Battisti se diz inocente e fala em democracia mafiosa na Itália

Em entrevista à 'Istoé', italiano contesta atenção em torno de status de refugiado; 'Por que tudo isso comigo?'

Da Redação,

29 Janeiro 2009 | 10h52

O italiano Cesare Battisti, foco da crise diplomática entre Brasil e Itália, afirmou em entrevista à revista Istoé, que não entende toda atenção em torno do caso. "Eu não sou essa pessoa tão importante. Sou um dos milhares de militantes italianos dos anos 1970", disse. Ele negou que tenha cometido qualquer homicídio e explicou que levou tanto tempo para alegar inocência "porque os outros que confessaram, disseram que tinham matado de verdade. Se eu me defendesse, me diferenciaria e abriria uma brecha na doutrina Mitterrand, que impunha a mesma defesa para todos."   Veja também: Entenda a polêmica do caso Cesare Battisti  TV Estadão: Ideologia não influenciou concessão de refúgio, diz Tarso   Documento: Processo do Ministério Público que defere extradição de Battisti     Abaixo-assinado a favor do refúgio a Battisti  Leia tudo o que já foi publicado sobre o caso e entenda o processo    Battisti criticou o governo italiano dos anos 70, dizendo que a tortura fazia parte do cotidiano do país na época. Segundo ele, a democracia italiana na época era controlada pela máfia. "Nós temos um primeiro-ministro que ficou décadas no poder e foi condenado por ser mafioso. Estou falando de Giulio Andreotti (líder do Partido Democrata-Cristão italiano, primeiro-ministro nos períodos de 1972-1973, 1976-1979 e 1989-1992). Havia também os fascistas, que nunca foram afastados do poder. E hoje, infelizmente, voltaram."   Battisti foi condenado à prisão perpétua na Itália, acusado de quatro assassinatos entre os anos de 1978 e 1979. Ele está preso no Brasil desde 2007, quando foi detido pela Polícia Federal no Rio. Na semana passada, o ministro da Justiça, Tarso Genro, concedeu a ele o status de refugiado político. Durante a entrevista, ele afirmou que não teme que o Brasil volte atrás na decisão, mesmo com a forte reação gerada na Itália. "A decisão do ministro Tarso Genro é bem fundamentada. Ele analisou todos os documentos. Não foi uma leitura superficial. E a perseguição política está provada nos documentos", disse.   À decisão de Tarso não cabe recurso. Por esse motivo, o procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, já recomendou o arquivamento do processo de extradição de Battisti, que deve ser acatado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em breve. Após isso, será uma questão de tempo até que Battisti seja solto.   Na entrevista, o italiano afirmou que durante o período na cadeia, aprofundou muito seu conhecimento sobre o Brasil e que pode fazer muito aqui. "Eu gosto muito do Rio de Janeiro. É um paraíso. É uma maravilha. Mas na verdade não sei onde vou viver. Acho que minha família vai adorar o Rio de Janeiro", disse.   Fuga ao Brasil   Ele explicou que decidiu vir ao Brasil, em 2004, porque sabia que existiam muitos refugiados italianos no País. E que contou com o apoio de Fernando Gabeira ao chegar. "Gabeira foi muito receptivo comigo. Eu não falava português, mas ele falava francês e italiano. Foi uma grande ajuda para mim, psicologicamente", afirmou.   Battisti contou que foi ajudado por pessoas do serviço secreto francês, que lhe deram a orientação de deixar a França. Foi de uma dessas pessoas que partiu a ideia da fuga para o Brasil. "Uma semana depois, ele mandou outra pessoa me entregar um passaporte, italiano, com minha foto e meus dados."   O italiano disse ainda que sempre suspeitou de que estava sendo monitorado no País, por meio de uma informação cifrada no código de barra de seu passaporte. "Em todos os lugares, alguém sabia que eu estava chegando. Em Fortaleza, foi na fila do controle de passaporte. Faltava pouco para a minha vez. Chegaram três pessoas. Uma delas, uma mulher, falava francês perfeitamente. Falou que precisava ativar o código de barras de meu passaporte. Me levaram para uma sala, me convidaram para um cafezinho e, depois de dez minutos, me devolveram o passaporte", disse.   "Durante dois anos e meio, fui constantemente monitorado. Por brasileiros e pelos franceses. Sempre. Acho que em algum momento entraram também os italianos", afirmou.

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