Bate-boca expõe impasse na CPI das ONGs

Instalada há seis meses, a CPI das ONGs, encarregada de investigar desvios no repasse de dinheiro público para organizações não-governamentais (ONGs), ainda não deu sinais de que irá sobreviver ao boicote do governo para brecar as apurações. O impasse ficou patente, hoje, pelo bate-boca entre senadores da comissão e pela decisão do senador Sibá Machado (PT-AC) de convocar depoentes notadamente com a intenção de comprometer entidades e pessoas que atuaram no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso. A iniciativa de Sibá não deu o resultado que ele esperava. Tanto a ex-chefe de gabinete do Ibama, Marisa Rothenberg, como o diretor da Agência de Desenvolvimento Sustentável do Brasil Central (Adebrac), Jair Heitor Duarte, conseguiram rebater as supostas irregularidades apontadas por Sibá. A outra convocada do petista, a representante da ONG Amanaka''a Amazon Network, Maria José Weiss, não foi encontrada pela comissão.O senador Heráclito Fortes (DEM-PI) chamou de "palhaçada" a tentativa da base do governo de impedir a investigação de entidades suspeitas de terem cometido irregularidades. "Que vergonha, vamos parar com isso, o senhor (senador Sibá) sabe que a sociedade brasileira está a nos assistir", alegou. "O que está se tentando fazer aqui é um crime, o senhor não quer é que sejam ouvidos os deputados do PT", acrescentou Heráclito, referindo-se à reclamação de Sibá, no início da sessão, pelo vazamento na imprensa do nome de deputados petistas ligados a ONGs. Aos gritos, Sibá reagiu. Disse que não aceitava "ordem de ninguém, como se fosse meu pai". "Não se trata de gritar comigo, que eu não sou moleque, meus requerimentos tratam de entidades que, segundo o TCU, apresentaram dificuldades na prestação de contas". E continuou, aos berros: "Todo mundo está nesta Casa porque tem alguma qualidade para estar aqui. Não aceito recado, não sou menino, não sou criança, sei das minhas responsabilidades".Heráclito chamou de "melodrama" a reação de Sibá Machado. "Eu não quis ser o seu pai, até porque a idade não permite e em momento nenhum vou mandar recado", afirmou, provocando Sibá para que ele falasse mais alto: "Grite mais alto, o senhor está falando baixo, é o desespero da base do governo". Os apelos do presidente da CPI, senador Raimundo Colombo (DEM-SC) para que os dois colegas se calassem não deu certo. A certa altura, quando ouviu Sibá afirmar que "quem preside a comissão está sob suspeita", foi Colombo quem se exaltou. "O senhor tenha respeito comigo", afirmou. Aliada de Sibá Machado, a senadora Fátima Cleide (PT-RO) pôs mais lenha na fogueira, ao pedir que Heráclito não mais se referisse à base do governo com o termo "palhaçada". "Porque eu não sou palhaça, não estou aqui para servir de palhaça, estou aqui cumprindo o meu papel da mesma forma que o senhor", afirmou. Heráclito Fortes respondeu, dizendo que "o poder da censura tomou conta da CPI". "A base do governo quer me fiscalizar, agora que é palhaçada o que vocês estão fazendo, é", alegou. Ele explicou que não queria agredir a colega. "O que falei é que estavam fazendo uma palhaçada. Se a carapuça lhe caiu, me perdoa."

ROSA COSTA, Agencia Estado

11 de março de 2008 | 22h10

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