Evelson de Freitas/Estadão
Evelson de Freitas/Estadão

Barbosa admite antecipar saída do STF e não descarta candidatura após 2014

Presidente do Supremo Tribunal Federal sugere, pela primeira vez, que poderá pensar em disputar o Palácio do Planalto 'no futuro' e afirma que é 'muito difícil' ficar na Corte até os 70 anos

Luciana Nunes Leal, O Estado de S. Paulo

14 de outubro de 2013 | 14h24

(Atualizado às 23h15) Rio - O presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, disse nesta segunda-feira, 14, que pensa em se aposentar antes do limite legal de 70 anos e não descartou a possibilidade de entrar para a política e disputar a Presidência da República. Aos 59 anos, o ministro negou a intenção de ser candidato já nas eleições do ano que vem, mas afirmou que, depois de deixar o tribunal, terá tempo para "refletir" sobre o futuro.

As declarações de Barbosa foram dadas no 8.º Congresso Internacional da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), que termina nesta terça e reúne 1,3 mil pessoas de 87 países na PUC do Rio de Janeiro.

Barbosa fez uma apresentação de 15 minutos sobre o tema "Avanços e retrocessos institucionais no Brasil" e, depois, respondeu a perguntas de jornalistas e da plateia. Diferentemente de outras oportunidades, ele abriu, mesmo cheio de ressalvas, a possibilidade de disputar eleições ao ser questionado sobre um eventual ingresso na política.

"Não tenho, no momento, nenhuma intenção de me lançar candidato a presidente. No futuro, terei tempo para pensar nisso", disse Barbosa ao ser questionado sobre um eventual ingresso na política. "Nunca cogitei (entrar na política), sempre tive carreira técnica. No dia que eu deixar o tribunal, terei tempo para refletir sobre isso", completou o presidente do Supremo. Questionado se exerceria o cargo de ministro do STF até os 70 anos – quando há aposentadoria compulsória –, respondeu: "Acho muito difícil".

Minutos antes, na palestra, o presidente do STF listou o que lhe desagrada na política brasileira. "O voto obrigatório, a impossibilidade de candidaturas avulsas, o excesso assombroso do número de partidos, a mercantilização partidária, o coronelismo e o mandonismo na estrutura interna de certos partidos: eis um catálogo dos problemas do sistema político brasileiro", discursou.

"No plano da organização institucional, a reforma política é o mais premente e árduo de todos os desafios. A natureza tortuosa do sistema político, movido por um combustível nada limpo, com dinheiro de origem duvidosa, tem causado a grande desafeição do cidadão à política", completou.

Projeção. Barbosa ganhou projeção nacional no ano passado ao relatar o processo do mensalão, cujo julgamento foi concluído em dezembro no ano passado com a condenação de 25 pessoas, entre elas o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, o ex-presidente do PT José Genoino e o ex-tesoureiro do partido Delúbio Soares – o caso está agora em fase de recursos por meio dos quais parte dos condenados tenta reverter sentenças dos crimes de formação de quadrilha e lavagem de dinheiro.

O tom duro no julgamento e seus votos pela condenação dos réus tiveram repercussão em parte da população. O nome de Barbosa chegou a ser incluído em algumas pesquisas de intenção de voto. O presidente do STF chegou aos dois dígitos em alguns cenários apresentados pelos institutos. Nos protestos de rua de junho, foi celebrado por parte dos manifestantes. Pesquisas recentes deixaram de incluir o presidente do Supremo entre possíveis candidatos.

Barbosa foi nomeado ministro do Supremo em 2003 pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O magistrado é o primeiro negro a presidir o STF.

Ainda na palestra da Abraji, ele citou a "ausência de pluralismo" como um dos "desafios mais cruciais" do jornalismo e deu o exemplo do baixo número de repórteres negros e mulatos.

"Há uma nuvem de silêncio sobre essa questão. É extremamente prejudicial para quem sofre. É preciso conscientização de quem tem poder de decisão, dos proprietários dos meios de comunicação, dos diretores de redação, que têm o poder de recrutar. O mercado sozinho não vai resolver. A discriminação racial é algo instintivo. Basta dar uma olhada no panorama audiovisual brasileiro", disse ele.

Praia. Depois da palestra no Rio, durante uma entrevista coletiva, o ministro brincou diante da pergunta sobre uma possível candidatura presidencial em 2018. "Em 2018 quero estar em uma boa praia."

Barbosa também falou sobre o mensalão. Ele estimou em "três ou quatro meses" a duração do julgamento dos embargos infringentes – recursos concedidos a 12 réus – e evitou comentar as discussões públicas com o ministro Ricardo Lewandowski, revisor do processo. "Isso passou, não tem nenhuma importância, são coisas da vida."

Barbosa, porém, voltou a criticar Lewandowski, vice-presidente do STF, por manter em seu gabinete a servidora Adriana Leineker, que trabalha no tribunal desde 2000. Ela é casada com o jornalista Felipe Recondo, repórter do Estado que cobre o Judiciário. Há duas semanas, Barbosa encaminhou ofício a Lewandowski pedindo que reconsiderasse a decisão, mas o ministro manteve a funcionária.

Adriana é servidora do Tribunal de Justiça do Distrito Federal cedida ao STF. "Escrevi a ele (Lewandowski) dizendo que achava que havia conflito de interesses, mas ele manteve a situação. O caso está encerrado. No próximo ano teremos o presidente do STF tendo em seu gabinete a esposa de um repórter que trabalha na intimidade do tribunal. Tenho certeza que uma situação como essa seria inimaginável nos EUA", disse.

Recondo cobre o Judiciário no Estado desde 2007. Em março, Barbosa chamou o repórter de "palhaço" e o mandou "chafurdar no lixo". Depois, em nota, pediu desculpas e atribuiu a agressão a fortes dores na coluna.

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