Wilson Dias/Agência Brasil
Wilson Dias/Agência Brasil

Ataques a Ernesto Araújo motivaram exoneração de embaixador

Para Itamaraty, Paulo Roberto de Almeida foi afastado de cargo por ter “agredido” pelas redes sociais o chanceler e a política externa do governo Bolsonaro

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

06 de março de 2019 | 23h22

BRASÍLIA - O Itamaraty desmente, extraoficialmente, a versão do embaixador Paulo Roberto de Almeida para sua exoneração do cargo de presidente do Instituto de Pesquisas de Relações Internacionais (Ipri), em plena segunda-feira de carnaval. Na versão do ministério, ele “quer aparecer” e foi afastado por ter “agredido” pelas redes sociais o ministro Ernesto Araujo e a política externa do governo.

Ao publicar no Facebook uma crítica do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso à política externa, na véspera da exoneração, Almeida escreveu sobre “os descaminhos da nossa diplomacia, entregue aos eflúvios amadores de ideólogos tresloucados, como certo sofista da Virgínia, e fundamentalistas trumpistas totalmente equivocados”. E concluiu: “Já passou da hora de superar o ridículo...”

No Itamaraty, a conclusão é de que a referência a “fundamentalistas trumpistas” foi uma “agressão direta” ao chanceler Araújo, que tem textos publicados enaltecendo o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, como o único capaz de salvar os valores cristãos do Ocidente e, por isso, é costumeiramente acusado por seus críticos justamente de “fundamentalista trumpista”. Além disso, a cúpula do ministério considera que ele acusou a política externa do atual governo de “descaminhos” e de ser “ridícula”.

Embaixadores sediados no Itamaraty, em Brasília, consideram que as expressões “ideólogos tresloucados” e “sofista da Virgínia” foram dirigidas frontalmente contra o filósofo Olavo de Carvalho, que mora no Estado norte-americano da Virgínia e é apontado como o principal padrinho da escolha de Ernesto Araújo como chanceler. Eles, porém, disseram que isso não pesou na exoneração, o que pesou foram os “ataques ao chanceler e à hierarquia”. 

Em entrevista ao Estado, publicada ontem, Almeida disse que foi exonerado por, além de ter criticado Olavo de Carvalho, ter publicado em seu blog um artigo de Fernando Henrique Cardoso e uma palestra do embaixador Rubens Ricupero contra a política externa do governo Jair Bolsonaro. O Itamaraty, porém, diz que tanto o artigo quanto a palestra são públicas e, inclusive, divulgadas no resumo diário de notícias sobre o Itamaraty. Logo, não seriam motivo para o afastamento.

Uma das críticas de Paulo Roberto de Almeida, na entrevista, foi que Ernesto Araujo impôs uma “subversão da hierarquia, uma reforma de cima para baixo que deixou muita gente perplexa”. Disse, também, que já estava esperando ser afastado. De fato, ele já tivera uma conversa na sexta-feira com o chefe de gabinete de Ernesto Araujo, ministro de carreira Pedro Wollny, justamente sobre seu próximo cargo. O post no domingo interrompeu a discussão, ele foi comunicado da exoneração na segunda-feira pelo próprio Wollny, por telefone, e ontem foi ao Itamaraty para formalizar a decisão.

Uma curiosidade: Paulo Roberto está escrevendo um livro junto com o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, sobre o ex-embaixador, ministro e senador Roberto Campos, um dos ideólogos da direita brasileira. Longe de ser considerado “de esquerda”, Almeida é um estudioso da vida e obra de Campos.

Na entrevista ao Estado, o embaixador disse que ficou “na geladeira”, ou “encostado na biblioteca”, nos anos dos ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. Segundo o Itamaraty, porém, ele atuou de 2003 a 2007 como assessor especial do Núcleo de Assuntos Estratégicos do Palácio do Planalto.

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