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Bateu o desespero

Bolsonaro não negociou a Pfizer no tempo certo e continua boicotando a Coronavac. E daí?

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2021 | 03h00

Encurralado por 430 mil mortes, a CPI da Covid, as condições da economia, o recorde de desemprego, o derretimento da sua popularidade e a revelação do “tratoraço” pelo Estadão, ufa!, o presidente Jair Bolsonaro demonstra descontrole e atira contra seu novo alvo prioritário: o relator da CPI, senador Renan Calheiros. Sem defesa, ataca. Mas atacar Renan não o salva nem resolve nada.

Ao entrar no plenário da CPI gritando contra Renan, o senador Flávio Bolsonaro se expôs e expôs o desespero da família presidencial. No dia seguinte, o pai foi a Alagoas e contrapôs o alagoano Renan a “pessoas do bem”: “Se Jesus teve um traidor, temos um vagabundo inquirindo pessoas de bem no nosso País”, disse o presidente, enquanto circulava com Fernando Collor, que sofreu impeachment, e Arthur Lira, presidente da Câmara enrolado no Supremo.

Há ainda muitas frentes a explorar, mas, se a CPI acabasse hoje, já teria mostrado o quanto Bolsonaro e o governo erraram no combate à pandemia. Sejam aliados, adversários ou independentes, os depoentes, um a um, dão provas e confirmam que ele não só fala como trabalha contra todas as formas de conter o vírus e salvar vidas. E em nome de uma crença, a imunidade de rebanho (deixa todo mundo pegar, quem tiver de morrer que morra).

O silêncio do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, foi estridente: só confirmou que ele não podia falar, porque teria de admitir que discorda do presidente em tudo. E as sucessivas mentiras do ex-secretário de Comunicação Fábio Wajngarten deixam evidente que a verdade iria contra ele, o governo e o presidente. Mentiu e quase foi preso, mas entregou o principal: uma prova.

Trata-se da carta, de 12/09/2020, em que a Pfizer internacional ofertava vacinas ao presidente, ao vice e a ministros, advertindo que “a celeridade é (era) crucial”, devido à “alta demanda de outros países e ao número limitado de doses para 2020”. O governo deixou para lá. E, além disso, Wajngarten deixou no ar: o ex-ministro Eduardo Pazuello se referia também a ele quando falou em “pixulé”?

Ontem, o representante da Pfizer na América Latina, Carlos Murillo, negou qualquer pedido de propina (ou pixulé), mas confirmou nove tentativas frustradas de negociar vacinas, a partir de agosto de 2020. Também contou que Wajngarten, o vereador Carlos Bolsonaro e o assessor internacional, Filipe Martins (o do sinal de supremacistas brancos no Senado) participaram de pelo menos uma reunião com a empresa. Isso reforça a existência de um “gabinete das sombras”, ou “das trevas”, na pandemia.

Está cada dia mais claro o papel de Bolsonaro para a situação do País. Já seria inadmissível ele trabalhar contra uma vacina, mas ele trabalha contra duas. Tanto desdenhou da Pfizer quanto boicotou, e ainda boicota, a Coronavac. Uma poderia ter chegado a partir de dezembro e só pinga agora. A outra está sendo suspensa, depois de Bolsonaro atacar a China mais uma vez.

Sem explicar as vacinas, Bolsonaro continua sem usar máscara e promovendo aglomerações e cloroquina, sua obsessão. Também não explica o “tratoraço”, os R$3 bilhões do “orçamento secreto” só para os íntimos, o desmatamento da Amazônia e todo o resto que o Brasil real está rouco de gritar.

O novo Datafolha é um marco: Bolsonaro atingiu seu pior resultado desde o início do governo (24% de aprovação e 45% de reprovação) e perde de 23% a 41% para o ex-presidente Lula no primeiro turno e de 32% a 55% no segundo. Se já está desesperado, imagina como ficará. Bater em Renan Calheiros não vai resolver. Nem tentar derrubar a urna eletrônica. Talvez, a saída seria ele cair na real e passar a governar. Mas pode ser tarde demais.

*COMENTARISTA DA RÁDIO ELDORADO, DA RÁDIO JORNAL (PE) E DO TELEJORNAL GLOBONEWS EM PAUTA

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