento do conflito bilateral e prenuncia uma decisão mais séria, como o rompimento das relações.O governo italiano deu sinais de que também pode criar dificuldades para a participação do Brasil na reunião de Cúpula do G8 (as sete maiores economias, mais a Rússia), programada para junho, na Sardenha. A Itália está na presidência temporária desse grupo. Nos últimos anos, Lula tem sido convidado a participar do diálogo entre o G5 - os emergentes África do Sul, Brasil, China, Índia e México - e o G8.

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