BASTIDORES: Para o Planalto, denúncia amplia desgaste do presidente

Auxiliares da Presidência criticam 'fatiamento' de investigação formal e falam em 'perseguição' de Janot

Carla Araújo e Tânia Monteiro, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2017 | 21h38

BRASÍLIA - A denúncia do procurador-geral da república, Rodrigo Janot, oferecida nesta noite de segunda-feira, 26, contra o presidente Michel Temer ao Supremo Tribunal Federal (STF) era mais do que esperada pelo Palácio do Planalto. Apesar disso, o fato de Janot ter optado pelo fatiamento e encaminhado o relatório ao STF nesta segunda, quando ainda tinha o prazo até terça-feira, 27, deixou os interlocutores de Temer incomodados.  “Nem (Nicolau) Maquiavel (pensador italiano, 1469-1527) teria sido tão maquiavélico”, resumiu um interlocutor direto do presidente, apontando um sentimento que tomou conta do Planalto. Ainda que mirem na artilharia para criticar o procurador, o Planalto reconhece que a concretização da denúncia traz preocupação para a governabilidade e amplia o desgaste do presidente, que fica ainda mais exposto. 

Janot foi classificado por um auxiliar como um “serial killer” e aliados admitiram que ser o primeiro presidente denunciado por corrupção no cargo, incomoda muito Temer, que pretendia passar para a história como o presidente das reformas. Para um interlocutor, as críticas a Janot têm procedência. Para esse auxiliar, o fatiamento é um "equívoco" por, segundo ele, "enfraquecer" a denúncia de Janot, a quem imputa "perseguição" contra Temer. Outra fonte ligada ao presidente também vê como "equívoco" o fatiamento da denúncia.

Assim que saiu a denúncia, Temer estava reunido com a ministra-chefe da AGU, Grace Mendonça, que tem dito que não interfere na defesa do presidente. Auxiliares e o porta-voz Alexandre Parola foram ao encontro do presidente no gabinete para ver se a estratégia de comunicação seria alterada. O Planalto pretende deixar o assunto apenas para os advogados. Oficialmente, a Secretaria de Imprensa respondeu que a Presidência não vai se pronunciar e que a orientação é procurar o criminalista Antônio Cláudio Mariz.

No sábado, 24, depois de retornar de uma viagem de cinco dias ao exterior, Temer foi a São Paulo apenas para conversar com Mariz. No domingo, 25, chamou o advogado Gustavo Guedes para participar de uma reunião com ministros e líderes no Palácio do Alvorada. Segundo fontes do Planalto, sob a tutela de Mariz, Guedes será o responsável por tentar descontruir os argumentos de Janot.

Segundo auxiliares de Temer, Guedes vai tentar comprovar que os elementos de Janot “são inconsistentes”. Interlocutores do Planalto dizem que Janot fez uma leitura do que o delator Joesley Batista declarou, mas a gravação com o presidente não comprovaria nenhuma prática de crime por parte de Temer. Além disso, Temer também não teria agido para atender às demandas do empresário, como uma nomeação ao Cade, por exemplo.

Até 21h20, o presidente se encontrava no Planalto e, durante as próximas horas, vai conversar com seus auxiliares, ministros e lideres para traçar a melhor estratégia na "guerra" contra a PGR. 

Pressa. Enquanto prepara a sua defesa jurídica, Temer também trabalha para assegurar os 172 votos necessários para barrar a denúncia. No Planalto, a maior parte mantém um discurso otimista de que se o governo continuar resistente e trabalhando mesmo com as adversidades é possível um placar ainda mais largo. Apesar disso, auxiliares salientam que há sempre o temor do voto aberto. O governo já considera inclusive iniciar as mobilizações para eventualmente suspender o recesso, que começa no dia 18 de julho, para tentar liquidar as denúncias.  

Embora o Planalto insista que tem os 172 votos, na prática, o governo sabe que, só agora, com a apresentação da denúncia, que parece ser a primeira de uma série de três ou quatro, é que se terá noção exata do tamanho do estrago e com que,  de fato, poderá contar. O que mais conta contra Temer é o fato de a votação ser aberta.

Nesta segunda, em uma tentativa de agenda positiva, Temer deu um recado durante cerimônia no Palácio do Planalto e afirmou que seu governo está "na rota da superação e nada o destruirá". "O Brasil esta nos trilhos, na rota da superação. Ninguém duvide, nossa agenda de modernização do Brasil é a mais ambiciosa de muito tempo. Tem sido implementada com disciplina, tenacidade, com sentido de missão. Não há plano B. Há de seguir adiante. Nada nos destruirá. Nem a mim, nem aos nossos ministros", afirmou.

Conforme mostrou o Estadão, líderes da base aliada afirmaram não ser possível assegurar a rejeição da denúncia. Mesmo com uma coalizão estimada em cerca de 400 deputados, parlamentares ponderam que o teor da acusação formal e os seus desdobramentos podem influenciar o posicionamento dos congressistas, aumentando o risco de Temer sofrer um revés.

O STF vai encaminhar para a Câmara a denúncia, onde tramita na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) antes de seguir para o plenário. São necessários os votos de 172 dos 513 deputados para derrubá-la. Se aprovada por no mínimo 2/3 da Casa, retorna ao Supremo. Caso a Corte aceite a acusação, o presidente se afasta do cargo obrigatoriamente por 180 dias.

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