''''Bandeira da ética que o PT ostentava está perdida''''

Cláudio Couto: cientista político e professor da PUC de São Paulo[br][br]Para Couto, absolvição de Renan desgasta ainda mais a imagem do Congresso e[br]é 'uma sensível perda de qualidade da democracia'

Entrevista com

Moacir Assunção, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2014 | 00h00

O cientista político Cláudio Couto, professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, considera que o episódio da absolvição do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), pelo plenário da Casa teve alguns aspectos didáticos. Ao mesmo tempo que demonstrou "uma enorme perda de qualidade da democracia", contribuindo para a piora sensível da imagem das instituições democráticas na população, também expôs a principal preocupação do PT, evidenciada na abstenção de um senador importante , Aloizio Mercadante (SP), e provavelmente de outros do partido.Para Couto, o PT agiu "mais como governo do que como partido" na votação no plenário. "A bandeira da ética na política que o PT ostentava já foi perdida há muito tempo, desde o caso mensalão, quando líderes da legenda vieram a público dizer que o partido fazia exatamente a mesma coisa que os outros, em relação ao caixa 2. Levando para a sabedoria popular, cabe dizer: o que é mais uma flecha para São Sebastião?", comenta, para dar um exemplo da pouca importância que considera que os petistas conferiram ao desgaste em sua imagem por conta da absolvição.O Senado absolveu Renan e a Câmara não puniu os políticos acusados no caso do mensalão e em outros escândalos. Diante da condenação geral à corrupção, o senhor considera que o Congresso está descolado da realidade?Este tipo de atitude contribui para desgastar, ainda mais, se isso for possível, a imagem das duas instituições e do próprio Congresso, que já está péssima, em meio à população e aos formadores de opinião. No caso do Renan, os senadores praticaram o que chamo de corporativismo negativo, o que significa dizer que a absolvição se revestiu da defesa de interesses comuns e não os relacionados à instituição. Não vejo, em princípio, um risco concreto à democracia ou mesmo à existência das instituições, que continuarão existindo. Ocorrerá, no entanto, uma sensível perda de qualidade da democracia. Com certeza muitos senadores se viram na mesma situação que seu presidente.E a participação ativa do senador Aloizio Mercadante a favor da abstenção na votação do processo contra Renan? Como o sr. vê essa atitude do PT, partido que sempre defendeu a ética na política?Essa bandeira da ética já foi perdida há muito tempo pelo partido. Basta lembrar do escândalo do mensalão, quando alguns dos principais líderes do partido vieram a público dizer que, em termos de recursos para campanhas, o PT fazia exatamente o mesmo que os demais partidos. Levando a questão para a sabedoria popular, o que é mais uma flecha para São Sebastião? Neste episódio, o PT agiu muito mais como governo do que como partido. O senador Aloizio Mercadante, com certeza, agiu mais como um homem de governo.Na sua avaliação, o que levou o governo Lula a defender o presidente do Senado na votação?Questões concretas, de interesse direto do governo. Tudo tem a ver com a importância do Renan, como um líder do PMDB no Senado, onde o governo é frágil. Sem dúvida Renan garante votos de uma boa parcela do seu partido. Mesmo fragilizado pelas denúncias, ele ainda tem bastante influência no PMDB, um partido fundamental para a aprovação de coisas importantes para o governo, como a prorrogação da CPMF e a reforma tributária.Poderíamos conjecturar que o governo fez o presidente do Senado de refém, que agora pode contar com sua amizade e agradecimento pela atuação da bancada?Não sei se foi exatamente isso, claro que não sabemos exatamente o que ocorreu, mas apostaria em uma hipótese diferente e até mesmo contrária a essa tese. O próprio Renan pode ter dito ao governo algo mais ou menos assim: ou vocês me defendem, ou eu e meus aliados não seremos tão condescendentes nas próximas votações. É claro que o governo precisa desesperadamente de apoio na Casa, onde sua situação não é tão favorável quanto na Câmara, e o PMDB é a maior bancada.E o que o sr. acha que ocorrerá agora com Renan? Procedem as interpretações de vários analistas, de que ele se afastará da presidência do Senado para sair do foco?Não vejo nenhuma razão para isso. Os últimos sinais que ele tem dado é de que continuará presidente. Renan já passou por momentos muito difíceis, quando poderia ter renunciado. Agora ele foi absolvido, embora vá enfrentar outras acusações. Por qual razão renunciaria agora? Não faz muito sentido. Além do mais, manter-se presidente do Senado é um elemento de reforço, do qual ele vai precisar, certamente.A oposição tem repetido que o resultado da votação demonstrou a forte atuação do Executivo no Legislativo e, diante disso, vai bloquear votações e criar problemas para o governo. Isso ocorrerá?Em um primeiro momento, provavelmente sim, mas não dá para levar uma postura de revolta muito adiante. Há um certo limite de pressões que podem ser exercidas contra o governo. Até porque a oposição sabe que pode voltar a ser governo no futuro e talvez não valha a pena inviabilizar totalmente a atual administração. DO PORTALO Senado decidiu, por 40 votos a 35, absolver seu presidente, Renan Calheiros. Você concorda com essa decisão?95% NÃO4% SIMQuem é:Cláudio Couto É professor de Ciência Política na PUC-SP. Também é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Rio Branco. Fez doutorado em Política na USP. É pesquisador do Centro de Estudos de Cultura Contemporânea (Cedec), do Núcleo de Estudos Políticos e de outros departamentos ligados à PUC-SP. REPERCUSSÃOCacá DieguesCineasta"A minha opinião é a de todo brasileiro. Estou perplexo. Não entendi até agora o recado do Senado ao País"Gabriela LeiteCoordenadora da grife Daspu"É uma vergonha. O sentimento que tive foi de remorso, de um dia perdido por ter ajudado a construir esse partido (PT)" Roger MoreiraVocalista da banda Ultraje a Rigor"Sou da opinião de que está tudo errado há séculos. O negócio está tão descarado que cansa. É lamentável"Bárbara PazAtriz"Somos fruto de uma geração sem utopia. Assim querem que o povo permaneça: cego,surdo e mudo. Marionetes da festa da bufunfa"Rogério CeniGoleiro do São Paulo"Foi uma decisão esperada, em se tratando de Brasil. Surpresa seria a cassação. Essa é a esperança que passam ao nosso povo"Elke MaravilhaAtriz e cantora"Como é que um país sem justiça pode caminhar para a frente? Se eles podem tudo, a gente também pode. Temos que resolver na porrada"Marcelo YukaCompositor e músico"Espero que a história não esqueça desse nome (Renan). É um homem que prefere afundar o Senado a se afastar do cargo. Estou catatônico"Magic PaulaEx-jogadora de basquete"Depois da mobilização na era Collor, a sociedade está se acostumando a deixar essas coisas passarem. O povo precisa tomar atitude"Letícia SabatellaAtriz"Tinha esperança de que ele fosse punido. Acho que passou da hora de exigirmos mais transparência dos políticos"Oscar NiemeyerArquiteto"Tenho dúvidas se a saída do Renan Calheiros se daria por uma questão moral ou política. Eu preferi a absolvição"Narcisa Tamborindeguy Socialite"Todos os senadores têm rabo preso. Não foi um bom exemplo. Se o voto fosse aberto, eles não teriam coragem de absolvê-lo"Rolando BoldrinMúsico e apresentador"A absolvição de Renan é uma mancha que detergente nenhum pode tirar. É a consolidação do desrespeito com o eleitor"Lucia StumpfPresidente da UNE"O caso Renan não acaba com a absolvição. O importante é que as investigações continuem e ele seja cobrado na Justiça"João GordoApresentador e músicoEra óbvio que acabaria em pizza. Esses caras sempre dão um jeito de se safar. Quem acreditou que seria de outro jeito é idiota"Carla ReginaAtriz"Revolta e impotência foi o que eu senti. O mínimo que se pode fazer é não ter memória curta e expurgar esses políticos na próxima eleição"Alex AtalaChef de cozinha"Que o núcleo é podre e o governo, conivente, é ululante. Minha preocupação é com o reflexo dessa impunidade numa sociedade sem horizontes para os jovens"

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