Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

Bebianno trabalhava em livro sobre campanha de Bolsonaro em 2018, diz Paulo Marinho

Publicação já tinha até título: 'Uma eleição improvável', de acordo com o presidente do PSDB do Rio

Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2020 | 15h59

TERESÓPOLIS - Horas antes de falecer, na madrugada deste sábado em seu sítio em Teresópolis, região serrana do Rio, o ex-secretário-geral da Presidência Gustavo Bebiano estava trabalhando num livro sobre os bastidores da campanha presidencial de 2018. É o que contou o empresário e presidente estadual do PSDB do Rio, Paulo Marinho, durante o velório do ex-ministro em Teresópolis.

Bebianno foi coordenador da campanha que elegeu o presidente Jair Bolsonaro, mas deixou o governo ainda em fevereiro de 2019, após desavenças com o núcleo duro do Planalto, além dos filhos do presidente. Marinho, cuja mansão no Jardim Botânico, zona sul da capital fluminense, serviu de quartel-general para a campanha eleitoral de Bolsonaro, era amigo de Bebianno e acabou indicado como suplente do senador Flávio Bolsonaro na campanha de 2018.

Marinho articulou o lançamento do nome de Bebianno como pré-candidato a prefeito do Rio nas eleições deste ano, com apoio do governador de São Paulo, João Doria (PSDB). O lançamento oficial da candidatura estava marcado para o próximo dia 4 de abril.

Segundo Marinho, Bebianno teve uma reunião com representantes da editora Top Books, na sede de outra editora, a Ediouro, no Centro do Rio, na manhã de sexta-feira, 13. Em seguida, Marinho e Bebianno almoçaram, ao lado do ex-deputado estadual do Rio Carlos Osório (PSDB), num restaurante no Leblon, zona sul do Rio. No almoço com Marinho e Osorio, Bebianno optou por uma refeição leve, cujo prato principal era peixe. Segundo Osorio, que concorreu à Prefeitura em 2016 pelo PSDB, ele estava disposto e animado com a possível candidatura. “Queria conversar sobre a cidade e seus desafios. Disse que ia passar o fim de semana na serra para estudar. (A morte) foi um choque para todos.” 

Marinho contou que seu último contato com Bebianno foi por volta de 18 horas de sexta, quando o pré-candidato a prefeito do Rio disse que viajaria a Teresópolis, a pouco mais de uma hora de carro da capital fluminense, para descansar durante o fim de semana.

"Tenho uma tese: o Gustavo morreu de tristeza", afirmou Marinho, numa referência à saída de Bebianno do governo Bolsonaro. O presidente estadual do PSDB disse que Bebianno tinha saúde de "atleta" (o ex-secretário-geral praticava jiu-jitsu), mas vinha se alimentando mal. Somada à tristeza, Marinho citou o "estresse" da campanha eleitoral, do período de transição de governo e dos primeiros meses de governo. Além disso, como não era uma pessoa da "política", Bebianno era, nas palavras de Marinho, "puro", "sem ambições", o que causava mais estresse ao se relacionar no mundo da política, palco habitual de traições e disputas.

Além do livro sobre os bastidores da campanha eleitoral de 2018, que já teria até título ("Uma eleição improvável", disse Marinho), há uma semana, no sábado, 7, Bebianno gravou imagens para um documentário sobre as eleições vencidas por Bolsonaro. Com direção do cineasta Bruno Barreto, o documentário ainda está na fase de coleta de depoimentos, afirmou Marinho.

Segundo o presidente estadual do PSDB, a gravação do sábado, 7, tinha como foco a casa no Jardim Botânico - o depoimento de Bebianno foi gravado na sala de TV onde Bolsonaro gostava de cochilar, contou André Marinho, filho de Paulo Marinho. Bebianno ainda teria muitas imagens de bastidores da campanha eleitoral, que poderiam ser cedidas ao documentário.

Embora tenha dito que Bebianno se sentia ameaçado, tinha porte de armas e andava frequentemente com uma pistola Glock, Marinho descartou quaisquer outras possíveis causas de sua morte além de um infarto fulminante, como o presidente estadual do PSDB já havia afirmado ao Estado na manhã deste sábado, 14. Conforme Marinho, o infarto foi confirmado na autópsia.

No relato do empresário, Bebianno acordou por volta das 3 horas, com dores em um dos braços e no peito. Foi socorrido pelo filho, que estava com ele no sítio - a esposa e a filha ficaram no Rio. O filho levou Bebianno ao banheiro, onde o ex-secretário-geral caiu e bateu com o rosto no chão. Segundo Marinho, Bebianno ficou 30 minutos desacordado no banheiro, até que foi levado ao Hospital Central de Teresópolis pelo filho, com a ajuda do caseiro do sítio. No hospital, as manobras médicas não foram suficientes para evitar a morte. Um amigo da família, que acompanhava familiares no Instituto Médico Legal (IML) em Teresópolis, endossou o relato de Marinho. 

O enterro em Teresópolis seria um desejo de Bebianno, que considerava o sítio na cidade serrana um de seus locais preferidos.

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