Base manobra por CPI que inclua período de FHC

Jucá recebeu sinal verde do presidente Lula para coletar assinaturas e no fim da tarde protocolou pedido

Vera Rosa e Christine Samarco, de O Estado de S. Paulo,

06 de fevereiro de 2008 | 20h02

Numa manobra para neutralizar o bombardeio da oposição, o presidente Lula autorizou o líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), a coletar assinaturas para abrir uma CPI na Casa sobre as compras com cartões corporativos. Detalhe: a CPI pretende investigar as despesas do governo desde janeiro de 1998 até hoje. O período atinge a administração de Fernando Henrique Cardoso, que assumiu a Presidência em 1994 e criou os cartões em 2001.    Entenda o que são os cartões corporativos do governo   Suplicy defende que CPI apure gastos secretos da Presidência  Após denúncia, governo publica mudanças para cartões  Congresso volta ao com CPI na mira e sete MPs na pauta  Lula nomeia secretário-adjunto para lugar de Matilde  'CPI vai investigar desde 2001', diz Carlos Sampaio No fim da tarde de quarta, Jucá obteve 35 assinaturas – 8 a mais que as necessárias – e protocolou o pedido de CPI na Mesa do Senado. Na prática, o governo quer enterrar a CPI dos Cartões que o PSDB tenta instalar, com apoio do DEM. Para articuladores do Planalto, uma CPI da Câmara e do Senado paralisaria o governo neste ano eleitoral. A tática foi optar por uma contra-ofensiva para constranger a oposição e esvaziar as investigações. Na quarta, já na sessão de abertura dos trabalhos do Congresso, Jucá circulava no plenário, buscando apoio de colegas para o pedido de CPI para apuração de "eventuais irregularidades" no uso de "suprimentos de fundos", incluindo contas bancárias, cartões de pagamento e saques em espécie. A menção aos "suprimentos de fundos" foi necessária porque o cartão corporativo só foi criado em 2001.   "Queremos comparar a série histórica dos últimos 10 anos para discutir os gastos públicos", afirmou Jucá, que também foi líder do governo FHC. "Vamos mostrar que as tapiocas são iguais: só muda o gosto", ironizou, referindo-se à compra de R$ 8,30 com cartão feita pelo ministro do Esporte, Orlando Silva, em uma tapiocaria. Ao saber que a investigação incluía o governo FHC, o líder do PSDB, Arthur Virgílio (AM), informou em nota que entrará no Supremo Tribunal Federal (STF) com uma ação para que o governo informe seu gasto em cartão corporativo quando foi secretário-geral da Presidência de FHC e "outra para que sejam abertas todas as despesas efetuadas em cartões corporativos". Ele acusou o governo de querer transformar a CPI em pizza. "O PSDB não compactuará com nenhuma tentativa de setores governistas de, pretensamente antecipando-se às oposições, propor CPI para transformar em pizza uma investigação sobre o escândalo dos cartões", afirmou na nota. "Não é manobra, em absoluto", rebateu o ministro das Relações Institucionais, José Múcio. De manhã, ele já ligara para Lula, no Guarujá, dizendo que era preciso se antecipar e neutralizar a tentativa da oposição de abrir a CPI dos Cartões.   Depois, Múcio reuniu-se com Jucá e os ministros Dilma Rousseff (Casa Civil), Paulo Bernardo (Planejamento), Franklin Martins (Comunicação Social) e Jorge Hage (Controladoria-Geral da União). "O governo pode até fazer uma operação-abafa na Câmara, mas no Senado não tem como evitar a CPI", disse Jucá aos ministros. Segundo um dos presentes, todos concordaram que a melhor tática era tomar a iniciativa de abrir a CPI.   Dilma afirmou que não havia o que temer se todos os gastos estavam disponíveis na internet. Jucá disse que nenhum governo gosta de CPI, mas neste caso a "nuvem de suspeita" era mais nociva do que a investigação. "O governo não vai ficar refém desse tipo de ameaça. Quem tiver errado, que pague."

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