EVARISTO SA / AFP
EVARISTO SA / AFP

Ministros do STF, Maia e Doria condenam ataques a jornalistas do 'Estado'

Profissionais foram agredidos com chutes, murros e empurrões por apoiadores de Bolsonaro

Redação, O Estado de S.Paulo

03 de maio de 2020 | 15h26
Atualizado 04 de maio de 2020 | 17h54

BRASÍLIA - Diversas autoridades se manifestaram a favor da liberdade de imprensa e contra os ataques de apoiadores do presidente Jair Bolsonaro à equipe de profissionais do Estadão que acompanha uma manifestação pró-governo neste domingo, 3

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Luís Roberto Barroso, defendeu o jornalismo profissional como forma de combater o "ódio, a mentira e a intolerância".

"Dia da liberdade de imprensa. Mais que nunca precisamos de jornalismo profissional de qualidade, com informações devidamente checadas, em busca da verdade possível, ainda que plural. Assim se combate o ódio, a mentira e a intolerância", postou Barroso no início da tarde em uma rede social.

Também ministra do STF, Cármen Lúcia afirmou que “quem transgride e ofende a liberdade de imprensa, ofende a Constituição, a democracia e a cidadania brasileira”. Para ela, isso “significa atuar de maneira inconstitucional”.

A ministra lamentou a agressão aos jornalistas do Estado em um dia "tão significativo" como hoje, fazendo referência ao Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, celebrado hoje. "É inaceitável, é inexplicável que ainda tenhamos cidadãos que não entenderam que o papel de um  profissional da imprensa é o papel que garante, a cada um de nós, poder ser livre."

O ministro Gilmar Mendes afirmou que “a agressão a jornalistas é uma agressão à liberdade de expressão e uma agressão à própria democracia”. “Isso tem que ficar claro”, completou Mendes. "É de se lamentar esses episódios que acabaram de se noticiar. A agressão à liberdade de expressão, a agressão a cada jornalista, na verdade, é agressão à liberdade de expressão e a própria democracia e isso precisa ficar bem claro e precisa ser repudiado.

Mais tarde, no Twitter, ele disse ainda que é preciso lembrar que a atuação livre dos jornalistas é um pilar "estruturante" da democracia.

Cármen Lúcia e Gilmar Mendes participam de transmissão ao vivo pela internet promovida pelo Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP).

O ministro do STF Alexandre de Moraes afirmou que agressões contra jornalistas não podem ser toleradas pelas Instituições e pela Sociedade. "As agressões contra jornalistas devem ser repudiadas pela covardia do ato e pelo ferimento à Democracia e ao Estado de Direito." 

No último sábado, um grupo de aproximadamente 20 bolsonaristas protestou em frente ao apartamento de Moraes, em São Paulo. Com uso de um megafone e com carros parados na calçada cobertos com a bandeira do Brasil, xingavam o ministro e pediam para que ele descesse até a rua. Moraes foi chamado de “comunista que não gosta de polícia” e que estava “com medo do Ramagem”. Os protestos ocorreram dias depois do magistrado ter suspendido a nomeação do novo diretor da Polícia Federal definida pelo presidente Jair Bolsonaro.

O ministro Luiz Fux afirmou que num País onde se admite agressões morais e físicas contra a imprensa, a democracia corre graves riscos. “A dignidade humana se caracteriza pela autodeterminação, pela liberdade de escolhas e de expressão. A dignidade da imprensa se exterioriza pela sua liberdade crítica, de investigação e de denúncia de atitudes anti-republicanas."

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ) afirmou que cabe às instituições democráticas impor a "ordem legal a esse grupo que confunde fazer política com tocar o terror". "Ontem enfermeiras ameaçadas. Hoje jornalistas agredidos. Amanhã qualquer um que se opõe à visão de mundo deles", disse. 

No Twitter, Maia prestou solidariedade aos jornalistas agredidos e pediu que a Justiça seja célere para punir os criminosos responsáveis. Maia afirmou também que, no Brasil, além da luta contra o coronavírus, há também aquela contra o "vírus do extremismo", cujo pior efeito é ignorar a ciência e negar a realidade, disse. "O caminho será mais duro, mas a democracia e os brasileiros que querem paz vencerão", disse.

Na postagem, o presidente da Câmara também lamentou as agressões sofridas por profissionais da saúde. Neste sábado, o protesto de um grupo de enfermeiros por melhores condições de trabalho e pela manutenção do isolamento social durante a pandemia acabou em confusão após apoiadores de Bolsonaro tentarem interromper o ato e agredir os profissionais. Como mostrou o Estadão/Broadcast, três manifestantes foram identificados pelo Conselho Regional de Enfermagem do Distrito Federal (Coren-DF) e o órgão vai processá-los.

"Cabe às instituições democráticas impor a ordem legal a esse grupo que confunde fazer política com tocar o terror. Minha solidariedade aos jornalistas e profissionais de saúde agredidos. Que a Justiça seja célere para punir esses criminosos", disse.

O governador de São Paulo, João Doria, afirmou em seu Twitter que a justiça precisa punir os que agrediram profissionais da imprensa e também profissionais de saúde. "Milicianos ideológicos agridem covardemente profissionais de saúde num dia. Agridem profissionais de imprensa no outro. São criminosos que atacam a democracia e ferem o Estado de Direito", escreveu Doria.

Wilson Witzel, governador do Rio de Janeiro, criticou o presidente Jair Bolsonaro por não ter se manifestado em relação às agressões aos jornalistas do Estadão e declarou que o único plano de seu governo "alimentar o caos".

O governador do ParáHelder Barbalho, afirmou que a agressão sofrida pelos profissionais de imprensa representa algo lastimátivel, além de um enorme retrocesso. "Reafirmamos nosso respeito e admiração pelo trabalho da imprensa que  contribui com a democracia, o acesso à informação e a pluralidade de ideias e debates, sempre com muito respeito,  seriedade e compromisso com verdade.

Pelo Twitter, o PSDB repudiou o ataque "criminoso" a jornalistas do Estado. "Criminosos agridem jornalistas em manifestação a favor do presidente e contra o Brasil. O nosso repúdio."

O líder do PSDB na Câmara, deputado Carlos Sampaio (SP), se manifestou por nota com críticas aos atos e às agressões aos profissionais do Estado. Segundo ele, "quem verdadeiramente defende a democracia não participa ou aceita manifestações onde a imprensa é agredida".

“No dia em que o Brasil deve ultrapassar 100 mil casos de Covid-19 e 7 mil mortos, é lamentável e decepcionante que o presidente Jair Bolsonaro demonstre, mais uma vez, o seu apoio a movimento que está na contramão das orientações das autoridades de saúde. Além disso, quem verdadeiramente defende a democracia não participa ou aceita manifestações onde a imprensa é agredida e que atacam o Congresso e o Supremo Tribunal Federal, que são seus pilares", afirma Carlos Sampaio na nota. "A responsabilidade dos Poderes em cumprir suas tarefas é a melhor resposta que deve ser dada neste momento em que a maioria dos brasileiros chora seus mortos e se preocupa com o amanhã.”

O ex-ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, afirmou em sua conta no Twitter que "democracia, liberdades - inclusive de expressão e de imprensa - Estado de Direito, integridade e tolerância caminham juntos e não separados".

Possível presidenciável, Luciano Huck definiu como "horror" o episódio envolvendo agressões aos profissionais do Estadão. "Sem imprensa livre não há democracia. Uma nuvem escura tenta ofuscar o brilho da liberdade no Brasil. Porém o sopro forte dos freios e contrapesos das instituições vai desanuviar o país", escreveu o apresentador em seu Twitter.

O presidente da Força SindicalMiguel Torres, publicou nota em que repudia a agressão aos jornalistas do Estadão. "O trabalho da imprensa precisa ser respeitado e exercido com total segurança e liberdade para noticiar a verdade dos fatos", diz o texto. "Nossa total solidariedade aos profissionais do Estadão e dos demais veículos que prestam imprescindíveis serviços de comunicação à população."

Agressões

Durante a manifestação pró-Bolsonaro neste domingo, o fotógrafo Dida Sampaio registrava imagens do presidente em frente a rampa do Palácio do Planalto, na Esplanada dos Ministérios, numa área restrita para a imprensa quando foi agredido.

Sampaio usava uma pequena escada para fazer o registro das imagens quando foi empurrado duas vezes por manifestantes, que desferiram chutes e murros nele. O motorista do jornal, Marcos Pereira, que apoiava a equipe de reportagem também foi agredido fisicamente com uma rasteira. Os manifestantes gritavam palavra de ordem como “fora Estadão”.

Os dois profissionais precisaram deixar o local rapidamente para uma área segura e procuraram o apoio da polícia militar. Eles deixaram o local escoltados pela PM. Os profissionais passam bem.

Ato

Milhares de pessoas se reúnem na Esplanada dos Ministérios convocadas num ato estimulado pelo presidente. A ação ocorre após o ex-ministro Sérgio Moro prestar depoimento no inquérito aberto pelo Supremo para apurar denúncia feita por ele de que o presidente Bolsonaro utilizou o cargo para tentar ter acesso a investigações sigilosas da Polícia Federal.

Bolsonaro participou da manifestação e, da rampa do Palácio do Planalto,  afirmou em que não irá mais admitir interferência em seu governo. A declaração é dada depois de decisões do STF que o contrariaram, como a suspensão da nomeação de Alexandre Ramagem para o comando da Polícia Federal.

Em transmissão ao vivo pelas redes sociais durante o protesto, o presidente também defendeu a volta da população ao trabalho, com o fim de medidas de isolamento social. Segundo Bolsonaro, "infelizmente" muitos serão infectados pelo novo coronavírus e perderão suas vidas, mas disse que essa "é uma realidade, que temos que enfrentar".

Bolsonaro desrespeitou recomendações de saúde pública ao participar da manifestação. Sem máscara, desceu a rampa do Planalto e deu uma volta em todo alambrado. O desrespeito as medidas de segurança por causa do novo coronavírus é generalizado entre os apoiadores do presidente. / AMANDA PUPO, BIANCA GOMES, PEDRO CARAMURU

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