Beneficiados reclamam que dinheiro não vem

Presidente da comissão diz que trâmite pode levar até oito meses

, O Estadao de S.Paulo

27 de dezembro de 2008 | 00h00

Os trabalhos da Comissão da Anistia têm recebido críticas de dois extremos - tanto de simpantizantes quanto de opositores do regime militar.A professora Ana Maria da Costa, de 61 anos, ex-militante da Ação Popular (AP) e por isso impedida de lecionar durante 11 anos, foi anistiada em agosto deste ano, mas até hoje não recebeu os R$ 2 mil mensais a que tem direito. "A falta de dinheiro é muito grande aqui em casa. Se sobreviver à doença, terei a oportunidade de ajudar um pouco", disse ela, que sofre de câncer de garganta.Segundo o presidente da comissão, Paulo Abrão Pires Júnior, o trâmite para pagamento pode demorar até oito meses. "Os documentos são juntados e encaminhados ao Ministério do Planejamento. Se faltar algo, demora um pouco mais", disse.A demora nos pagamentos, de acordo com a presidente da Associação Brasileira dos Anistiados Políticos (Abap), Alexandrina Cristensen, tem se tornado norma. "Isso cria uma expectativa muito grande nas pessoas. Reconhecemos o trabalho fantástico que a comissão realizou neste ano, mas o atraso complica a vida dos anistiados."Apesar de os valores de indenizações terem caído, elas são vistas como um provilégio indevido por militares que atuaram em campos opostos aos dos militantes de esquerda. O presidente do Clube Militar, general da reserva Gilberto Figueiredo, considera que a maioria dos pagamentos é injusta."Houve uma banalização da proposta inicial da lei, que era de indenizar quem realmente sofreu nas mãos de um regime forte", criticou Figueiredo. "Virou um negócio, uma ação entre amigos, com gente que passou dois ou três dias preso, ninguém encostou um dedo e, mesmo assim, pede indenização."Paulo Abrão rebate a argumentação: "Os valores são bem menores e as decisões da comissão são técnicas e muito rigorosas", afirmou.FILTROSob severa vigilância das famílias dos guerrilheiros mortos e desaparecidos no conflito do Araguaia, a comissão também toma cuidado para não anistiar os acusados de trair os militantes do PC do B. "Temos uma lista de pessoas que receberam do Exército terras tomadas de supostos simpatizantes da guerrilha. Estas dificilmente serão beneficiadas", disse Abrão.E até quando se estenderá o pagamento do benefício que os críticos apelidaram de bolsa-ditadura? Abrão afirmou que o protocolo permanece aberto para receber novos processos, até porque têm sido liberados arquivos e fontes de informação que permitem aos anistiados comprovar o que alegam.

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