Ueslei Marcelino|Reuters
Ueslei Marcelino|Reuters

Bastidores: No último dia, isolamento e barreira policial

O isolamento, uma constante no mandato de cinco anos e quatro meses de Dilma, foi uma marca dos momentos vividos por ela no Alvorada antes da decisão do Senado

Tânia Monteiro e Leonencio Nossa, O Estado de S.Paulo

13 de maio de 2016 | 05h00

Dilma Rousseff viveu na manhã de ontem momentos tensos no trajeto entre os Palácios da Alvorada e do Planalto, onde assinaria a notificação de seu afastamento da presidência. Às 9h40, ela deixou a residência oficial do Alvorada acompanhada de seguranças num comboio de cinco carros. Na altura de um viaduto que dava acesso ao Eixo Monumental e à Praça dos Três Poderes – área do Planalto fechada para o trânsito desde anteontem –, a comitiva foi parada numa barreira policial. Guardas mandaram o grupo seguir por outra via que levaria aos fundos do palácio.

“Aqui ninguém passa”, disse em tom elevado um dos guardas da Polícia Militar do Distrito Federal na barreira, diante dos motoristas do comboio presidencial. Mesmo informado de que a presidente estava num dos carros, o PM não recuou. Houve incredulidade e bate-boca. Um motorista relatou à reportagem que percebeu espanto, irritação e depois tristeza por parte da presidente. Sandra Brandão, assessora especial de Dilma, que estava no Planalto, foi acionada por um dos homens da comitiva. Ela telefonou para a segurança do governo: “Isso é uma ordem, a presidente vai passar, sim”.

Dentro do carro, parada na barreira, Dilma demonstrou, agora, nervosismo. O comboio, então, recuou dando voltas pela Vila Planalto, um bairro entre o Alvorada e o Planalto, até que recebesse autorização. Após, dez minutos, os motoristas do comboio foram avisados de que estavam “autorizados” a passar. Dilma ainda estava no exercício da presidência. Os motoristas aceleraram e entraram a pelo menos 140 km/h pelo Eixo Monumental. Dilma chegou ao palácio às 10h20, atrasada para receber a notificação.

O isolamento, uma constante no mandato de cinco anos e quatro meses de Dilma, foi uma marca dos momentos vividos por ela no Alvorada antes da decisão do Senado, que aprovou no início da manhã a admissibilidade do processo de impeachment. Quando o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), abriu a votação, por volta de 6h30 e logo depois apresentou o resultado, a área ao redor da residência oficial da Presidência estava em silêncio e sem movimentação.

Dentro do Alvorada, Dilma só contava com a presença da mãe, dona Dilma Jane, de 92 anos, que enfrenta problemas de saúde. Paula, a filha única de Dilma e os netos da presidente, Gabriel, de seis anos, e Guilherme, de quatro meses, ficaram em Porto Alegre. Alguns minutos depois do anúncio do afastamento da presidente, começou um barulho de fogos de artifício na região do Lago Sul e Lago Norte, bairros de classe alta da capital, nas margens do Lago Paranoá. A segurança tinha sido informada desde a véspera que Dilma não iria fazer a habitual pedalada.

Desde as 5h30 até a votação do impeachment, nenhum carro de autoridade entrou ou saiu do Alvorada. Depois, por volta das 9h, a presidente recebeu a visita de Nilma Lino Gomes, ministra de Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos. Naquele momento, no Palácio do Jaburu, residência oficial do vice-presidente e agora presidente interino Michel Temer, a um quilômetro do Alvorada, também não havia movimentação. Temer deu ordens para que a segurança só liberasse a entrada de parlamentares às 9h.

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