Barbiere se recusa a dar nomes e agora acusa governo

Pivô de escândalo na Assembleia de São Paulo falou nesta quinta ao Conselho de Ética; um dai antes, governador cobrou deputado

Fernando Gallo / SÃO PAULO , O Estado de S.Paulo

06 de outubro de 2011 | 23h18

Pivô das acusações de venda de emendas na Assembleia Legislativa de São Paulo, o deputado Roque Barbiere (PTB) não revelou ao Conselho de Ética nomes de quem estaria exercendo a prática, mas confrontou o governo estadual no documento que enviou ao órgão e que foi lido ontem. Um dia antes, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) cobrara Barbiere publicamente e apelara a seu "dever público" de informar nomes.

 

"Por que será que o governo se manifesta com tanta veemência se eu não os acusei, ainda, de fazer nada errado", indagou o deputado petebista no documento. Barbiere também afirmou duvidar que o secretário de Planejamento, Emanuel Fernandes, e a subsecretaria de assuntos parlamentares da Casa Civil, Delegada Rose, neguem, na presença dele, que os tenha alertado sobre o suposto esquema.

 

O deputado cobrou o governo da falta de resposta ao requerimento que protocolou na Casa Civil em 22 de dezembro de 2010, no qual fazia questionamentos sobre as emendas. "No mínimo o governo deveria pensar: 'por que será que um deputado que nos apóia com tanta lealdade e por tanto tempo, está perguntando isso?' Por que o governo não me ligou e perguntou? Pode até ser que esqueceram, ou não tiveram O que não pode é tentar me fazer passar por mentiroso e dizer que não os alertei".

 

Ele ainda disse achar "estanho" que o então chefe da Casa Civil, Luiz Antonio Guimarães Marrey, tenha afirmado "lembrar-se vagamente" do documento. "Ele lembrou-se da data exata, mas do assunto não. Estranho, não acham?", perguntou.

 

Barbiere reclamou da forma como foi interpretado no episódio em que comparou deputados a camelôs, mas confirmou ter feito a analogia. "O repórter perguntou-me como as emendas eram vendidas. Respondi-lhe: 'não sei, pois nunca as vendi'. Ele insistiu e eu disse para que ele imaginasse que, aquele que a for vender, não coloca anúncio em lugar nenhum, e que, que vendia emenda, talvez fizesse como camelô, sei lá, maquiasse o produto e outras bobagens do tipo (sic)".

 

O líder do PTB, Campos Machado, afirmou quase ao final da sessão, que Barbiere lhe pediu que transmitisse à Casa a informação de que renunciaria ao mandato na terça-feira "se alguma televisão ou jornal provar que ele falou que esta Assembleia é um camelódromo".

 

"O deputado Roque Barbiere me pediu que dissesse que ele nunca se referiu que esta assembléia é um camelódromo. Ele nunca fez esta afirmativa. Me pediu que trouxesse a este Conselho de Ética. Se alguma televisão ou jornal provar que ele falou que esta Assembleia é um camelódromo, ele entrega nesta terça-feira o pedido de renúncia ao seu mandato de deputado.

 

Ao final da reunião, o deputado Cauê Macris (PSDB), da base governista, afirmou que considerava insuficientes as explicações de Barbiere e que o deputado deveria comparecer pessoalmente para sanar as dúvidas dos deputados. "Nós temos que receber o deputado Roque Barbiere aqui. Não tem alternativa".

 

PT

O líder do PT, Ênio Tatto, conseguiu um raro momento de silêncio absoluto na acalorada reunião do conselho quando rebateu as declarações dadas por Alckmin anteontem. Segundo ele, em vez de cobrar explicações de Barbiere, Alckmin deveria fazê-lo em relação ao seu secretário de Meio Ambiente, Bruno Covas. Covas relatou ao Estado que, certa feita, à época em que era deputado, um prefeito tentou lhe oferecer R$ 5 mil após a concessão de uma emenda.

 

"O governador falou que quer que o Roque Barbiere aponte um fato concreto. Não precisa dizer nome, é só pegar o telefone e falar 'seu Bruno, qual foi o prefeito que te procurou?'. Ou pode telefonar para o Marrey e perguntar 'qual foi a decisão que você tomou?  Qual a apuração que foi feita? Ou o secretário Emanuel Fernandes", pressionou Tatto.

 

O líder do PT depositou em Covas a responsabilidade do início dos trabalhos da comissão. "Acho que o que o secretário Bruno Covas falou é muito mais grave e aponta um rumo para a comissão. Há um fato concreto. É só o Bruno Covas dizer 'foi o prefeito tal, da cidade tal'. É o começo, a ponta do iceberg".

 

O conselho aprovou ontem convite para que Covas compareça e dê explicações. Deputados da oposição temem que um precedente tenha sido aberto, e que o secretário de Meio Ambiente também faça suas considerações por escrito. O órgão também deliberou pelo convite ao deputado Major Olímpio (PDT), que deverá comparecer pessoalmente ao conselho.

 

Com a oposição do PT, o conselho rejeitou o convite a Luiz Antonio Marrey e ao senador e ex-chefe da Casa Civil Aloísio Nunes Ferreira (PSDB-SP). 

 

O líder do PSOL, Carlos Giannazi, apresentou requerimento para que sejam convidados a prestar esclarecimentos o ex-deputado José Bruno (DEM), o secretário Emanuel Fernandes e a subscretária Delegada Rose.

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