Beber para não esquecer

O Ibope descobriu o índice cachaça. Quanto menor a confiança do consumidor brasileiro, maior a venda da bebida e vice-versa. O instituto encontrou forte correção entre as duas curvas: quando o otimismo do consumidor aponta para cima, cai o número de garrafas de pinga comercializadas; se o consumidor fica apreensivo, com medo do futuro, dá-lhe cachaça. Parece piada, mas é sério como dinheiro. Tem até equivalente internacional.

José Roberto de Toledo, O Estado de S.Paulo

04 Agosto 2016 | 02h33

Nos EUA, já é tradicional o lipstick index: a venda de batom cresce na direta proporção da queda do poder de compra dos consumidores. Não é difícil de entender. Sem dinheiro para ir ao salão de beleza ou para comprar uma roupa, a norte-americana endividada investe em algo barato, mas que dá um realce à sua aparência. O batom se tornou assim termômetro da crise.

No Brasil, o aumento do consumo de cachaça quando a vida econômica fica mais amarga é fruto também da troca de produtos na cesta do consumidor. Em vez de beber cerveja, o brasileiro em crise pede uma branquinha. Além de mais barata, tem teor alcoólico dez vezes maior. Na compra de calorias, a conta da pinga é bem mais vantajosa. Pode não dar o mesmo status que uma loira gelada, mas a cachaça é imbatível no retorno de graus da escala Gay Lussac por real investido.

Fosse apenas a cachaça, seria só uma curiosidade. Mas o estudo do Ibope – desenvolvido junto com uma nova ferramenta para entender o consumidor brasileiro, o Peoplescope – foi bem mais fundo em suas conclusões. Ao cruzar informações censitárias com pesquisas de opinião e local de moradia das pessoas, o Ibope encontrou 42 segmentos populacionais bem distintos nas suas características, hábitos e atitudes. Em comum, mudanças na cesta de consumo e na rotina de compras por causa da crise.

Cai o consumo de carnes e produtos de limpeza, mas cresce a venda de frutas, legumes e verduras. Assim, o valor médio da compra cai e a frequência com que o brasileiro vai ao mercado aumenta. Compra menos, mais barato e mais vezes por mês.

Para Marcia Cavallari, CEO do Ibope Inteligência, esta crise não é como as anteriores. “Apesar das crises serem uma constante na história do Brasil, esta é diferente, atinge a todos. É mais abrangente. Não é só econômica, ela também diz respeito às questões sociais, política e morais”, enumera.

Marcia vê homogeneidade de pensamento e reação de todos os segmentos sociais nessa nova situação. “A crise de confiança é generalizada, até dos próprios cidadãos em si mesmos.” É como se todos se perguntassem: “Será que vou conseguir pagar as contas?” A frustração é potencializada pelo contraste com a euforia que esse mesmo consumidor experimentou não faz tanto tempo.

A impressão é de que ele está perdendo tudo o que conquistou. “Daí vêm sentimentos de raiva, frustração, medo, insegurança, desvalorização, privação”, analisa Marcia. Mas isso tem consequências positivas também. Ele se torna um consumidor mais consciente, que escolhe, compara e troca marcas. E isso se reflete no comportamento do cidadão, que também escolhe, compara e troca de candidatos e líderes políticos.

A interação do novo consumidor com o novo cidadão – propiciada pela crise – é tão poderosa que tem influência definitiva sobre o comportamento geral da economia. Outro estudo do Ibope mostra que o peso das percepções e expectativas do consumidor sobre o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) já é maior do que todas as variáveis socioeconômicas juntas: câmbio, finanças públicas, produção e até o poder de compra do salário mínimo.

Entre 1994 e 2010, as coisas se equivaliam. A partir de 2011, e, mais intensamente, desde 2015, índices como Inec (CNI/Ibope) e ICC (FGV) explicam muito mais a variação negativa do PIB do que todas as outras variáveis comparadas. E tome pinga.

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