Bastidores: Governo não descarta medidas mais rigorosas para impedir avanço do novo coronavírus

Com a rápida evolução dos fatos, a avaliação de alguns segmentos do governo é que, em dois ou três dias, o fechamento total acabará sendo anunciado

Tânia Monteiro, O Estado de S.Paulo

19 de março de 2020 | 15h54

BRASÍLIA — Ao anunciar o fechamento parcial das fronteiras brasileiras com oito países, o presidente Jair Bolsonaro age, mais uma vez, em resposta às pressões contra a possibilidade de “importação” de casos do novo coronavírus dos países vizinhos. Na última terça-feira, 17, Bolsonaro já havia fechado a fronteira com a Venezuela, em um “gesto político”, atendendo a diversos apelos. A decisão de impedir o trânsito de estrangeiros para o Brasil reforça as ações de vizinhos, como Paraguai e Argentina, que já tinham fechado, por 15 dias, as fronteiras terrestres. O Palácio do Planalto não descarta adotar medidas ainda mais rigorosas para combater o avanço da doença.

Com a rápida evolução dos fatos, a avaliação de alguns segmentos do governo é que em dois ou três dias, o fechamento total acabará sendo anunciado, embora se saiba de, na prática, em muitas cidades fronteiriças, seja quase impossível executar tal medida. 

Este fechamento parcial de fronteiras é considerado, neste momento, apenas o primeiro passo de uma realidade que se imporá daqui a pouco, de isolamento obrigatório dos países. O Planalto está preocupado, por exemplo, com a possibilidade de, em alguns casos, haver interrupção da linha de suprimento nacional, o que poderia prejudicar o abastecimento de mercados. 

Por isso mesmo, o ministro da Infraestrutura, Tarcísio Freitas, se reúne nesta tarde no Ministério da Defesa com a equipe do Estado Maior Conjunto das Forças Armadas, para discutir não só a questão de logística, como a possibilidade de emprego de pessoal militar para alguma necessidade emergencial. Aindo não há definição do que será feito. O governo lembra, por exemplo, que uma das avaliações que está sendo feita é em relação aos portos, por onde entra a maioria dos insumos para o País.

O fechamento anunciado hoje foi uma decisão não só política, mas também prática, para evitar a transmissão da doença e o trânsito dela. O governo avalia que não é possível isolar totalmente o território brasileiro mas, a medida tem o objetivo de reduzir a circulação do vírus. Daí os constantes apelos para que as pessoas se mantenham em casa. As autoridades salientam que as medidas poderão ser modificadas, a qualquer momento, por conta da evolução da situação.

A exclusão do Uruguai neste momento dos efeitos da medida se deve a questões logísticas locais e de comércio. No caso da cidade de Livramento que fica ao lado de Rivera, no Uruguai, por exemplo, há quase que uma impossibilidade física de isolamento entre os dois países já que, uma mesma rua liga os dois países. O Estado apurou que autoridades uruguaias e brasileiras estão em contato para chegar a um acordo.

O Brasil tem 15 mil quilômetros de fronteira terrestre com 10 países da América do Sul. Os problemas de fronteira são inúmeros e o fechamento de fronteiras é um assunto sempre delicado e considerado, em muitos casos, quase impossível de ser colocado em prática. Em várias cidades, como em Tabatinga, no Amazonas, e Letícia, na Colômbia, uma rua liga os dois países. A situação se repete entre Ponta Porã, Mato Grosso do Sul e Pedro Juan Caballero, no Paraguai, além de muitas outras.

Mas a situação em Pacaraima, em Roraima, é simbólica. O estado conta com a Operação Acolhida, comandada pelo Exército, para atender os venezuelanos que entram no Brasil. O fechamento da fronteira impediria a entrada a pé das pessoas ou em carros comuns. Mas elas, certamente, não deixariam de chegar ao País porque existem inúmeras trilhas, sem controle. Somente entre Brasil e Venezuela, a extensão é de 2,2 mil quilômetros, abrangendo Roraima e Amazonas. No caso de Roraima, a maior parte da divisão é por rios, e 90 km por terra. Mas as portas de entrada são inúmeras e praticamente impossíveis de serem controladas.

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