Batalha pela CPMF apressa saída de Mares Guia

Denunciado por envolvimento no mensalão mineiro, ministro pede demissão para evitar desgastes ao Planalto

23 de novembro de 2007 | 08h18

Na luta para aprovar a qualquer custo a prorrogação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) até 2011, o governo Lula vê mais um ministro se afastar com rapidez incomum. Apenas minutos depois de ser denunciado pelo procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, por envolvimento com o mensalão mineiro, o ministro das Relações Institucionais, Walfrido Mares Guia, pediu demissão, na quinta-feira, tentando assim evitar desgastes ao Planalto. Em seu lugar, assume José Múcio Monteiro (PTB-PE), que já deixou claro que a tarefa óbvia e imediata é uma só: passar a CPMF.  Veja Também:  Entenda o mensalão mineiro  Veja quem são os 15 denunciados pelo mensalão mineiro  Confira a íntegra da denúncia  Denúncia ao STF derruba ministro das Relações InstitucionaisDenúncia contra Azeredo contamina congresso do PSDBCPMF fica prejudicada com saída de Mares Guia, diz especialista  Na quarta-feira, ao conversar com Mares Guia sobre a possibilidade de sua saída, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixou-o à vontade para agir como melhor entendesse e disse que "pensasse direitinho" antes de decidir apresentar seu pedido de afastamento. Mas, na verdade, o presidente sentiu-se aliviado com sua decisão de sair. Em conversa com auxiliares diretos, o presidente elogiou Mares Guia e comparou sua situação com a de Silas Rondeau, que deixou o Ministério de Minas e Energia após ser bombardeado com o que o Planalto qualifica de "frágil" denúncia vazada pela Polícia Federal. Múcio reiterou que, por determinação de Lula, dará continuidade ao trabalho de seu antecessor, principalmente em torno das negociações para a prorrogação da CPMF. "Todos nós vamos nos debruçar como estávamos debruçados." O problema, porém, começa no seu próprio partido - a bancada de seis senadores do PTB rompeu na quinta-feira com o bloco governista, em decisão unânime, e deve adicionar dificuldades às negociações da CPMF. Antes, por pertencer ao bloco, o PTB ficava subordinado às decisões da líder do PT, Ideli Salvatti (SC). Foi por causa de uma atitude dela - o afastamento do senador Mozarildo Cavalcanti (RR) da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), depois que ele anunciou voto contrário à prorrogação da CPMF - que se deu o rompimento. O PTB seguirá na base aliada, mas com mais liberdade nas votações. Denúncia Mares Guia e outros 15 acusados, entre eles o senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG) e o empresário Marcos Valério, foram denunciados ao Supremo Tribunal Federal (STF) pelo o que o procurador classificou como "origem e laboratório" do mensalão desmantelado no governo Lula em 2005. O esquema teria sido montado para a campanha de Azeredo à reeleição ao governo de Minas em 1998. Azeredo e Mares Guia - principais artífices do esquema, segundo o procurador - foram denunciados por peculato e lavagem de dinheiro. Outras 13 pessoas foram denunciadas pelos mesmos crimes. O ex-ministro e o senador, com a ajuda do então coordenador financeiro da campanha, Cláudio Mourão, e do candidato a vice-governador na chapa, Clésio Andrade, montaram, conforme a denuncia, uma engrenagem de desvio de pelo menos R$ 3,5 milhões de recursos públicos e lavagem de dinheiro para o caixa eleitoral. Braço direito de Azeredo na época, Mares Guia é citado 50 vezes nas 80 páginas da denúncia apresentada pelo procurador e descrito como o "organizador da campanha", inclusive no aspecto financeiro.  "Walfrido Mares Guia também era um dos responsáveis por indicar as pessoas que receberiam os recursos da campanha, fruto dos crimes descritos", escreveu o procurador. Mares Guia foi apontado ainda como responsável pela operação para calar Cláudio Mourão, que ameaçava revelar os crimes se dívidas da campanha contraídas em seu nome no valor de R$ 1,5 milhão não fossem quitadas. Azeredo, por ser então o candidato, é citado como o principal beneficiário e articulador do esquema. "Embora negue ter participado dos fatos, as provas colhidas, como se verá ao longo da denúncia, desmentem sua versão defensiva."  Além do ex-subsecretário de Comunicação Eduardo Pereira Guedes Neto, outro nome envolvido com o mensalão mineiro é ligado ao atual governador de Minas, Aécio Neves. Danilo de Castro, ex-deputado, é secretário de Governo. Castro integra uma segunda etapa das investigações que, a pedido do procurador-geral, deverá ser conduzida pelo Ministério Público de Minas. Ele é apontado como avalista de um dos empréstimos firmados pela SMPB no Banco Rural em 25 de novembro de 2004, ou seja, já na gestão de Aécio.  Marcos Valério Valério é novamente apontado como partícipe e responsável por dar ao dinheiro aspecto de legalidade. "Marcos Valério optou por desenvolver suas atividades delituosas na área publicitária pela facilidade apresentada em tal setor para fraudar a execução de contratos e desviar recursos públicos", afirma o procurador. O mensalão mineiro funcionava nos mesmos moldes do que posteriormente foi montado no governo Lula: recursos públicos eram desviados, dinheiro de empresas privadas com contratos no governo era captado de forma ilícita e lavado por empresas de Valério com o auxílio dos empréstimos fictícios do Banco Rural.  Segundo a denúncia, pelo menos R$ 3,5 milhões foram retirados "criminosamente" de três estatais: Companhia de Saneamento de Minas (Copasa), Companhia Mineradora de Minas (Comig) e Banco do Estado de Minas (Bemge). Ao contrário do mensalão petista, o esquema mineiro tem "inúmeras provas", afirmou o procurador.  Rogério Tolentino, sócio de Marcos Valério, também deverá ser investigado. A Polícia Federal apurou que ele recebeu dinheiro de integrantes do esquema quando era integrante do Tribunal Regional Eleitoral de Minas e teria dado decisões favoráveis aos interesses eleitorais de Azeredo. Segundo o procurador, estão prescritos eventuais crimes eleitorais para os políticos que integravam a lista com supostas doações de campanha - entre eles o governador Aécio Neves, na época candidato à Câmara dos Deputados.  Defesa Em carta endereçada a Lula, Mares Guia diz que "a acusação é injusta e improcedente" e isso "vai ficar provado no curso do processo". Acrescenta que sai "para se defender" e "não causar embaraços à sua gestão". Na noite de quarta-feira, assim que foi informado pelos seus advogados de que ia ser denunciado, Mares Guia foi ao gabinete de Lula "espumando". Ele afirmou ao presidente que estava sendo denunciado por "peculato" pelo Ministério Público porque bancos estatais teriam patrocinado um enduro em Minas, de que ele nem sequer tomou conhecimento. Fernando Souza afirmou que não se sente constrangido por ter involuntariamente obrigado Mares Guia a deixar o cargo. "Não é problema meu. Faço a denúncia sobre fatos que ocorreram no passado, é dever meu, e as conseqüências são as da lei, no interesse de cada um", observou.  (Com Felipe Recondo, João Domingos, Tânia Monteiro, Leonencio Nossa e Sonia Filgueiras)

Tudo o que sabemos sobre:
CPMFmensalão mineiroMares Guia

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.