Marcos Corrêa/PR
Marcos Corrêa/PR

Bastidores: Bolsonaro decidiu pressionar STF após ouvir setor produtivo

Presidente ouviu de empresários que é possível reabrir fábricas e lojas com segurança

Lorenna Rodrigues, Luciana Ribeiro Dyniewicz, Renée Pereira e Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

07 de maio de 2020 | 19h34
Atualizado 08 de maio de 2020 | 10h44

BRASÍLIA E SÃO PAULO – O presidente Jair Bolsonaro decidiu “marchar” até o Supremo Tribunal Federal (STF) depois de ouvir de representantes que é possível reabrir fábricas e lojas com segurança. A ideia foi fazer chegar ao Judiciário a pressão que o presidente vem sofrendo do setor produtivo.

O encontro desta manhã começou no gabinete presidencial e terminou, improvisadamente, no do presidente do Supremo, Dias Toffoli. No Palácio do Planalto, os empresários traçaram um cenário preocupante e disseram ter planos de como poderia ser retomada a atividade econômica com segurança, que não foram apresentados em detalhes.

Foi neste momento que Bolsonaro questionou os presentes se eles concordariam em atravessar a Praça dos Três Poderes e ir até o STF para apresentar os mesmos dados e alternativas. Bolsonaro lembrou os empresários que o STF decidiu que Estados e municípios têm autoridade para decidir o que fecha e o que abre. Por isso, levou todos para bater na porta de Toffoli. De acordo com empresários que participaram da reunião, Bolsonaro demonstrou preocupação com as derrotas que vem sofrendo na Corte.  

O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), José Velloso, disse que a reunião com Bolsonaro e os ministros Paulo Guedes (Economia) e Braga Neto (Casa Civil) estava marcada para discutir a situação da indústria, “que está destroçada”. A pauta era falar sobre os números do setor, a redução do custo Brasil e a preocupação com uma invasão de produtos importados no pós-pandemia.

No meio da reunião, uma movimentação começou a chamar a atenção. “De repente, o presidente nos chamou para ir até o STF (Supremo Tribunal Federal) para conversar com o presidente Dias Toffoli. Então seguimos a pé com ele até lá. Mas isso não estava na agenda”, disse Veloso.

O presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), Fernando Pimentel, disse que Bolsonaro ficou “preocupado” com o relato dos industriais e, por isso, decidiu levar as demandas até o STF. “Não houve constrangimento, foi quem quis”, completou.

O presidente da associação nacional que reúne as indústrias de brinquedos, a Abrinq, Synesio Batista, que esteve no grupo, disse, porém, que os empresários não fizeram – e nem pretendem fazer – qualquer pedido à Corte. “A indústria não tem que pedir nada (ao STF). Nosso ambiente de relacionamento empresarial é com o executivo, não é com a corte máxima.”

Ele contou que a reunião com Toffoli não estava na programação – e foi proposta de última hora por Bolsonaro. Após ser contatado pela Presidência da República, o STF concordou em receber os empresários imediatamente – aí todos cruzaram a Praça dos Três Poderes.

O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Plástico (Abiplast), José Ricardo Roriz Coelho, corrobora a informação. Segundo ele, após ouvir os relatos dos executivos sobre a situação da indústria, o presidente do STF sugeriu uma coordenação entre os Poderes para tratar do assunto. “Não esperava que a reunião fosse tão boa, especialmente num momento tão complicado e questões políticas em ebulição”, completou.

O presidente executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), Haroldo Ferreira, destacou que a reunião com o presidente Bolsonaro foi sugerida na semana passada por  Braga Netto, e que o convite para ir ao STF partiu na manhã desta pelo próprio presidente. “Não estava programado ir ao STF. Ele (Bolsonaro) perguntou se víamos algum problema de apresentarmos o relato que havíamos feito a ele para o STF. Dissemos que achávamos positivo. Não houve desconforto nisso.”

De acordo com o executivo, o encontro com o ministro Dias Toffoli foi mais rápido do que o com Bolsonaro, durou cerca de 30 minutos. “Ele (Toffoli) nos sugeriu a criação de um comitê para discutir a retomada da economia.”

Ferreira disse que a indústria não defende uma reabertura desenfreada do comércio. “Não é uma volta ao que se tinha antes, mas há Estados onde não há índices elevados de contaminação e onde tudo está fechado. Tem de haver uma flexibilização.”

Na reunião com o presidente, os industriais defenderam que não basta as fábricas continuarem funcionando já que, para alguns setores, o fechamento do comércio inviabiliza a produção. Além disso, há a preocupação com a “invasão” de produtos importados, especialmente os chineses, já que a indústria daquele país já retomou a produção em meio a um mercado mundial retraído.

Os empresários também voltaram a bater na tecla do crédito e disseram que as medidas para a liberação de recursos não foram suficientes. O ministro da Economia, Paulo Guedes, concordou com esse ponto e disse que novas ações estão sendo estudadas e serão anunciadas.  

Além de apresentar uma situação preocupante, os industriais mostraram ações que estão sendo feitas para ajudar no combate à epidemia, como a transformação de plantas de equipamentos eletrônicos em produtoras de respiradores.  

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.