Ueslei Marcelino/Reuters
Ueslei Marcelino/Reuters

Bastidores: Wajngarten vira alvo de críticas no Planalto

Integrantes do alto escalão do Executivo e pessoas próximas a Bolsonaro avaliam que chefe da Secom, infectado com o novo coronavírus, não foi transparente sobre a real dimensão do seu estado de saúde

Jussara Soares, O Estado de S.Paulo

12 de março de 2020 | 22h52

BRASÍLIA – Infectado com o novo coronavírus, o chefe da Secretaria Especial de Comunicação (Secom), Fabio Wajngarten, é alvo de críticas dentro do governo pelo modo como conduziu a situação. Na avaliação de integrantes do alto escalão do Executivo e pessoas próximas ao presidente Jair Bolsonaro, Wajngarten não foi transparente sobre a real dimensão do seu estado de saúde, mesmo após o avanço da pandemia e o aumento de casos no Brasil.

Nesta quinta-feira, 12, como antecipou Estado, o teste para o coronavírus de Wajngarten deu positivo. O resultado colocou Bolsonaro, ministros e outros integrantes da comitiva que viajaram aos Estados Unidos em monitoramento. O presidente e a primeira-dama Michelle Bolsonaro já fizeram exames e aguardam o resultado. A divulgação é esperada para esta sexta-feira, dia 13. Ambos, segundo o Estado apurou, não apresentam sintomas. 

Wajngarten e a comitiva do presidente embarcaram de volta ao Brasil na terça-feira, 10, à tarde, por volta das 15h (horário de Brasília), após uma visita a fábrica da Embraer em Jacksonville, na Flórida.  Eles chegaram ao Brasil na madrugada de quarta. Segundo relatos feitos ao Estado, antes de viajar o secretário estava bem, mas se sentiu mal ainda durante o voo.

Na quarta-feira, 11, após o jornal Folha de S.Paulo revelar que Wanjgarten havia passado por exames no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo,  o secretário de Comunicação foi ao Twitter dizer que “estava bem”. Na publicação, atacou a imprensa, mas não respondeu se havia realizados os testes para coronavírus.

Apesar dos questionamentos, a Secom informou apenas que não comentaria o assunto, mas também não negou a suspeita. Um assessor disse que o posicionamento era o que Wajngarten havia publicado em seu  perfil pessoal.

Uma pessoa próxima de Wajngarten relatou que ele estava contrariado e se recusou a atender os telefonemas de quem queria saber como ele estava. Já um integrante do Planalto contou que o secretário pode ter minimizado a situação ao relatar os primeiros sintomas. Outro assessor presidencial criticou o fato de Wajngarten não ter revelado ao público que havia feito exames para o coronavírus.

Entre o final da tarde e o início da noite de quarta-feira, porém, integrantes da comitiva que esteve nos Estados Unidos passaram a receber ligações do gabinete da Presidência para que comunicassem quaisquer sintomas. Como o Estado revelou, eles foram orientados a procurarem um hospital militar para realizar exames. Jornalistas que acompanharam a viagem presidencial não foram informados. Os repórteres lidavam diretamente com o secretário de Comunicação durante os quatro dias de agenda na Flórida.

Ao longo de toda a quarta-feira, o presidente Bolsonaro, que esteve boa parte do tempo na viagem ao lado de Wajngarten, fez várias reuniões ao longo do dia em seu gabinete. Ao chegar ao Palácio do Alvorada às 17h20, como faz rotineiramente, desceu do carro para cumprimentar cerca de dez pessoas que o aguardavam. Bolsonaro também pegou no colo uma menina de 8 anos que estava fazendo aniversário e queria conhecê-lo como presente.

À noite, no Palácio do Alvorada, o presidente recebeu os ministros Paulo Guedes (Economia) e Jorge Oliveira (Secretaria-Geral da Presidência), além do líder do governo Fernando Bezerra (MDB-PE) para discutir, entre outras, questões econômicas pelo avanço do coronavírus. O grupo deixou a residência oficial e seguiu para a Câmara de Deputados, onde foi realizada uma reunião com líderes partidários  sobre a doença. Também estavam presentes os ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e o da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos.

O alerta no alto escalão do governo disparou logo nas primeiras horas da manhã desta quinta-feira com a confirmação de que o secretário estava infectado. Bolsonaro fez o teste para o Covid-19 e foi orientado a permanecer em casa até o resultado dos exames.  O presidente completará 65 anos no próximo dia 21 e entrará na faixa de risco da doença.

A Secom, chefiada por Wajngarten, só se pronunciou à 12h43 desta quinta-feira confirmado que os testes do coronavírus do secretário foram positivos.  Segundo o comunicado, o Serviço Médico da Presidência da República está adotando todas as medidas preventivas para preservar a saúde de Bolsonaro e toda a comitiva que esteve nos Estados Unidos, além dos servidores do Planalto.

Todos os  integrantes da comitiva  que viajaram para os Estados Unidos também estão sendo chamados para fazer o exame. Participaram da viagem os ministros Ernesto Araújo (Relações Exteriores), Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional),  Fernando Azevedo e Silva (Defesa) e Bento Albuquerque (Minas e Energia). Também viajaram os senadores Nelsinho Trad (PTB-MS) e Jorginho Mello (PL-SC); os deputados Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e Daniel Freitas (PSL-SC), o assessor especial Filipe Martins, o presidente da Embratur, Gilson Machado, o secretário especial de Pesca, Jorge Seif Jr, entre outros.

Durante a viagem aos Estados Unidos, o presidente Bolsonaro chegou a declarar o coronavírus estava “superdimensionado”"Tem a questão do coronavírus também que no meu entender está superdimensionado o poder destruidor desse vírus, então talvez esteja sendo potencializado até por questão econômica”, disse o presidente na ocasião.

Na quarta-feira, ao chegar no Alvorada, Bolsonaro disse que outras gripes tinham mais risco de morte que o coronavírus. "Vou ligar para o Mandetta agora a pouco. Eu acho... Eu não sou médico, eu não sou infectologista... Tá? O que eu ouvi até o momento, outras gripes mataram mais do que essa" , respondeu a repórteres.

O ministro da Saúde, no entanto, tem alertado para o risco de a epidemia levar o Sistema Único de Saúde (SUS) ao esgotamento.  Em entrevista ao Estado, ele alertou que o Brasil deve viver “umas 20 semanas duras” após o começo de transmissão comunitária do novo coronavírus. / COLABOROU EMILY BEHNKE 

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