Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Bastidores: Eleições do Congresso na pandemia têm aglomeração, discursos sem máscaras e 'covidário'

Disputas internas levaram de volta à Câmara e ao Senado um contingente de parlamentares e servidores não visto há quase um ano, desde que os trabalhos legislativos passaram a ser feitos remotamente

Vinícius Valfré, O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2021 | 08h21

BRASÍLIA - Quando o painel da Câmara confirmou o triunfo de Arthur Lira (Progressistas-AL) na disputa pela presidência da Casa, na noite desta segunda-feira, 1.º, deputados aglomerados em um plenário lotado se abraçaram e trocaram cumprimentos. A comemoração efusiva foi apenas uma das muitas aglomerações que marcaram as eleições no Congresso em plena pandemia da covid-19.

As disputas internas levaram de volta à Câmara e ao Senado um contingente de parlamentares e servidores não visto há quase um ano, desde que os trabalhos legislativos passaram a ser feitos remotamente por causa do novo coronavírus. As votações presenciais tiraram parlamentares sexagenários de casa, mas que tiveram que voltar ontem para poder votar.

A Câmara até tomou alguns cuidados, como restringir a circulação em alguns setores e espalhar urnas por diversos locais do prédio principal. No entanto, as disputas de bastidores pelo controle das mesas diretoras e o quórum das sessões decisivas jogaram por terra o exercício do distanciamento social em um dia em que o sistema de ar refrigerado do Congresso não deu conta do forte calor de Brasília.

No Senado, os 81 parlamentares tiveram a opção de votar sem desembarcar dos carros, ao estilo drive-thru. A maioria, porém, se aglomerou no plenário, especialmente ao assistir aos discursos dos candidatos. Omar Aziz (PSD-AM) chegou a pedir para que a chamada não seguisse a ordem dos Estados, para que o processo fosse mais ágil.

“Era melhor quem está em plenário já votar para que a gente vá esvaziando, presidente. E quem está lá fora está mais seguro e aguardaria um pouco mais”, apelou. Davi Alcolumbre (DEM-AP) destacou que eram apenas 16 votos a serem depositados por senadores que estavam a bordo de seus carros. A eleição terminou com a vitória do governista Rodrigo Pacheco (DEM-MG).

Na Câmara, os riscos eram ainda maiores. Todos os candidatos tiraram as máscaras para falar da tribuna, enquanto eram acompanhados pela maior parte dos 513 deputados que se aglomeravam no corredor central do plenário. 

Aos 86 anos, portanto do grupo de risco da covid-19, a deputada Luiza Erundina (PSOL-SP), também candidata à presidência, foi a única a discursar de uma sala reservada da Câmara, sozinha. O pronunciamento foi transmitido pela TV Câmara para o plenário principal.

Ela lamentou o fato de os parlamentares serem obrigados a comparecer presencialmente. “Isso demonstra que o caráter genocida de Bolsonaro também está presente na Câmara dos Deputados”, afirmou.

Na votação, o esquema especial também apresentou falhas. Houve fila para acesso às cabines das urnas, batizadas de “cabine da covid”. Enquanto os deputados votavam, Rodrigo Maia (DEM-RJ), de saída da presidência da Câmara, recebia abraços e cumprimentos dos colegas.

O desprezo à pandemia ficou evidente logo nas primeiras horas da tarde, quando o Congresso ainda se preparava para as votações realizadas à noite. Um servidor apelidou de "covidário" a aglomeração criada em frente à sala de reuniões onde líderes discutiram os detalhes da votação. De tempos em tempos, parlamentares deixavam o local perfilados e esbravejando. 

Já Maia deixou a sala acompanhado por um grupo de ao menos 40 pessoas, entre seguranças, assessores e jornalistas. "Se eu não pegar covid agora, não pego mais", afirmou um assessor, que não quis se identificar.

 

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