BASTIDORES: Apesar de discreto com a imprensa, Teori sabia dar o seu recado

A timidez para entrevistas mais demoradas não o fazia, como se possa pensar, um juiz silente

Luiz Maklouf Carvalho, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2017 | 05h00

“O ministro Teori Zavascki agradece, mas não poderá atendê-lo, em virtude de elevada demanda funcional.” A resposta padrão, quantas vezes se pedisse uma entrevista, era encaminhada aos solicitantes pela assessoria de imprensa do STF. Nunca pelos próprios assessores do gabinete de Teori, como acontece com os outros dez ministros. Era mais uma forma de se mostrar radicalmente avesso a contatos mais demorados com jornalistas – seja em off, seja em on. 

Um dos motivos para tanta reserva – como disse uma vez ao ministro Luís Roberto Barroso – era não se sentir com desenvoltura maior para abordar temas de caráter mais geral sobre a conjuntura jurídico-política do País, uma especialidade que elogiava em Barroso. Talvez a adquirisse com o tempo – como ocorreu com muitos outros ministros –, mas agora jamais se saberá.

A timidez para entrevistas mais demoradas não o fazia, como se possa pensar, um juiz silente. Por mais de uma vez – em cerimônias públicas –, não teve pejo em dar puxões de orelhas, retóricos, mas bem formulados, a exageros da Lava Jato, aos “espetáculos midiáticos” em divulgação de denúncias, ou à vaidade exagerada de juízes com postura mais combativa do que o adequado. Não citava nomes, deixava em alguma bruma a circunstância específica, mas sabia o recado que queria dar. 

Muito zeloso de sua performance profissional, irritava-se com críticas sobre um possível atraso em sua relatoria do processo mais explosivo que tramita na Casa. Há algumas semanas, próximo do recesso, Teori esticou de maneira inusitada uma entrevista de ocasião que resolvera conceder, ao chegar para uma sessão. 

Reiterou, então, seus argumentos contra as sugestões de que estaria atrasado – crítica de resto não compartilhada pelas outras dez ilhas da Corte, que o tinham em boa conta (alguns em ótima). 

Houve sessão plenária, também recente, em que cobrou, inclusive da mídia, “necessidade de um melhor entendimento sobre as estatísticas do tribunal”. Informou, no caso, que a grande maioria dos inquéritos sob sua relatoria não estava em seu gabinete – e sim em outras instâncias que demoravam a devolvê-los, entre elas o Ministério Público.

Na momentosa e recente sessão em que o pleno julgou a decisão do ministro Marco Aurélio – que mandara afastar o presidente do Senado, Renan Calheiros –, Teori foi o único dos presentes a falar claro sobre os ataques pessoais do ministro Gilmar Mendes ao ministro Marco Aurélio, feitos na mídia, tipo de coisa que muito raramente aflora nas sessões. 

Não citou o nome de Mendes (ausente da sessão por motivo de viagem), mas disse: “Quero criticar as críticas pejorativas de caráter pessoal, em que juízes tecem comentários sobre decisões de outros juízes, o que me causa profundo desconforto pessoal, além de ser proibido pela Lei Orgânica da Magistratura”. 

O Supremo perdeu, em Paraty, uma voz crítica e ponderada que vai fazer falta.

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