Bastidores: Uma ministra isolada e em busca de apoio na classe cultural

Ana de Hollanda iniciou uma operação 'abafa' para apagar incêndios no Ministério da Cultura e conter o clamor por sua substituição

Jotabê Medeiros / SÃO PAULO, O Estado de S.Paulo

07 de maio de 2011 | 16h00

A ministra Ana de Hollanda iniciou uma operação "abafa" para apagar incêndios no Ministério da Cultura e conter o clamor por sua substituição. Em dois dias, houve um pedido de abertura de CPI por conta das denúncias de irregularidades no Escritório Central de Arrecadação de Direitos (Ecad), deputados petistas manifestaram desagrado com a condução da pasta e houve um aumento de quase mil assinaturas num manifesto contra a política cultural do governo.

 

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A reação de Ana começou com uma reunião na quinta-feira com o deputado Alessandro Molon (PT-RJ), um dos descontentes com sua gestão, além do envio dos colaboradores mais próximos para interlocução com movimentos culturais e com o governo. Molon havia feito um pedido para que a ministra seja ouvida na Comissão de Educação e Cultura da Câmara a respeito de suas relações com o Ecad.

 

Na mesma quinta, o secretário de Políticas Culturais do ministério, Sergio Mamberti, esteve em São Paulo para uma reunião com ativistas. Tudo culminará com um encontro de artistas de São Paulo, na terça-feira, na sede da Funarte.

A comunidade artística paulistana está cética em relação ao encontro. O MinC enviou convite a "artistas, gestores, produtores, artesãos, sindicatos, cooperativas, associações, educadores e interessados em geral" para falar com a ministra na terça-feira, às 14h30, na Assembleia Legislativa.

Trata-se de uma mudança de estratégia. Ana de Hollanda, até então, despachava primordialmente do Rio e os encontros públicos anteriores tinham sido com funcionários do MinC.

Articuladores da área teatral de São Paulo não parecem muito receptivos. Os recuos do ministério em projetos amplamente discutidos em anos anteriores, como o ProCultura, e as indecisões em torno de ações como os Prêmios Teatro Brasileiro e Mambembe de Dança estão no cerne da indisposição. Mas há também as ações consideradas "personalistas" do atual presidente da Funarte, Antonio Grassi, que grupos de São Paulo consideram fazer política de "panelinha" na fundação.

A manutenção de Ana no governo, segundo o Estado apurou, só tem um defensor extremado: o ministro Antonio Palocci. Ele esteve com Grassi na semana passada para tomar pé da situação. Enquanto busca evitar a troca, o governo vê o mundo cultural debatendo um nome para suceder a ministra. "Defendo que se busque um nome que não leve a mais atritos ao ministério", avaliou o ator José de Abreu, em entrevista à Rede Brasil. Ele avalia positivamente o governo Dilma, mas não poupa o MinC. "Essa troca precisaria ser feita da maneira menos traumática possível."

Para a maior parte dos ativistas da cultura, a situação de Ana é incontornável. A ambiguidade no tratamento da questão do direito autoral (e-mails divulgados pelo jornal O Globo sugerem que dirigentes do Ecad parecem manter canal direto com a ministra), que levou ao desmonte da área de Direitos Intelectuais do MinC; a intransigência quando ela trata da questão das novas tecnologias; e até atos de desautorização de posições defendidas por seus auxiliares de confiança, como o secretário executivo Vitor Ortiz, mostram uma ministra isolada.

O movimento Mobiliza Brasil, que já conseguiu cerca de 2,5 mil adesões em sua cruzada anti-Ana de Hollanda, também pede a demissão de seus auxiliares mais próximos, Vitor Ortiz e Antônio Grassi.

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