Base do governo na Câmara Federal põe 'traição' na conta de ruralistas

Basômetro mostra, porém, que derrotas do governo no Código Florestal foram provocadas pelas lideranças de partidos aliados de Dilma

Estadão Dados,

02 de junho de 2012 | 23h09

SÃO PAULO - Temidas por presidentes, as bancadas temáticas são o bicho-papão do Congresso. Creditam-se à mais famosa delas, a ruralista, três derrotas do governo Dilma Rousseff na Câmara durante a votação do Código Florestal. Mas o Basômetro mostra que as frentes se escondem no próprio mito e ameaçam o governante de plantão em raras ocasiões, só quando ele ensaia ir contra os seus interesses fundamentais. Em regra, as frentes são mais eficientes nos bastidores do Congresso do que no plenário.

As taxas de governismo das frentes ruralista (75%), evangélica (79%) e ambientalista (78%) pouco diferem da média geral da Câmara, que é de 78%. No Senado, seus integrantes são ainda mais governistas do que os outros senadores.

O Basômetro (http://estadaodados.herokuapp.com/basometro) é uma ferramenta online que permite medir o grau de governismo dos parlamentares. As análises podem ser feitas por deputado ou senador, por partido, por Estado e, desde ontem, por bancadas temáticas.

Os gráficos que ilustram este texto mostram, na maior parte do tempo, uma sobreposição das linhas que representam as médias de governismo de cada uma das frentes com a linha que representa a média geral de governismo da Câmara. Apenas em raros “vales” - as votações onde o governo teve menos apoio - há um descolamento de ruralistas e evangélicos em relação aos seus colegas de plenário.

No caso da frente evangélica, isso ocorreu apenas nas duas votações da Lei Geral da Copa, quando a proposta do governo incluía a permissão para venda de bebidas alcoólicas em estádios no Mundial de 2014. Os evangélicos votaram em peso contra a proposta, mas foram derrotados pela maioria governista.

Já a frente ruralista enfrentou o governo só em três votações do Código Florestal na Câmara, e saiu vitoriosa em todas. Mas é preciso levar em conta outros fatores antes de fomentar o mito do poder ruralista. O principal é que o governo perdeu porque as lideranças de seus principais aliados - PMDB à frente - encaminharam a votação na contramão do líder governista - ou liberaram suas bancadas para cada deputado votar como quisesse. Foram os casos do PP, PR, PTB e PDT.

Infiéis. Logo, as derrotas do governo se deveram principalmente à infidelidade das cúpulas dos partidos aliados. O fenômeno se repetiu em duas outras derrotas na Câmara e na única batalha perdida por Dilma no Senado. Em nenhuma os ruralistas tinham interesse direto.

“Embora os partidos sejam comumente caracterizados como fracos, com baixa capilaridade na sociedade, eles são muito fortes dentro da organização do processo legislativo”, observa o cientista político Ricardo Ceneviva, pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento. Análises estatísticas feitas pelo Cebrap coincidem com o quadro revelado pelo Basômetro: os parlamentares tendem a seguir a orientação de seus partidos, independentemente de sua filiação a frentes temáticas.

Em contrapartida, o governo conseguiu aprovar projetos que, ao menos em tese, contrariam os interesses de parte dos ruralistas, como a emenda constitucional que tornou mais rigorosa a punição a quem promove o trabalho escravo. Nessa última, por exemplo, a grande maioria dos ruralistas votou conforme a orientação do governo: 112 a favor e apenas 25 contra.

O poder de ruralistas e evangélicos começa bem antes do plenário. “A força das bancadas temáticas não se expressa apenas nas votações”, diz o cientista político Carlos Melo, do Insper. “Se as bancadas não votam em conjunto contra um projeto, é porque seu lobby já foi contemplado durante a tramitação da proposta”, observa o cientista político. / JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO, AMANDA ROSSI, TCHA-TCHO e DANIEL BRAMATTI

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