Marx Vasconcelos/Futura Press
Marx Vasconcelos/Futura Press

Bando desviou respiradores de hospitais para atender ‘família’

Equipamento faltava em unidades de Saúde do grupo; ‘Muita gente vai ficar rica’, disse acusado ao saber dos contratos no Pará

Luiz Vassallo, Marcelo Godoy e Pedro Venceslau, O Estado de S.Paulo

20 de fevereiro de 2022 | 05h00

Na tarde de 29 de junho de 2020, o piloto Hugo Trindade enviou uma foto de uma bolsa recheada de notas de cem e cinquenta reais para sua mulher. “Pagava nossas contas, amor! Um milhão. E no bagageiro da frente tem mais 6 milhões”, disse Trindade, eufórico. Ele se preparava para decolar de Belém rumo a São Paulo com a dinheirama e apenas dois passageiros: o médico Cleudson Montali e o empresário Nicolas Morais, apontados como cabeças de uma organização criminosa especializada em desvios milionários na área da saúde.

O Pará foi a “Serra Pelada” da maior organização criminosa descoberta no País que atuava na Saúde. Só no Estado, diz a PF, o grupo desviou R$ 455 milhões em contratos públicos para a gestão de hospitais de campanha em meio à pandemia da covid-19. Ambos foram alvo da Operação SOS, da PF naquele Estado, que chegou a cumprir buscas em endereços do governador Helder Barbalho (MDB), e a prender três secretários do governo. No mesmo dia, sofreram buscas na Operação Raio X, da Polícia Civil de São Paulo, que levou à condenação de Cleudson a 200 anos de prisão por desvios e corrupção.

Cleudson e seus colegas conseguiram contratos de R$ 1,2 bilhão para gerir cinco hospitais apenas entre 2019 e 2020. As OSSs de Cleudson subcontrataram mais de 200 empresas de médicos a ele ligados usadas para escamotear os desvios.

Em grande parte, o dinheiro foi usado na compra de fazendas e gado em nome de um laranja escolhido pelo médico, o homem por trás de organizações sociais contratadas para gerir os hospitais. Já Nicolas, conhecido na quadrilha como “Gordinho Bandido”, é visto como o lobista do grupo no Pará. Sua missão era garantir novos contratos por meio da aproximação com políticos.

Entre eles estava o então secretário de Transportes, Antonio de Pádua de Deus de Andrade, que acabou preso. Apontado como beneficiário de R$ 331 mil de repasses de Nicolas, ele mantinha uma relação com o operador, que se desgastou em razão do desejo de Andrade de obter carros de luxo.

“SW4 e a BMW. E aí, meu irmão. Tá bom! Importante nesse momento. Os dois. Blindado”, pediu Andrade a Nicolas, em agosto de 2020. “Tô na procura amigo... dá X6, tá? Faz dias, essa semana toda, o cara tá atrás e a outra tá vindo”, respondeu o operador em um diálogo interceptado pela PF. Andrade cobrou a chegada do carro diversas vezes. “Quando a X6 chega ? ‘Tá’ muito difícil assim”, disse, irritado com a demora.

CESTAS

O grupo de Cleudson é investigado também em razão da empresa Kaizen, que fechou um contrato de R$ 73 milhões para a distribuição de cestas básicas na pandemia. “O cara que trouxe nós pra cá, que é ligado ao governo aí, pegou um sócio pra fornecer um milhão e meio de cesta básica, aqui pro Estado do Pará”, disse Régis Pauletti, apontado como operador financeiro de Cleudson. Ao saber dos valores do contrato, outro integrante da organização disse: “Nossa Senhora, Ricardo, tem muita gente que vai ficar rico com isso né?”

Até na aquisição das cestas, haveria uma “comissão embutida”, confessou um integrante do grupo em uma mensagem. Com o telefone grampeado, Pauletti contou ter dito a Cleudson que a empresa não passava de fachada. Com ajuda de Nicolas, o grupo teve de promover um evento de entrega de cestas básicas com a presença do governador. Funcionários dos hospitais geridos por Cleudson entraram no evento. “Fomos à noite lá, ‘pegamo’ os pião do hospital e... que hoje o governador foi lá fazer uma filmagem, fazer entrevista tudo, pras televisão. Aí eu tive que organizar. E hoje liguei pro Glauco. Vê se tem alguma firma que faz isso e se entrega aqui pra nós, ‘prucê’ ganhar dinheiro”, diz Pauletti.

Pauletti foi flagrado confessando que a quadrilha comprava kits de exame contra a covid-19 por US$ 8 e repassava ao Pará por US$ 40. No começo da pandemia, ele contou em um telefonema que desviou três respiradores artificiais para atender a ele e aos familiares da organização criminosa, enquanto o equipamento faltava em hospitais gerenciados pela quadrilha. “Porque se der o surto, bicho, nós temos respirador. ‘Cê’ monta em casa mesmo.”

O Estadão procurou a defesa de Andrade, Nicolas, Cleudson e Pauletti, mas não os encontrou. O governo do Pará informou que encerrou o contrato com as organizações sociais dirigidas pelos citados.

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