Beira-Mar, preso e algemado: "Ainda tenho muita bala na agulha"

O traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, disse aos quatro policiais que o escoltaram no avião da Força Aérea Brasileira (FAB), no vôo entre Bogotá e Brasília, que ainda tem "muita bala na agulha", referindo-se ao dinheiro e às informações que acumulou em mais de uma década como um dos líderes do tráfico de drogas no País.Ele pretende utilizar as informações para negociar redução de pena com a Justiça brasileira e ainda sobreviver à troca de comandos do tráfico, que se iniciou com sua prisão.Um dos três advogados que visitaram Beira-Mar nesta quarta-feira na Superintendência da Polícia Federal, Adalberto Lustosa de Matos, contou que o traficante "tem a idéia" de trocar redução da pena pelas informações que possui.Mas nem o próprio advogado de Beira-Mar acredita nesta possibilidade, já que o traficante fugiu de uma unidade prisional de Minas Gerais em 1988.Antes de tentar abrir negociação com a Justiça, Beira-Mar vai tentar "revisar" algumas penas, com base em supostas testemunhas que teriam prestado informações falsas à Justiça para incriminá-lo."O propósito dele é acertar as contas com a Justiça", afirmou o advogado.Beira-Mar acredita que possa "pagar" o que deve à Justiça e à sociedade e ainda continuar gastando o dinheiro que restou de vários anos no crime."Ele já tem o suficiente para viver", disse Matos. O traficante quer estudar advocacia "e viver o resto da vida", segundo o advogado.De início, a maior preocupação de Beira-Mar foi rebater o secretário de Segurança do Rio, Josias Quintal, que revelou ter recebido do traficante uma lista de nomes de pessoas envolvidas com o tráfico, incluindo políticos."Ele desmente o secretário de Segurança", disse Matos. "O Quintal coloca meu cliente numa situação complicada."Beira-Mar sabe que traficantes delatores costumam ser punidos com a morte em alguns presídios brasileiros. Com os policiais, Beira-Mar comentou, no vôo, que Quintal quer eleger-se deputado com a repecussão da prisão.Outra preocupação do traficante é não ser levado para Minas Gerais, onde tem mais medo de morrer por ter denunciado policiais supostamente envolvidos com o tráfico.Ele quer ser transferido para o Rio, onde estão seus familiares e o que lhe resta de poder no comando do narcotráfico.No avião da FAB, com os dois pés e uma mão acorrentados, já que a outra mão estava engessada, Beira-Mar disse aos agentes que está feliz por voltar ao Brasil.Fez várias perguntas sobre times de futebol do Rio e sobre corridas de Fórmula 1. Contou ainda que tem saudades dos familiares, em especial da filha que está na Colômbia, mas que não vê há alguns meses.Observou ainda que considera o Brasil "o melhor País do mundo" e que sofreu muito nas matas da Colômbia. Desceu em Brasília sem as correntes.Beira-Mar quer ainda provar que é um bandido "feito" pela própria fama que conquistou, a de maior responsável pelo comércio de droga.Ele diz por intermédio de seu advogado que isto não é verdade, mas não fornece os nomes dos supostos chefões do tráfico.A presença de Beira-Mar no País conseguiu ressuscitar a extinta CPI do Narcotráfico. Parlamentares que integravam a comissão foram à PF tentar negociar novo depoimento do traficante, que desta vez seria realizado na Comissão Antiviolência da Câmara, que não tem poderes de CPI.A Comissão de Direitos Humanos também disputa o depoimento do traficante. Beira-Mar não soltou para os deputados as informações que sabe e voltou a falar sobre conhecidas rotas do tráfico.A presença de Beira-Mar no Brasil expôs ainda mais a disputa do governo do Rio de Janeiro e da Polícia Federal em torno da prisão do traficante, feita pelo Exército da Colômbia.Quintal e o governador Garotinho foram alvos de críticas dentro do governo. Oficialmente, no entanto, a secretária Nacional de Justiça, Elizabeth Süssekind, disse apenas que o governo federal busca uma "cooperação positiva" com as polícias dos Estados.A PF, que vai instaurar novo inquérito para investigar associação criminosa internacional, envolvendo Beira-Mar, não colheu o depoimento do traficante nesta quarta-feira.Reclamando de dores no ombro, onde levou um tiro na primeira investida do Exército colombiano, Beira-Mar foi levado ao Hospital das Forças Armadas (HFA), onde foi examinado pelo diretor, Herbert Cavalcante.Um esquema de segurança, com mais de 100 fuzileiros navais, foi montado para receber o traficante. Enquanto a Justiça em Minas e Rio disputam a custódia de Beira-Mar, o traficante está preso, sozinho, em uma cela de 12 metros quadrados na PF, que tem como banheiro um buraco no chão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.