DIDA SAMPAIO/ESTADÃO
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BBB da CPI: ‘Rede paralela’ de informações abastece senadores na CPI da Covid

Perfis criados nas redes sociais interagem com parlamentares fornecendo dados, sugerindo perguntas, convocações e até mesmo checando falas dos depoentes em tempo real

Adriana Ferraz, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2021 | 15h44

Uma ‘rede paralela’ de informações tem ajudado a abastecer senadores que compõem a CPI da Covid no Senado na elaboração de perguntas, requerimentos e até mesmo na checagem das declarações prestadas pelos depoentes. A popularidade da comissão instalada para averiguar ações e omissões do governo Jair Bolsonaro ao longo da pandemia fez surgir nas redes sociais perfis que acompanham os trabalhos em tempo real, recuperam falas antigas dos convocados e ‘levantam’ dados úteis para próximas convocações. Algumas dessas páginas são seguidas, compartilhadas e comentadas pelos parlamentares. 

O presidente Omar Aziz (PSD-AM) é um dos que mais interagem no Twitter com internautas viciados na CPI, seja para rebater críticas, responder a sugestões ou fazer ironias. Na última sexta, por exemplo, ao ser questionado pelo perfil “JaIrme’s Vaccina Race” sobre que filme assistiria no fim de semana, respondeu: “Um filme de lutas das antigas - Retroceder nunca… render-se jamais.” Ele também já agradeceu ao perfil “Camarote da CPI” pelo “trabalho e ajuda”.

 

Juntos, os dois canais já somam mais de 264,7 mil seguidores ou "CPI Lovers", como chamam os internautas que acompanham a cobertura, entre eles o relator da comissão, Renan Calheiros (MDB-AL). O senador, aliás, faz questão de ressaltar durante os depoimentos que é abastecido diariamente com dados coletados das redes sociais. Segundo a assessoria do parlamentar, são cerca de 40 voluntários, entre estudantes, pesquisadores de dados e médicos que fornecem observações relevantes aos trabalhos do colegiado.

Sempre antenados nos depoimentos, os administradores desses grupos conseguem identificar temas que podem render mais questionamentos de acordo com o material de pesquisa que têm em mãos. O exemplo mais explícito ocorreu durante a fala do ex-secretário de Comunicação Fabio Wajngarten no dia 12. O publicitário afirmou que não poderia se responsabilizar pela campanha "O Brasil não pode parar", lançada pelo governo Bolsonaro em março de 2020, porque ficou afastado 26 dias naquele mês por ter contraído covid-19.

A fala chamou a atenção dos responsáveis pelo perfil “JaIrme’s Vaccina Race”, que rapidamente recuperou um post de Wajngarten da mesma época afirmando que seguia trabalhando normalmente apesar da doença. A publicação foi enviada aos senadores e Rogério Carvalho (PT-SE) a mostrou ao vivo na CPI.

Procurados pelo Estadão, os principais perfis preferem manter o anonimato para, segundo eles, evitar perseguição, especialmente da rede bolsonarista. O "Tesoureiros do Jair", por exemplo, foi criado antes mesmo de a CPI ser instalada, mas se organizou melhor após o início das investigações criando um espécie de "filtro" para os dados recebidos. A preocupação é a de não publicar informação falsa.

Como antídoto pra isso, a opção é sempre por documentos oficiais, como os que comprovaram que o Ministério da Saúde, diferentemente do que afirmou Eduardo Pazuello, lançou de forma oficial - e não hackeada - o aplicativo TrateCov, no qual se receitava cloroquina a moradores de Manaus infectados por covid-19.

O grupo, seguido já por 103,8 mil usuários no Twitter - com Omar Aziz -, também tem um "arquivo" de declarações em vídeo, áudio e texto de integrantes do governo Bolsonaro que podem ser úteis de acordo com o assunto a ser tratado pela CPI. Prática seguida desde dezembro de 2018, quando o Estadão revelou que um relatório do Coaf apontava uma movimentação atípica de R$ 1,2 milhão na conta bancária de Fabrício Queiroz, ex-assessor parlamentar do atual senador e filho do presidente, Jair Bolsonaro. É ele o "tesoureiro".  

Sugestões de nomes para serem chamados, postagem de documentos e notícias que envolvam de alguma forma o combate à pandemia também são bem-vindos pelos parlamentares, que comentam de volta com satisfação. Vice-presidente da comissão, Randolfe Rodrigues (Rede-AC) explica até mesmo detalhes de seu figurino, como um anel citado por um internauta.

“É um anel de tucum, ele surgiu na contemporaneidade com as comunidades eclesiásticas de base. Passei a utilizar desde que ingressei na pastoral da juventude. O significado dele, ensinado por Dom Pedro Casaldáliga, é um matrimônio com a causa dos mais pobres!”, disse. 

O petista Humberto Costa (PE) anunciou neste domingo que apresentaria  requerimento para convocação de Arthur Weintraub, que seria integrante do chamado “ministério paralelo” revelado na CPI pelo ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta. “Estou apresentando requerimento para convocação de Arthur Weintraub. Esse “ministério paralelo” que operava nos porões do governo está vindo à luz, com seus operadores mais evidentes a cada dia.”

Costa fez post em cima de um tuíte do portal de notícias Metrópoles, que publicou um vídeo antigo no qual Weintraub sugere ter levado a Bolsonaro o desejo de ouvir e reunir médicos a favor da droga para tratamento do novo coronavírus. Ele e o colega de partido Rogério Carvalho são bastante abertos a contribuições das redes. E os administradores comemoram publicamente.

Contra-ataque

Líder da tropa de choque bolsonarista na CPI, o senador Marcos Rogério (DEM-RO) prefere mais compartilhar do que responder a comentários sobre sua atuação nas redes. Na sexta, retuitou post do pastor Silas Malafaia afirmando que ele havia “detonado a falácia na CPI contra Bolsonaro”.

Ao Estadão, Rogério afirmou ser "questionável o uso por parte dos senadores de informações obtidas de perfis anônimos,, financiados sabe-se lá com que recursos, para atacar o governo e a base parlamentar do governo". Para o senador, é uma contradição os mesmos parlamentares que sustentam a narrativa de que o presidente Bolsonaria teria um "assessoramento paralelo" ou um "gabinete das sombras" se utilizem da mesma estratégia.

"Da forma como está, não se sabe exatamente quem, de fora, estará influenciando justamente o relator da CPI, que tem papel tão fundamental. É altamente preocupante essa prática caso esse senadores estejam mesmo se valendo de materiais oriundos de perfis anônimos", completou.

Do lado bolsonarista, perfis nas redes também abordam a comissão, mas com a #CPIdoCirco. A estratégia, neste caso, é desacreditar a investigação e tentar mudar o foco dos debates gerados por ela, priorizando temas relativos a Estados e municípios, como a compra de respiradores com recursos federais. O influencer Leandro Ruschel, com mais de 492 mil seguidores, usa seu perfil para criticar a mídia profissional e rebater senadores de oposição ao governo, como Renan Calheiros.

Entre os seguidores de Ruschel estão o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos0RJ), filhos do presidente, além dos ministros Ricardo Salles (Meio Ambiente) e Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos).

Outro canal que passou a comentar a CPI, pelo lado governista, é o da ex-jogadora de vôlei Ana Paula Henkel, acompanhado por 819 mil pessoas. No segundo dia de depoimento de Pazuello, a atleta "corrigiu" o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), fez piada com o sobrenome de Fabiano Contarato (Rede-ES) - "Primeiro compra pra depois discutir o contrato" - e afirmou que Mara Gabrilli (PSDB-SP), Rogério Carvalho e Simone Tebet (MDB-MS) só usam o espaço como palanque eleitoral.

A Omar Aziz o recado foi ainda mais direto:

Após quase um mês de CPI instalada, senadores governistas seguem reclamando que apenas o governo Bolsonaro tem sido investigado e que a amplicação do escopo - para apurar o uso de verba federal por Estados e municípios - tem sido ignorado pela comissão. Aziz tem sido cobrado pelas redes a convocar o secretário do Consórcio do Nordeste, Carlos Eduardo Gabas, que foi ministro da Previdência no governo Dilma Rousseff. A pressão já virou campanha pela #OmarconvoqueGabas.

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