Battisti cita Gabeira e Ziraldo como seus contatos no Brasil

Em entrevista, extremista preso admite que pegou em armas e fez assaltos, mas nega que tenha atuado na execução de qualquer pessoa

João Domingos, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

30 de janeiro de 2009 | 00h00

O extremista de esquerda Cesare Battisti contou, em entrevista à revista IstoÉ, que antes de vir para o Brasil tinha contatos aqui, entre eles o deputado Fernando Gabeira (PV-RJ), que não conhecia pessoalmente. Afirmou ainda que tinha outros endereços, entre eles o do cartunista e escritor Ziraldo, mas não o usou. No fim da entrevista, Battisti informou que foi a ex-prefeita de Fortaleza Maria Luiza Fontenelle, eleita em pelo PT em 1986, que lhe enviou no dia 18 de dezembro um bolo de aniversário.Ele está detido no Presídio da Papuda, enquanto aguarda a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre sua soltura, visto que o ministro da Justiça, Tarso Genro, lhe concedeu status de refugiado político. A atitude de Tarso levou a uma crise diplomática com a Itália, que exige a extradição de Battisti, condenado lá a prisão perpétua, sob acusação de ter participado de ações que resultaram no assassinato de quatro pessoas.Battisti admitiu que pegou em armas e fez assaltos, mas negou que tenha atuado na execução de qualquer pessoa. "Eu nunca matei ninguém. Eu nunca fui militante militar em nenhuma organização. Nem na Frente Ampla nem no PAC (Proletários Armados para o Comunismo), onde fiquei dois anos, entre 1976 e 1978." Ele disse que saiu do PAC em 1978, depois da execução de Aldo Moro, ex-primeiro-ministro e presidente da Democracia Cristã, executado pelas Brigadas Vermelhas (outro grupo da esquerda armada na Itália). De acordo com Battisti, na época milhares de militantes abandonaram os movimentos de luta armada.Indagado se repetiria que não matou ninguém na frente de Alberto, filho do joalheiro Pierluigi Torregiani, que está na cadeira de rodas em consequência de um atentado do PAC, Battisti disse que não teve nenhum envolvimento na ação. "Ele sabe que eu não tenho nada a ver com isso. Porque eu já troquei muitas cartas com ele. Uma correspondência de amizade, de sinceridade e de respeito."Para ele, Alberto sofre pressão por parte do governo italiano porque, depois de anos de luta, conseguiu uma aposentadoria como vítima do terrorismo. O extremista acha que Alberto tem medo de que o governo tire a pensão dele.Lembrado de que a Itália era uma democracia e não uma ditadura, Battisti respondeu: "Havia uma democracia na qual a máfia estava no poder. Nós tivemos um primeiro-ministro que ficou décadas no poder e foi condenado por ser mafioso. Estou falando do Giulio Andreotti. Havia também os fascistas, que nunca foram afastados do poder. E hoje, infelizmente, voltaram", disse Battisti. Num trecho da entrevista ele qualifica o atual primeiro-ministro, Silvio Berlusconi, de "fascista". E atribui a ele a pressão para que o STF reveja a decisão de Tarso Genro e o mande para a Itália, a fim de cumprir pena.REDEBattisti contou ainda uma história de uma rede de proteção na França que envolvia até agentes do serviço secreto. Foram eles, segundo o extremista, que o orientaram a sair da França e vir para o Brasil. Disse que, além dos agentes secretos, havia também altos funcionários do governo francês nessa rede. Mas não quis revelar o nome de ninguém. Contou ainda que para chegar ao Brasil foi de carro da França para a Espanha e Portugal. De Lisboa, foi para a Ilha da Madeira. De lá, de barco, seguiu para as Canárias. Depois, pegou um avião para Cabo Verde e, em seguida, para Fortaleza.Na capital do Ceará acabou por aumentar as suspeitas de que havia informações cifradas no código de barras de seu passaporte. "Em todos os lugares, alguém sabia que eu estava chegando." Em Fortaleza, uma mulher que falava francês o tirou da fila de controle de passaporte e o levou para uma sala. Convidou-o para um cafezinho e, depois de minutos, lhe devolveu o documento. Battisti disse ainda que deseja morar no Rio, que considera uma cidade linda.

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